Sempre Vivemos no Castelo – Shirley Jackson

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Merricat (Mary Katherine Blackwood) vive com a irmã, o tio idoso e o gato Jonas numa casa que funciona como santuário: um território seguro, onde o mundo exterior não entra e onde, por isso mesmo, podem viver em harmonia sem ameaças nem receios. Os dias mais difíceis para Merricat são aqueles em que tem de ir à aldeia comprar provisões. A irmã, extremamente agorafóbica, não se aventura para lá dos limites da sua horta e o tio está praticamente acamado, por isso tem de ser ela a fazer esse sacrifício. Assim como tem de ser ela a assegurar a protecção da casa contra as malévolas forças exteriores. Para levar a cabo estas tarefas hercúleas, socorre-se de todo o tipo de dispositivos de protecção, tanto físicos como psicológicos. Objectos com ligação emocional à família enterrados, ou pendurados em árvores, assinalando o terreno quase sagrado que assim tornam inviolável, palavras mágicas que asseguram a ausência de mudança desde que não sejam proferidas, fugas em pensamento para a lua sobre o dorso de um cavalo alado. À volta de tudo isto, paira a hostilidade surda dos aldeões e a memória de um acontecimento enigmático que causou a morte de todos os restantes membros da família.

No início do livro, olhamos para tudo isto de fora, no nosso papel de pessoas normais, integradas num mundo normal, onde desempenhamos papéis normais e interagimos com outros de forma normal. Cientes da nossa normalidade, encaramos a família Blackwood com a curiosidade naturalmente despertada por desvios um pouco aberrantes: chegamos mesmo a compadecer-nos um pouco das fugas à realidade de Merricat, claramente motivadas pelo isolamento em que vive, da agorafobia de Constance, obviamente resultante de um trauma bastante grave, e da obsessão do tio Julian pelos seus apontamentos sobre a tragédia familiar, manifestação inequívoca de senilidade.

Porém, à medida que a leitura avança, dá-se o impensável: sem darmos por isso, vamos começando a identificar-nos com as pequenas idiossincrasias de cada membro desta família, a compreender primeiro as suas alusões a códigos muito próprios e depois até as suas motivações; vamo-nos apercebendo de que a hostilidade dos aldeões, que a princípio supuséramos ser percepcionada com exagero pelos Blackwood, talvez seja mesmo real e os leve até a ter atitudes maldosas sem explicação aparente; e, quando damos por nós, criámos empatia com esta pequena família e mudámos totalmente de lado – o isolamento da sua vida já não nos parece um absurdo, mas sim uma forma de defesa essencial contra a crueldade de quem os cerca; já não desejamos que se integrem na sociedade, mas antes que consigam defender-se dela; e os seus pequenos delírios já não nos parecem manifestações patéticas de um sofrimento interior, mas, em vez disso, sinais de pureza de espírito e de um afecto mútuo de beleza invulgar.

Chegados a este ponto, surge o intruso – um primo que vem hospedar-se na casa Blackwood com a intenção de “ajudar”. E claro que, em parte, reconhecemos nas suas reacções incrédulas a forma como nós próprios reagiríamos a um ambiente familiar desta natureza, se não tivéssemos já desenvolvido a capacidade de o compreender. Mas nem queremos pensar em admitir tal coisa. Não, nunca seríamos assim tão insensíveis. E juntamo-nos convictamente a Merricat no seu desejo de que o primo se vá embora, antes que a sua desagradável presença se impregne irremediavelmente em todos os cantos da casa.

Para mim, o ponto alto do livro é certamente a discussão que ocorre depois de Merricat sabotar o quarto do primo. Este tenta repreendê-la como o faria a uma menina mal comportada numa família convencional – e é totalmente ultrapassado pelas interpelações extravagantes de Merricat e do tio Julian, que, no entanto, estão a reagir com o que, para eles, é uma lógica imbatível. Toda a cena é descrita de forma tão magistral que é quase impossível não a reler várias vezes por puro deleite literário.

Aliás, o grande trunfo deste livro é a capacidade da autora de, através de uma escrita escorreita e directa, se nos infiltrar debaixo da pele e fazer de nós o que bem entende. Diverte-nos, enternece-nos e, entretanto, condiciona-nos, levando-nos a mudar de perspectiva a seu bel-prazer. Só um grande talento literário consegue causar este efeito.

Por fim, somos recompensados com várias revelações. O primo Charles terá mesmo mau carácter ou terá sido apenas incapaz de compreender as primas? Os aldeões serão mesmo intrinsecamente maus ou terão um fundo bom? E o que se terá realmente passado naquele dia fatídico em que o resto da família pereceu? As respostas a estas perguntas estão reservadas a quem ler o livro, e prometem fornecer amplo material para reflexão.

Excertos:

“Gostaria de entrar uma manhã na mercearia e vê-las a todas, até o Elbert e as crianças, ali deitados a chorar de dores e moribundos. Depois servir-me-ia das coisas de que precisava, pensei, passando por cima dos seus corpos, tirando aquilo que me apetecesse das prateleiras, e voltaria para casa, talvez depois de dar um pontapé à Srª Donell enquanto ela estava ali estendida. Nunca me sentia arrependida de ter pensamentos destes; apenas desejava que se pudessem transformar em realidade. «É errado odiá-las», dizia Constance, «apenas te enfraquece», mas eu odiava-as de qualquer maneira, e perguntava-me se até teria valido a pena terem sido criadas.” (pág. 20).

“Só parava de falar quando estava cansado. Quando Jim Donell pensava numa coisa para dizer, dizia-a com tanta frequência e de todas as maneiras que lhe era possível, talvez porque tivesse muito poucas ideias e tivesse de as torcer bem até já não restar nada. Além disso, de cada vez que se repetia achava que estava a ser ainda mais engraçado; eu sabia que ele podia continuar com aquilo até ter a certeza absoluta de que já ninguém o ouvia, e criei outra regra para mim mesma: nunca penses mais do que uma vez numa coisa, e pousei silenciosamente as mãos no colo. Estou a viver na lua, pensei, tenho uma casinha só para mim na lua.” (pág. 27).

“Uma vez um rapaz, desafiado pelos outros, parou no fundo das escadas de frente para a casa, e tremeu e quase chorou e quase fugiu, e depois gritou trémulo, «Merricat, disse Connie, queres uma chávena de chá?», e depois fugiu, seguido pelos outros. Nessa noite, encontrámos na soleira da porta um cesto com ovos frescos e um papel que dizia, «Por favor, ele não fez por mal».

– Pobre criança – disse Constance, colocando os ovos numa tigela para guardar no frigorífico. – Provavelmente, neste momento está escondido debaixo da cama.

– Talvez lhe tenham dado um bom açoite para lhe ensinarem boas maneiras.

– Vamos comer uma omeleta ao pequeno-almoço.

– Pergunto-me se conseguiria comer uma criança, se tivesse essa oportunidade.

– Duvido que conseguisse cozinhar uma – disse Constance.

– Pobres desconhecidos – disse eu. – Têm tanto a recear.

– Bem – disse Constance, – eu tenho medo de aranhas.

– Jonas e eu vamo-nos certificar de que nenhuma aranha se aproximará de ti. Oh, Constance – disse eu, – somos tão felizes.” (págs. 206-207).

Cavalo de Ferro, 2010

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