As primeiras coisas, de Bruno Vieira Amaral

asprimeirascoisasEu queria muito ter gostado deste livro, até porque me apaixonei por esta capa à primeira vista. Namorei-a tantas vezes na livraria. E as críticas a este este livro? Cada uma melhor que a outra. Devia ter desconfiado. Não devia ter deixado as expectativas crescerem.

Mas atenção: eu não detestei este livro. Confesso que lhe fiquei um bocadinho indiferente. E ler as últimas 100 páginas foi um suplício. Li a contrarrelógio, algo que detesto fazer e acabei por me obrigar a ler mesmo quando não me apetecia muito ( e mesmo assim levei 2 semanas a lê-lo, não foi uma leitura rápida nem fácil).
Já não é novidade para quem lê os meus textos que às vezes associo cores a livros. Neste caso a predominância do creme/castanho na capa atraiu-me mas a cor que associo a este livro é o cinza. Uniforme. Banal. Feio. Cor de rato. Uma cor triste, que se esquece facilmente. Porque este livro fala de gente assim, amorfa, triste, trágica (mas sem a força das grandes tragédias, sem o negro que lhe está associado). E isto não tem nada a ver com o facto do bairro Amélia ser de ricos ou de pobres. Esta sensação de ausência de cor, de ausência de calor não tem a ver com dinheiro, tem mesmo a ver com a ausência de força, de coragem, de garra… sim, principalmente de garra. Alguns dos personagens, dos habitantes deste bairro até podem tê-la, mas rapidamente são esquecidos na panóplia de “entradas” deste livro.
E essa parte foi algo de que também não gostei. Isto não é um livro, com princípio, meio e fim. É o conjunto de uma série de entradas (ainda por cima por ordem alfabética, exceto uma) em que cada uma conta a história (ou um pouco da história, ou um acontecimento que a envolve) de uma personagem. Cada personagem é-nos apresentada dessa forma. Há entradas para personagens, entradas para acontecimentos. E pronto. O livro é isto.
Falta-lhe um rumo, um objetivo. Ou então eu é que não o percebi, porque como comecei a dizer a crítica geral (e mesmo a do goodreads) é ótima.
E nem posso dizer que detestei o livro. Não me provocou a repulsa de Baltazar Serapião ou a angustia de um Desumanização. Simplesmente este livro não me transmitiu (quase) nada. Ou fui eu que não percebi nada. Provavelmente foi isso.
Mas não deixo de o aconselhar.
Está muito bem escrito e apesar de não ter achado o “todo”interessante (até porque acho que o “todo” não existe), gostei das “partes”.Acho que o livro faz um fantástico retrato de um bairro naquelas condições. Um retrato de época excelente.
(E só uma perguntinha: já vi este livro ser considerado um policial. Não percebo. Alguém me explica, por favor?)
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12 pensamentos sobre “As primeiras coisas, de Bruno Vieira Amaral

  1. Só não concordo que as personagens sejam amorfas – são complexas, e muitas vezes o aparente conformismo é apenas uma capa. Mas, realmente, tenho de concordar que este livro é uma oportunidade aproveitada pela metade. Com este talento para a escrita, este cenário e estas personagens, foi uma pena o autor não ter construído uma história que seria certamente memorável. Assim, é apenas um estudo interessante sobre pessoas. O epíteto de “policial”, provavelmente posto por alguém que acha que essa categoria se aplica sempre que há uma morte não explicada, é um perfeito disparate.

    • Achas que o conformismo é apenas uma capa? Eu acho que foi a capa que o autor lhes deu. É muito óbvio que para o narrador voltar ao bairro Amélia é uma derrota e que apenas os derrotados, os falhados lá ficaram. E essa foi uma das coisas que me desiludiu no livro: certamente aquelas pessoas teriam muito mais para dar.

  2. As dúvidas que eu tinha em relação a ler ou não este livro dissiparam-se com esta tua opinião. Por enquanto não me apetece mesmo nada pegar nele.

  3. Pois! Eu desisti ao fim de algumas páginas… Fiz mal? Pois, nao sei! Às vezes sabe bem desistir, nao insistir. Tanto que há para ler… Os livros são mesmo assim. Provocam diferentes reacções nos leitores. E ainda bem! Um viva aos livros!!!! Bj

    • Cristina, com tanta história, personagens, locais para conhecer não me parece nada mal que desistas de um livro se ele não está a “conversar” contigo. Eu já sabia que a vida não chega para todos os livros bons do mundo antes de aterrar nesta Roda e agora ainda mais.

  4. Renata e Cristina, pois não sei. Eu não consegui gostar. Apesar de ter gostado de algumas partes nunca consegui que o livro me prendesse. Custou-me mais ler este livro que o Desumanização e vocês sabem o quando odiei esse livro. Mas esse transmitia-me algumas coisa, mesmo que negativa. Fiquei indiferente a este, infelizmente. E só não desisti porque ia ao encontro com o escritor. Mas talvez devesse ter desistido, talvez lhe devesse ter pegado noutra altura. Enfim, nunca saberei. Mas a maioria das pessoas gostou imenso do livro. E mesmo entre as meninas da roda as opiniões diferem. E ainda bem que assim é, que temos oportunidade de conversar, discutir, trocar ideias sobre livros. 🙂

  5. Aquilo que nos faz amar, odiar ou ficar indiferentes a um dado livro é tão pessoal e intransmissível! Às vezes é um processo racional, outras vezes nem tanto, podemos nem conseguir perceber o porquê da nossa impressão relativamente ao livro. Mas isso de muitos outros gostarem não é para mim o principal. Tudo acaba por ser muito, mesmo muito, subjectivo. O que me leva a não querer ler este livro é a falta do fio condutor que referes e a sua falta de um epílogo coerente que ligue todas as histórias individuais. Faz-me lembrar “O teu rosto será o último” que foi, para mim, uma enorme decepção.

  6. Vou a meio do livro e estou a gostar (sem ser uma maravilha), ao contrário do último livro do valter hugo mãe (DESUMANIZAÇÃO) que larguei à página cinquenta…

  7. as boas críticas são fáceis de explicar: o autor é crítico literário, escrevia e escreve para a Ler, foi publicado pela Quetzal, editora que é da mesma empresa da Ler, e portanto alguém com amigos críticos, que não deixaram de escrever bem sobre o livro do amigo. Assim se fazem escritores em Portugal. Toda a crítica literária não é mais que um dizer bem dos amigos. Serve para ele e para todos os escritores portugueses que recebam críticas. É tudo uma fachada.

    • Em primeiro lugar, Romeu, peço desculpa, só hoje vi este comentário e por isso só agora o aprovei.
      Gostava imenso de te dizer “não acho que tenhas razão” mas, infelizmente, acho que em parte tens. Uma outra experiência que tive, também com um livro de um critico literário, com críticas excelentes… e depois o livro foi uma desilusão. Enfim…

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