Broca’s Brain de Carl Sagan

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Pode não parecer, com o tempo que o levei a ler, mas a verdade é que gostei mesmo muito deste livro, o facto de ser compacto, estar em inglês e eu ter sido abalroada pela Roda dos Livros (li entretanto o Sr. Penumbra e o Jesus Cristo Bebia Cerveja) levou a um proloooooooongamento da leitura.

Este é um livro já velhote, foi editado em 1979 e é um conjunto de vários artigos publicados por Carl Sagan entre 1974 e 1979 que, por isso, se lê como se fossem “contos”.

Começando pelo título, o Sr. Broca era cirurgião, neurocirurgião e antropólogo  francês dos anos 1800 que estudou a parte física do cérebro, queria saber se os assassinos, ladrões, violadores e outros malfeitores tinham um cérebro diferente das pessoas ditas “normais” então, andou a escarafunchar em cérebros de cadáveres amavelmente doados à ciência (ou não… ) e percebeu que existia uma área do cérebro responsável pela capacidade de falar ou de compreender a linguagem escrita ou falada. Ainda hoje essa área do cérebro se chama área de Broca. Resta dizer que este senhor morreu com 50 e poucos anos de uma hemorragia no cérebro e que, esse mesmo cérebro, ainda anda a flutuar dentro de um frasco cheio de formaldeído guardado algures no Museu do Homem em Paris. A ciência como a conhecemos hoje com todas as suas ramificações começou em muitos casos assim “deixa cá abrir esta cabeça para ver como é por dentro” e hoje temos programas de computador que simulam todo o funcionamento do corpo humano, no entanto, tivemos de começar por algum lado.

O conhecimento é tudo, perguntar porquê como se fôssemos crianças de 5 anos, porque é que os planetas são redondos? Porque não pirâmides ? ou cubos? Propor hipóteses, verificar se fazem sentido comparando com o que já sabemos ser verdade, pensar em testes para comprovar a nossa hipótese inicial e estamos a “fazer ciência”.

E a palavra ciência tem sido usada praticamente para tudo desde que a religião (qualquer uma delas) deixou de ser a resposta para todas as questões universais. “Cientificamente comprovado” é o que mais se lê/ouve por esses canais de comunicação afora. Mas, não nos podemos esquecer do pequeno grande pormenor que é a prova. Eu até posso afirmar que consigo caminhar sobre a água, posso prová-lo? Em condições controladas, que possam ser repetidas? Pois é não é só dizer, é preciso provar, e Carl Sagan não brinca em serviço tem mais de 50 páginas a descascar no Sr. Velikovsky ou melhor no livro “Mundos em Colisão” onde encontra mais de 10 erros, contradições ou incorrecções e enumera-as todas, alegre e implacavelmente.

Um dos capítulos que mais gostei foi a sua visão pessoal da ficção científica, quando era miúdo lia as aventuras de John Carter e afins mas todos os pormenores incoerentes com a realidade faziam-lhe confusão. Sabia que tinha de ver séries como o Star Trek duma forma alegórica e não literal mas não conseguia encaixar o cruzamento entre um vulcano e uma terrestre que para ele era como um cruzamento entre um homem e uma petúnia. Considerava a ciência muito mais subtil, complexa e espectacular do que a maior parte da ficção científica.

Também a sua forma de nos ver, a nós raça humana, no nosso pequeno planeta chamado Terra no meio de uma imensidão desconhecida é bastante interessante.  Coisas tão básicas como o nome dos planetas, luas, montanhas, existentes em planetas e em luas, satélites, cometas levaram a grandes discussões. Os nomes dos asteróides por exemplo são compostos por um número e um nome que começou por ser feminino normalmente da mitologia, por exemplo 1 Ceres, primeiro asteróide a ser “visto” tem o nome da deusa dos cereais.  No entanto, 2000 asteróides depois, esta regra começa ser difícil de ser seguida por falta de senhoras mitológicas e uma grande oportunidade perdida foi 1984 Orwell que teria dado um nome de asteróide bem catita de acordo com Sagan.

No entanto, Carl Sagan não falava só sobre o espaço, sistemas solares e afins sobre a forma de nos deslocarmos no nosso dia a dia e sobre os combustíveis fósseis afirma: posso facilmente imaginar uma futura sociedade, saudável e estável em que andar a pé e de bicicleta são os primeiros meios de transporte, com carros não poluentes de baixa velocidade e transportes públicos em carris total e largamente disponíveis para todos. Ainda não chegamos lá, Carl.

Para finalizar a sua visão sobre Deus e a religião que não era incompatível com a ciência ou o conhecimento. Quando lhe perguntavam se acreditava em Deus, pedia sempre para lhe darem a definição de Deus, normalmente esta era: uma força maior que nós e que existe em todo o lado do universo, e a sua resposta: – acredito em várias dessas forças uma delas é a gravidade.

Seria um prazer falar com este senhor se ele ainda fosse vivo, sobre todo e qualquer assunto, que diria ele da evolução da “world wide web”, da clonagem, do turismo no espaço, das 40 horas de música dentro de um iPod e de como parece que, por vezes, a raça humana não aprendeu nada de jeito.

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