A Velocidade dos Objectos Metálicos – Tiago R. Santos

avelocidade

What if God was one of us? Just a slob like one of us?

A pergunta de Joan Osbourne está presente ao longo de toda a leitura deste livro. Quem disse que Deus é sábio? Ou dedicado? Ou incansável? Ou justo? Ou, até, preocupado em ser justo? E não serão todas estas qualidades incompatíveis com a convicção de que fomos feitos à Sua imagem? Sendo assim, de onde viriam a nossa preguiça, o nosso egoísmo, a nossa estreiteza de vistas?

E se Deus for um velhote simpático, mas nem por isso isento de defeitos? Se gostar de apreciar a Sua pinga sem que O interrompam com questões existenciais, se nem sempre estiver com paciência para nos aturar, se praguejar e resmungar quando tem de trabalhar sem Lhe apetecer? E se Ele próprio tiver as Suas limitações? Se muito do que nos rodeia não Lhe puder ser imputado, sendo, em vez disso, da nossa exclusiva responsabilidade?

E se o nosso destino for traçado, não por vontade divina, mas pelos vestígios que ficam em nós dos traumas por que vamos passando, das decisões que vamos tomando, das pessoas com quem nos vamos cruzando? Se, em vez de culparmos os céus pelo estado insatisfatório das nossas vidas, tivermos de culpar as nossas próprias escolhas, que nos conduziram a este ponto? Estaremos preparados para abdicar do nosso bode expiatório polivalente e para responder por todos os passos que demos até ao dia de hoje?

E se a hora da nossa morte não for determinada por Deus, mas pela velocidade a que conduzimos os objectos metálicos que nos transportam?

Este livro levanta todas estas questões. Ao mesmo tempo, apresenta-nos personagens com uma espessura tocante – marcadas pelas vicissitudes da vida e em plena travessia do processo de perda de ilusões. Algumas a debater-se como peixes fora de água, outras em contemplação algo atónita da sua vida e das vidas alheias, outras simplesmente amargas. Mas todas elas geradoras de empatia.

Para mim, a leitura deste livro não foi uma experiência uniforme. Teve momentos de puro assombro e momentos de quase tédio. A escrita do autor reflecte o caos do discurso interior e, por isso mesmo, torna-se por vezes cansativa e, de vez em quando, absolutamente espantosa. O facto de as personagens serem designadas por números em vez de nomes causa algum desconforto a princípio, dificultando a distinção entre elas, mas acaba por nos obrigar a identificar cada pessoa não pelo nome, mas pelo seu comportamento e carácter. Assim, mesmo que queiramos fazer desta obra uma leitura ligeira, tal não nos é permitido. Somos obrigados a mergulhar nela sem colete salva-vidas nem garrafa de oxigénio. E a sentir o apelo das águas profundas…

Excertos:

Não era uma grande vida mas era descansada, ia-se andando, um dia a seguir ao outro, esse tipo de coisas, até que recebi aquele telefonema. Não fui eu que o atendi. Foi um estagiário. Uma criança que ainda acredita que se deve obedecer aos toques, não sabendo que esta vida é uma tempestade radioactiva e que o melhor a fazer é encontrar um abrigo o mais depressa que se consegue, fechar as portas com tábuas e pregos e passar o resto da vida a comer refeições em lata.” (pág. 60)

“A Filipa tem 12 anos, a Andreia sete, a sua jovem idade não lhes permite possuir ainda grande mistério. Nada do que falam é particularmente interessante, continuam a descobrir o mundo sem saber que aquilo que lhes parece magnífico ou fascinante é, na verdade, apenas mais um elemento que se irá banalizar com o passar dos anos até perder todo o seu deslumbre.” (pág. 76)

“O velho começa a rir-se. «Eu sei, penso nisso imensas vezes, não é por acaso que vocês são feitos à minha imagem, que raio de ideia. Um Deus de merda que criou Humanos de merda. Ou terá sido ao contrário? Quem é que inventou quem? Já passou tanto tempo, é impossível lembrar-me, merda de memória esta que se esquece das coisas importantes e se fascina com tudo o que é secundário. Como vocês, as pessoas, que não são mais do que crianças que passam os dias a querer andar à porrada, parecem aqueles irmãos que não conseguem ficar quietos no banco de trás enquanto os pais vos levam numa viagem de carro, sempre a querer confusão, sempre a reclamar, sempre a fazer perguntas estúpidas e a querer parar para ir à casa de banho ou para invadir um país ou começar uma guerra porque a vossa superstição é mais importante do que as fantasias do vizinho, comer beber foder aleijar matar, é isso que desejam e não me fales de amar, sei o que vais dizer, mas amar faz parte de aleijar (…)».” (pág. 170)

Clube do Autor, 2013

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