“O Deserto dos Tártaros” de Dino Buzzati

“O Deserto dos Tártaros” de Dino Buzzati é um relato da vida de Giovanni Drogo aquando do seu destacamento para a fortaleza Bastiani, na senda de uma carreira militar de destaque. A desconfiança inicial com o local, inóspito e desértico é substituída pela rotina militar e as suas responsabilidades. Cumprindo a angustiante tarefa de permanecer na fortaleza, esta é justificada pela ilusão de que acontecerá a batalha que transformará a sua vida e carreira.

A vacuidade da vida no rigor de uma farda, na esperança vã de um acontecimento improvável.

Talvez seja esta a melhor frase para resumir o deserto que é este “O Deserto dos Tártaros” de Dino Buzzati.
A espera em troco de glória. O inóspito terreno em troco de bravura. A angústia em troca do comodismo… pela espera sufocante de uma invasão tardia e ilusória… a resiliência imposta pela farda e as regras militares.

É assim que eu vejo este livro: um deserto, um tédio, um desconforto, uma revolta, uma vida gasta em tarefas rotineira, a ilusão do destino preso ao acaso, preso às decisões alheias…
Dino Buzzati tem uma escrita que é capaz de assumir esse cenário desértico. Os parágrafos estão estruturados para que o leitor experimente o tédio, a rotina, a goteira que pinga e incomoda, mas à qual nos habituamos… o ranger da madeira, que estala e ainda vive, mas vive aprisionada, apertada, confinada… ao corroer dos dias, das horas… tempos vagos e inúteis que compõem um dia, um ano, uma década… uma vida.

A braços com o destino, Drogo escolhe aquela vida, inquirindo-se muitas vezes sobre o seu verdadeiro papel, levando-nos a nós, leitores e espectadores desta vida de eterna espera, a pensar sobre a nossa própria vida e propósito, escolhas e impasses. Quem somos? Para onde vamos? Fizemos as escolhas certas? Era este o nosso caminho? E o destino, pertence-nos ou é fruto de inúmeros acontecimentos que não controlamos?

Antes de terminar “O deserto dos tártaros” ainda me tentei iludir e questionar: há guerra ou não!? Pelo menos da sangrenta, daquelas que mudam o curso da história dos homens e da História de todos nós. No entanto, a guerra é outra, é sempre a interior, faz sangrar na mesma e verter muitas lágrimas. O peso do destino e o peso da nossa mão naquela que é a nossa história, pode ou não mudar o curso de outras vidas? Seria isso que Giovanni Drogo quereria? E nós, que obra, que feitos queremos deixar ao mundo?

Sem dúvida que este é um livro sobre escolhas e o peso de cada uma delas, pois mesmo quando não escolhemos, escolhemos. Ditamos o nosso curso sob a influência dos demais e deixamo-nos guiar por eles. E por eles perderemos a nossa vida? E você, por quem perderia a sua?
As questões não são propriamente minhas, são sim, produzidas pelo tédio que Dino Buzzati causa em nós. Creio que a mestria do autor está nisso, escreve um livro que a gente lê e sente-se lá, naquele deserto, no lugar da sentinela, que espera, que mira, mas não enxerga nada! O autor pede-nos que olhemos nas costas de Drogo e vejamos a nossa própria história.

A minha curta opinião, ainda durante a leitura, num pequeno post no facebook:

Um livro que é um deserto, Bazzati é um deserto, a escrita é um deserto… Bazzati talvez tenha sido o escritor, que até hoje, me tenha conseguido meter mais dentro do cenário. Talvez tenha sido, igualmente, aquele que mais me fez sentir as ânsias e as angustias do personagem. Creio que a maior beleza do livro é essa de nos revelar na escrita o que nos revela no enredo – a dureza do passar do tempo, o fim da juventude, o peso das falsas esperanças… Só tenho a apontar uma única distância que tive do livro, a da temática militar, uma temática com a qual não sinto afinidade nenhuma, mas receio que sem isso, o peso da honra e da glória, a disciplina e o rigor já não seriam iguais. No entanto, ainda estou a digerir.

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