Um Aprazível Suicídio em Grupo – Arto Paasilinna

umaprazivelsuicidioemgrupoQuerer morrer. É necessário um grande desencanto para desistir de tudo. Neste livro o suicídio chega a ser considerado desporto nacional na Finlândia. Como é que a tristeza se pode tornar tão grandiosa que apague tudo o que de bom significa estar vivo? Tendência dos países nórdicos por causa da falta do sol? Ou será que as motivações para a tristeza e para o desencanto são universais?

Penso que são. Universais. Agora o que leva um povo a ser mais extremista que outro é que deixo para os sociólogos e antropólogos explicarem. O que retive deste livro, e que para mim é mais importante, é que as necessidades fundamentais de qualquer ser humano para ser feliz são transversais a todo o mundo. Depois vêm as diferenças, na sua maioria proporcionadas pela riqueza. Não falo só de dinheiro mas de todo um modo de vida existente nas sociedades (ditas) mais avançadas, em que os objectivos das pessoas passam obrigatoriamente pela carreira, por lutar por um nível de vida elevado, com comodidades e luxos. E nessa luta isolamo-nos porque relegamos para segundo plano as amizades e as relações humanas. Para atingirmos os nossos objectivos de conforto perdemos, muitas vezes o norte do que nos faz felizes, a essência do que é sermos pessoas que se relacionam positivamente umas com as outras, para nos tornarmos ilhas.

Eu nunca pensei matar-me mas os motivos que fazem o grupo de suicidas deste livro procurarem a morte são, na sua grande medida, os mesmos que trazem momentos de tristeza à minha vida. A frustração profissional, as relações de competição e frieza no mercado do trabalho, a falta de amigos, a solidão, o isolamento provocado pelo urbanismo e pela industrialização. O Homem é um ser social que, nos nossos dias está cada vez mais só.

Arto Paasilinna consegue, com uma escrita muito simples e bonita, recheada de apontamentos irónicos capazes de nos deixar a rir sobre a morte, fazer pensar sobre tudo isto enquanto acompanhamos um grupo de homens e mulheres que viaja pela Europa em busca do precipício ideal para acabar com a vida.

É uma viagem de quem sente que não tem mais nada a perder. Um grupo que atinge um nível de liberdade total só proporcionado por se sentir constantemente à beira do abismo. A sensação de estar no fim da linha, quando se prolonga, pode proporcionar uma análise diferente. Este grupo fica a conhecer-se, conversa, discute, humaniza-se, recupera algo essencial e eu quero acreditar que não é preciso olhar a morte de frente para perceber a essência da vida.

“O homem tira do bolso uma sanduíche, morde-a com apetite e diz para consigo que, no fim de contas, a vida é magnífica, simples, digna de ser vivida. Olha fixamente para as chamas, acaricia-as com o olhar. Assim têm feito os finlandeses durante milénios. Tal como agora os suicidas, ali reunidos à volta da sua fogueira na Floresta Negra, longe da pátria. Gente tão posta à prova pela vida que se esqueceu cedo de mais da sua beleza.” (Pág. 161)

Sinopse

“É precisamente no S. João, festa de luz e alegria realizada em pleno Verão, que um pequeno empresário em crise, Onni Rellonen, decide acabar com a vida. Mas quando, de pistola no bolso, se aproxima de um celeiro isolado, local ideal para uma morte tranquila, depara com uma estranha cena. E, no último momento, consegue salvar um outro candidato ao suicídio já com um nó corrediço apertando em volta do pescoço. É o coronel Kemppainen, um inconsolável viúvo que escolhera igualmente aquele luminoso solstício para pôr fim à vida.
Influenciados por este acaso renunciam à sua intenção comum e conversam sobre as razões que os levaram a tomar tão sombria decisão. Já em casa de Onni preparam uma sauna, bebem, pescam e tratam-se por tu.
Depressa chegam à conclusão que na Finlândia existe um grande número de candidatos ao suicídio. E daí até à ideia de fundarem uma associação de «candidatos ao suicídio» vai um passo. Colocam um anúncio:

ESTÁ A PENSAR SUICIDAR-SE?

Não entre em pânico, não está sozinho.
Também nós temos pensamentos semelhantes,
e até alguma experiência. (…)
Respostas à Posta Restante dos
Correios Centrais de Helsínquia,
para: «Tentar em conjunto.»

E um dia, acompanhados de três dezenas de companheiros, partem num confortável autocarro para uma aprazível viagem de suicídio colectivo. Atravessam a Europa em busca do melhor precipício para se lançarem no vazio. Entre os candidatos, encontram-se alguns com bastante humor, outros mais sombrios, mas todos eles participando nas ferozes reflexões de Paasilinna sobre o suicídio enquanto desporto finlandês.
Acabam por encontrar o local ideal em Portugal, uma falésia junto à Fortaleza de Sagres.
Um Aprazível Suicídio em Grupo é uma narrativa irónica e macabra, que provoca riso e compaixão. É também uma fábula terna e ácida sobre vidas sombrias.”

Relógio D’Água, 2010

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