“Gente Independente” de Halldór Laxness

Antes de mais: Muitos parabéns, Roda dos Livros!!! 😀

Gente Independente

Ao acabar a leitura deste “Gente Independente” fui invadida por uma nostalgia estranha, um certo sentido de perda e, acima de tudo, uma sensação de que nada em mim ficaria como estava antes de o ler. Durante  o tempo em que estive imersa neste romance absolutamente excepcional senti-me muito mais que uma mera leitora. Senti-me verdadeiramente parte da vida de Bjartur e dos outros personagens; estive ali, na charneca islandesa, na casa de turfa de Bjartur, acompanhei a sua luta pela sobrevivência através das estações  e dos anos, dos ventos , da neve e do breve Verão nórdico. Ouvi-o recitar as suas rimas e defender o seu ideal de independência, sempre, mesmo quando tudo parecia estar contra ele.  Bjartur é sinónimo de força estóica, de teimosia indómita, duro como gelo por fora mas preenchido pelo fogo da compaixão e do amor pela sua família. Bjartur é a Islândia: gelo e fogo, uma verdadeira força da natureza, obstinada em sobreviver em condições quase sempre agrestes e adversas. Impossível ficar indiferente à sua luta constante por uma vida livre e digna, ao seu espírito de orgulho intransigente que o conduz a perdas enormes mas não o quebra. A prosa maravilhosa, embora por vezes densa, de Laxness enfeitiça-nos e submerge-nos. Fica-se quedo, mudo, com os olhos bem abertos de deslumbramento e o coração aquecido perante as palavras extraordinárias deste autor. Mágico, envolvente, inesquecível.

Nada será como antes.

Deixo aqui alguns excertos, porventura mais do que seria desejável num artigo de blog, mas menos, muito menos do que aqueles que gostaria de destacar:

“É o seu pai a recitar.

Ela espreita debaixo do cobertor, e não é que ele continuava sentado à beira da cama dela, quando todos os outros já se tinham ido deitar, está a arranjar ferramentas, já ninguém se mexe, a sala de estar dormia, só ele está acordado, recita, com a camisa vestida, entroncado e de ombros largos, com braços fortes, cabelo emaranhado. As suas sobrancelhas eram lãnzudas, íngremes e salientes como os penhascos na montanha, mas no seu forte pescoço existe um lugar macio debaixo da raiz da barba, e ela observa-o durante algum tempo sem que ele se aperceba: o homem mais forte do mundo e o maior poeta, tinha respostas para tudo, compreendia todas as rimas, não temia nada nem ninguém, luta sozinho contra todos numa praia distante, independente e livre; um contra todos.”

“Da mesma maneira que nunca ninguém poderá dizer que Bjartur de Casas de Verão tenha alguma vez sido vencido nas suas guerras universais contra os espectros deste país, não importa quantas vezes possa tombar dos precipícios ou dar cambalhotas nos barrancos, enquanto ainda houver vento que possa entrar nas minhas narinas nunca serei abatido, ainda que sopre com toda a força. Por fim ficou quieto e encostou-se contra o vento, como se de uma parede se tratasse, mas nenhum conseguia empurrar o outro para trás.”

– “Bjartur só fez a viagem de regresso a Casas de Verão no dia seguinte. A cadela saltitava junto dele, feliz na sua expectativa. É maravilhoso estar a caminho de casa. E cada vez que chegava uns passos à frente do seu dono, parava e olhava para trás, para ele, cheia de uma confiança inabalável, depois voltava para ao pé dele fazendo uma curva grande. A reverência que tinha pelo seu dono era tal que não se atrevia a passar à sua frente. Aquilo que o cão procura, encontrará junto do homem. Ele inclinava-se contra as rajadas da neve puxando Blesi, mas muitas vezes olhava de lado para o seu pobre cão, coitadinho, pulguento e cheio de parasitas, mas onde habita deveras a fidelidade, senão nestes olhinhos acastanhados, essa dedicação que nada consegue corromper? Desgraça, desonra, problemas de consciência, nada consegue extinguir aquele fogo, essa criatura pobrezinha, aos olhos dela Bjartur de Casas de Verão deveria sempre ser o sublime, o maior, o melhor, o incomparável. Aquilo que o homem procura encontrará nos olhos do cão.”

“ Em seguida apareceram os artigos que estavam directamente relacionados com as próprias crianças, o aparato educacional que lhes trazia por força das suas funções. E afagou com afecto esses pacotes rectangulares e disse, pois bem meus meninos, vamos cá ver: nestes pacotes está escondida a sabedoria do mundo. E esse parecia ser certamente o caso. Dos pacotes emergiram livros novos, cheirosos, cada um embrulhado num papel liso e colorido e atados com um cordel branco, livros de todas as cores do arco-íris com imagens por dentro e por fora, cheios das leituras mais incríveis, um sobre uma desconhecida  espécie de animais, outro sobre povos diversos e reis falecidos, o terceiro sobre países estrangeiros, o quarto sobre a peculiar magia dos números, o quinto sobre a há muito desejada cristianização da Islândia, tudo, tudo pelo qual a alma anela, novo em folha directamente do livreiro, regimentos de maravilhosas novas que elevam a alma para planos superiores e banem a tristeza vária da desolação da vida dos homens, sim, agora tempos melhores nos esperam a todos.

Permitiu-lhes que tocassem um pouco em cada um dos livros, mas só com a ponta dos dedos esta noite, a literatura não tolera mãos sujas, primeiro teremos que forrar com papel todos os volumes, as capas não devem ficar sujas, nem as lombadas se devem romper; livros são do mais precioso que a nação possui, os livros têm preservado a vida da nação através do monopólio, das pestes e das erupções vulcânicas, não descurando as carradas de neve que têm coberto as dispersas povoações deste país durante a maior parte de cada um dos seus mil anos, e é isto que o vosso pai bem sabe por mais dura que seja a sua casca, e por isso mesmo vos enviou um homem especial com estes livros, e agora temos de aprender a manuseá-los com delicadeza; e as crianças pensaram no seu pai com uma gratidão que quase os fez sentir um nó na garganta, ele que os tinha abandonado sem os ter esquecido.”

“E agora falemos de Deus.

Durante dois anos ou mais tinham, ela e as outras crianças, ansiado por ficar a conhecer Deus, saber o que Ele pensa e onde está, e se Ele governa o mundo de facto.

E agora dispunham aqui em casa de dois livros sobre Deus, as histórias da Bíblia e o catecismo, juntamente com um professor que parecia saber todo e qualquer um dos atributos relevantes desse ser peculiar que está acima de todos os seres mundanos. Acharam desde logo muito esclarecedor ouvir como criou o mundo, ainda que não obtivessem resposta alguma à razão pela qual Ele teve de o criar. Mas tiveram alguma dificuldade em entender o pecado e como conseguiu entrar no mundo, pois era para eles um mistério indecifrável a razão pela qual a mulher sentira um desejo tão apaixonado de comer a maçã, porquanto não tinham a mais vaga ideia sobre as propriedades sedutoras da maçã, pensando que era uma espécie de batata. No entanto achavam ainda mais difícil entender o grande dilúvio resultante dos quarenta dias  de chuva e quarenta noites, pois anos havia ali na charneca em que chovia durante duzentos dias e duzentas noites quase sem interrupção, e no entanto nunca tinha havido um dilúvio.”

“Ele ficou sem saber o que dizer perante tamanha tristeza, preferindo sentar-se em silêncio junto da sua irmã no verde primaveril, também demasiado jovem; e as cordas ocultas no seu coração começaram a vibrar e a cantar.

Foi a primeira vez que ele olhou para dentro do labirinto da alma humana. Estava muito longe de o compreender. Mas mais importante que isso: partilhava com ela as suas emoções. Muito, mas muito mais tarde reviveu essa memória numa canção; ambos na sua canção mais bonita, e na canção mais bonita do mundo. Pois a compreensão do desamparo da alma, do conflito entre os dois pólos não é a fonte da canção suprema. A empatia é  fonte da canção suprema.”

“(…) estou de acordo com o nosso rei das montanhas em que se olharmos para os ideais das guerras com um olho e para todos aqueles homens e mulheres que são destituídos de vida e de saúde com o outro, então não é de admirar que às vezes nos visite o pensamento de que porventura seria melhor que os homens se esforçassem mais por poupar vidas humanas em lugar de ideais. Porque se os ideais não visam fomentar a vida humana aqui na Terra, mas matar homens aos milhares, ora então podemos perguntar-nos se neste caso não seria mais plausível ficarmos completamente destituídos de ideais, embora uma vida assim fosse naturalmente vazia. Porquê, se os ideais não são a vida e a vida não são os ideais? Logo, o que são os ideais? E o que é a vida?”

“Pois bem, acontece que tinha pouco sentido oferecer a homens pobres um subsídio do fundo nacional para comprarem tractores e maquinaria moderna. Ou um empréstimo a quarenta anos para construírem uma casa com paredes duplas em betão com todas as comodidades, linóleo e luz eléctrica. Ou um bónus sobre os seus depósitos. Ou prémios para cultivarem grandes extensões de terra. Ou um grandioso sistema de esgotos para o estrume de uma vaca, ou uma e meia. Ou perdões de grandes dívidas enquanto são forçados a trabalhar dezassete a dezoito horas por dia para poderem acumular dívidas alimentares cada vez mais altas. Pois não tem sentido nenhum oferecer condições vantajosas a ninguém excepto aos ricos, os homens ricos são os únicos que podem aceitar condições vantajosas. Ser pobre é exactamente aquele peculiar estado do homem de não poder desfrutar das condições excepcionais. Ser um agricultor pobre consiste em nunca poder tirar proveito das vantagens que os políticos oferecem ou prometem, e estar à mercê dos ideais que apenas fazem os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.”

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8 pensamentos sobre ““Gente Independente” de Halldór Laxness

  1. Halldór Laxness, um Nobel e um nórdico no qual quero pegar!
    Renata, excelente capacidade de resumo. Claro que chamar resumo ao teu cuidado e sentido texto, é uma ofensa, mas gostava de ter essa capacidade de síntese, de escolher as palavras fortes, que em conjunto formam ainda frases mais fortes e que conseguem dizer muito sobre um livro. Parabéns.

    • Mas qual ofensa? E achei que já escrevi muito. Sinto que nada que alguém diga sobre este livro fará justiça ao enorme génio de Laxness. Mas atenção, dentro dos nórdicos, confesso que tenho uma predilecção especial pelos islandeses. No final, o gosto pessoal de cada um terá a palavra. Muito obrigada pelas tuas simpáticas palavras!

  2. Este é um dos livros que são inesquecíveis para mim. Como filho de agricultores pobres, criado na Beira Baixa gelada no inverno, guardador de ovelhas quando era criança, este livro tocou-me profundamente. Laxness passou ao papel também um pouco da minha história.

    • Um dos meus livros favoritos e um dos melhores que tive o prazer de ler nos últimos tempos. É impossível esquecer a história de Bjartur.

      • Tarde, mas “mais vale tarde do que nunca” – pelo que li na sua opinião -, este livro só o comprei ontem, 25 de Janeiro/2017. A síntese que me dá a conhecer sobre ele, fez-me recuar a um outro, do autor norueguês Knut Hamsun (Frutos da Terra) que me deixou deslumbrado porque também me senti dentro do livro, atento aos seus contornos de vida e me parece ter alguma coisa em comum com este “Gente Independente”. Vou lêr com interesse, a mostragem que me dá do como se vive naquelas paragens frias da Islândia, permite-me pensar que não vou perder o meu tempo. Obrigado.

      • Espero que goste deste magnífico Gente Independente. Terá de certa forma afinidades com Frutos da Terra, outro romance magistral do qual também gostei bastante mas, Laxness tem uma escrita que me agrada particularmente pelo que Gente Independente permanece mais marcante.

  3. Acabei de ler ontem este “Gente Independente”. Entre a data da compra e a da leitura outras leituras me ocuparam. Não me causou, com toda a sinceridade, o mesmo impacto que à Renata. Não desqualifico o seu conteúdo, sei que Laxness é um prémio Nobel e, neste livro, o autor tem o meu aplauso ao abordar, como só um islandês o poderá fazer, crenças do povo rural do seu país, vivências diárias desse mesmo povo a quem ele, Laxness, retrata com o conhecimento que só um igual o poderá fazer. A narrativa não é simples, diga-se, mas aceito a tradução como fiel e sem reparo. Mas não gostei do livro, já li bastante melhor.

    • Ainda bem que assim é. Se todos gostassem do mesmo, o mundo seria monótono. Para mim, continua sendo um dos livros predilectos.

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