«As Recordações de Edna» de Sam Savage – Opinião

“Quero falar acerca do silêncio: é o silêncio da ausência de rugido, um rugido que se ouve (…) um rugido cacofónico e mesclado da amálgama de pessoas…” (pág.31)

É neste rugido, já quase imperceptível, não que esteja a ficar surda, mas porque já o ignora, que Edna vê passar os seus dias. É no silêncio e na ausência que Edna para e sente, realmente, o passar do tempo e Clarence que já se foi.

Inclinada para a divagação, Edna tem em mãos a árdua tarefa de dissertar acerca de Clarence, aquele que foi seu marido e companheiro de uma vida, mas de quem recorda tiques, manias, taras e alegrias, entre as suas próprias memórias, confundindo entre o que é seu e o que era de Clarence. O que me deixa logo a mãos com uma questão: ao fim de tantos anos de vida em comum, que memórias são as nossas, a não ser as que são de ambos!?

É no “martelar das teclas” que Edna se sente tentada a deixar “trovejar” os pensamentos e a aplicar-lhes pouco filtro… já se sabe, que muitos anos de vida em comum, são mais do que suficientes para apontar todos os defeitos… mas será isso que os leitores de Clarence querem ler!? Mas se assim não for, conheceram verdadeiramente o homem por detrás do escritor?

“As solidões, reparei, não gozam de atracção mútua.”

É nesta frase brilhante que Edna nos apresenta Potts, a vizinha que lhe fará uma brecha na solidão, não pela sua presença, mas por outra, um tanto peculiar e que aqui não vou desvendar.

«As recordações de Edna» são quase como um resumo atabalhoado daquilo que pode ser a vida conjugal, depois de muito se ter ido embora e apenas restarem as atribuladas e magoadas visões do passado, que poderão alternar-se entre saudade, nostalgia, remorso, frustração… afinal tudo isto se acumula ao longo da vida, ou não?

“Quando li aquilo pensei, mas qual é a vida que tem capítulos?” (pág.38)

Que capítulos se estabelece na idade geriátrica? É nessa canseira, entorpecida pelo peso da idade que Edna se vê confrontada com ideias e mais ideias que surgem em catadupa, numa torrente imparável, uma fonte que não seca, onde as águas se sobrepõem em movimentos enérgicos. Ainda para mais, tudo isto em contraponto com a falta de energia física, que apenas dá para uma voltinha no jardim e escrever à máquina virada para um vidro, literalmente, marcado pelo passar do tempo.

E o barulho das coisas mortas que incomoda tanto o silêncio dos vivos!? Curioso, não é?

Pensamentos de quem pensa demais. Pensamentos de quem deseja o sossego, para não encarar o desassossego dos outros e dos seus dias cheios de vida.

“(…) empurrada para aqui e para ali pelos ventos da veleidade e da memória (…)” Edna volta a escrever, perdão, a dactilografar, entreolhando as folhas escritas que teimam em fugir debaixo do pisa papeis, que é nada mais nada menos que O Peso do Mundo de Peter Handke, numa metáfora, a meu ver, surreal, para a mão critica de Edna sobre Clarence.

Mas afinal, que peso e importância teve Clarence na vida de Edna?

“O que me leva a perguntar se o importante é o que acontece no passado, ou o que nos lembramos que aconteceu.” (pág.98)

As divagações continuam e esperamos o resultado de tanta dactilografia de Edna. Mas, sucede-se o mesmo com as respostas que queríamos que Andrew Whittaker recebesse e nunca recebeu. É este estado de, sem resposta, que caracteriza os livros de Sam Savage. Esta tendência de abrir várias janelas e lançar muitas discussões, mas sem nunca bater com a porta ou dar o assunto encerrado.

Será isto uma analogia com a própria vida? Whittaker e Edna são ambos personagens solitários, terminaremos todos assim?

«Nem sequer é solidão, é pior do que solidão, é uma mente cheia de coisas» (p. 182)

E o que é esta mente cheia de coisas?

Talvez uma mente cheia de dúvidas!

«Há uma incongruência. Talvez os acontecimentos sejam demasiado grandes para as palavras. (…)Ou talvez seja ao contrário: as palavras é que são demasiado grandes; algumas palavras são demasiado grandes. A palavra «amor» é demasiado grande. (…)” (pág.163)

Que laço é esse o do amor? Uma ilusão? Um desgosto? Ou simplesmente o melhor que nos pode acontecer e que tanta falta nos faz quando o perdemos.

Na ilusão de que Clarence pode ter sido o tudo, como o nada, Edna vê-se presa às recordações e às dúvidas, à desconfiança do que teria sido, ou não, a sua vida ou até do que foi, deixando no ar a dúvida sobre se o destino cabe nas nossas mãos ou está às mãos do acaso.

A propósito de tal temática, Edna despertou-me a curiosidade para «Winesburg, Ohio», de Sherwood Anderson . E continuo também a querer ler Firmin, a primeira obra de Sam Savage.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s