«Mil Sóis Resplandecentes» de Khaled Hosseini – Opinião

Trinca as pedras na secura da terra, bebe o sangue da tua luta.
Transpira, as tuas, as minhas, as de todos os outros, lágrimas que alimentam o teu dia.
Sonha na maternidade a esperança de um povo, o destino de uma nação.
Sofre as dores de uma jihad, que aos olhos dos outros é implacável e aos teus uma necessidade incógnita.

Sê uma harami, uma bastarda numa vida que te é madrasta.
Recolhe à kolba que te acolhe com os braços de um palácio, na inocência que Cabul te arranca
Nas entranhas corre o sangue de uma luta que não vê as diferenças ténues de um povo que não se une.

Sopra o vento, que fustiga, que traz notícias dos shahid, inscreve nas areias dos tempos, as lendas dos mártires… que as mães, os pais, os irmãos … choram, não esquecem!

Não se podem contar as luas que brilham sobre os seus telhados, 
Nem os mil sóis resplandecentes
que se escondem por trás dos seus muros.

Inshallah de Maher Zain (versão árabe)

 
 
 
Ter lido «Mil Sóis Resplandecentes» de Khaled Hosseine, que em 2006 foi nomeado Embaixador da Boa Vontade do Alto Comissariado das Nações Unidades para os Refugiados, foi como que uma viagem a décadas de história de uma nação marcada pela guerra e pela derrota humana, pois tantas vidas são gastas em nome de uma matança e de um sofrimento extremo. Uma luta pela concordância de opiniões e de perspectivas perante a condição humana subjugada à crença, ao culto, às heranças antropológicas de facções dentro de um mesmo povo.
São lutas desumanas travadas por humanos fragilizados, são promessas esquecidas, são vidas por vingar, são heranças culturais perdidas, são filhos órfãos de uma batalha esquecida.
São vozes que a Oriente se misturam e a Ocidente emocionam, mas segue-se, seguimos… A fome, a luta, a doença, a dor, a violência, as bombas e as balas perdidas… são dores que lemos, sentimos o aperto, a lágrima que quer cair, as imagens que chocam… é numa escrita como a de Hosseini que, quase, quase se sente, se cheira, se saboreia, o travo amargo, ácido de uma violência e uma dor que a nós nos parece impossível de suportar. Homens e mulheres, crianças, cidades, vidas, cultura, língua e religião que são massacrados pela vontade de alguns, o destino nas mãos alheias, o sofrimento que mata e fere para uma vida eterna, numa precariedade extrema, numa miséria aguda.
Um livro angustiante, mas igualmente brilhante, ou não apelasse ele ao título que tem. Um livro que ultrapassa a dor, que quer mostrar o amor, a amizade, a dedicação, a vitória… as pequenas guerrilhas que se vencem e curam pequenos grandes males.
No entanto, eu arrisco a dizer que a guerra é uma cicatriz interna, que se pode esconder, mas nunca se poderá esquecer e ler relatos semelhantes a estes lembra-me que devemos abençoar a sorte que temos de viver aqui, mas que a sorte e a felicidade não nos permita esquecer quem precisa, mesmo que só sejamos capazes de dar a mão a quem a nós esteja mais perto
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