A Balada de Johnny Sosa» de Mario Delgado Aparín – Opinião

É impossível começar por falar deste livro sem antes mostrar o que tenho para vos mostrar, seja o vídeo ou as imagens… uma obra para outra obra!

Sem dúvida que este pequeno, mas poderoso, quase booktrailer é simplesmente divinal e poderia muito bem resumir na sua pacatez e simplicidade a história do desdentado Johnny Sosa e a sua paixão pelo blues, pela loura Dina ou quem sabe pela Terelú, ou a chegada dos camiões… ou até o inglês estranho que se entranha “com a voz de cascalho dos recém-acordados”.
Johnny que “esperava com a ansiedade das crianças pela hora do espaço fértil da madrugada” era um homem para quem “o caminho continuava opaco no seu creme de lama fria” e o “vento carregado de impertinências” e a quem “fugiram as baratas sob o forro das prateleiras”…

Recheado de amor, mas também de desavenças, Johnny brindava à vida com a Loira Dina, a não ser quando esta “de imaginação envenenada por algum diabo” o fazia repensar a sua vida, mas ele insistia -“é um trabalho como qualquer outro.”
Seria? Johnny Sosa sonhava e abstraia-se da vida, num hino à música e aos blues.
Num misto atrevido “(…) de Frankie Avalon, Ray Charles e os piores venenos de Lou Brakley (…)” Sosa, usava a música “para purgar um rol de delitos indiscutíveis”.
“Do alto do colorido palco do salão (…) como um verdadeiro caminho para a alma” o negro aprisionava a repressão, os fantasma do incógnito futuro, o infortúnio da guerra, a intolerância da ditadura … “o tempo da magia tinha chegado”.
As oportunidades surgiram a Johnny Sosa mascaradas de branco e acalentadas com um sorriso, “mas parecia que não gostava do que via, porque voltava a enclausurar a visão com redobrada energia (…)” para se entregar de novo aos seus devaneios “(…) e deixou-se ir a bem rumo às trevas mais solidárias da aldeia.”
“As conversas voltavam a adquirir a consistência cinzenta e nebulosa dos lugares condenados”, onde nada nem ninguém podem dizer-nos do que é feita a integridade e a felicidade de cada homem.
Uma balada à complexidade e a imprevisibilidade da capacidade humana de sobreviver e encantar.
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