«Para onde vão os guarda-chuvas» de Afonso Cruz – Opinião

“Os caminhos são mais longos – disse um dia Elahi – para quem está sozinho. (…) Os dias esticam e ficam mais longos, o relógio diz que não, mas, com licença, o que sabem os relógios da alma humana? Não sabem nada, Alá me perdoe. O tempo demora mais a passar, muito mais, é assim que se sofre. Quando se está feliz, esse mesmo tempo passar a correr, parece que vai atrasado para uma festa, mas, se vê uma lágrima, pára e fica a ver o acidente, dá voltas à nossa desgraça e não anda para a frente como os relógios dizem que ele faz.

(…) Disse Ali: Não é a falta de pessoas à nossa volta que faz a solidão. São as pessoas erradas.”

O caminho é verdadeiramente longo. Os dias irão esticar-se. O tempo parecerá parado. Os relógios avariados. «Para onde vão os guarda-chuvas» de Afonso Cruz é uma trovoada de questões e um dilúvio de emoções. Um relato carregado de luz, mas marcadamente povoado de nuvens negras.
“54. Encheremos o mundo de coisas preciosas. Serão tantas que os homens passarão por elas julgando-as banais.”
Assim estou eu perante este livro. É precioso todo o encadeamento, todo o complexo de histórias que se cruzam, como as tais linhas dos tapetes de Fazal Elahi, mas o sofrimento é tanto, que eu ainda estou a recuperar de todos os socos violentos que esta narrativa nos dá! E o fim!? O fim foi sufocante.
Não posso dizer inesquecível, pois eu quero esquecer a possibilidade de tal acontecer, mas é inevitável dizer que o fim quebra todas as regras do quanto o ser humano suporta sofrimento.

Fazal Elahi era um homem com o desejo de passar invisível, acreditaria que de tão invisível conseguiria enganar a morte. E enganou, pelo menos a física, já a emocional…
Fazal Elahi era bom muçulmano, mas uma alma irrequieta e turbulenta, atulhada de questões, muitas a Alá.
A própria forma como aceitava as irreverência de Bibi demonstrava que o seu entendimento suplantava os ensinamentos mais restritos ou fundamentalistas. Aliás, a vida de Fazal Elahi foi toda feita de irreverências e rodeada de pessoas ainda mais irreverentes.

Badini, o mudo mais falador de sempre (só pode) fazia das mãos palavras e das suas palavras poemas, artes, explicações divinas para o entendimento supremo da vida. Mas se segundo ele somos estrelas, aquelas que Alá vê quando olha lá de cima, porque razão o futuro se pinta tão negro? O mudo tinha muito medo da felicidade. A felicidade era como uma mão que tira e uma outra que dá, mas só que em locais diferentes.

Nas mentes irrequietas e intelectualmente desconcertantes de Badini e Elahi recaem as melhores partes do livro. Os seus diálogos, revelando preocupações que ultrapassam religiões, costumes ou política, são antes o espelho das preocupações humanas, revelando as semelhanças que nos unem. Talvez nunca se diga em palavras explícitas, mas o que ambos desejariam era ponderação, tolerância, equilíbrio… mas a vida, o mundo, para além de ser um composto frágil, tem também um equilíbrio absurdamente/moralmente/curiosamente/esteticamente desequilibrado.

Curiosamente são as ideias, que mesmo dispersas rapidamente se unem, permitindo, quase absurdamente, ver um equilíbrio entre ensinamentos cristãos, hindus e muçulmanos, como se com um pouco de cada lado, se obtive-se um conjunto quase perfeito.

“- Disse Rumi: uma opinião é um pássaro com apenas uma asa.”
“- Posso continuar cristão? (Isa, pág.379)
Fazal Elahi coçou a barba e condescendeu:
– Podes, desde que sejas um bom muçulmano.”

Mas a religião não fica por aqui e não se esgota. A antiga Pérsia é também trazida para dentro do livro com toda a beleza dos Fragmentos Persas, um livro dentro de um livro. Como o Afonso Cruz já nos habituou. Há também ascetismos, esoterismo e misticismo… há filosofia, numa preocupação de entender a Humanidade, de compreender o próximo como uma continuação de nós mesmos.

Fazal Elahi será um exemplo? Será a sua fé e a sua capacidade de ser reinventar e perdoar um ensinamento? Mas o que lhe falta para ser constantemente magoado, espezinhado e atraiçoado?
Fazal Elahi perde um filho.
Bibi é atraiçoada nas suas convicções.
Aminah é fútil ou quererá apenas testar um sonho, uma promessa de emancipação!?
Badini que na sua divindade prova a sua teoria da felicidade.
Nachiketa Mudaliar converte-se por amor, mas não esquece as raízes e é com elas que justifica a vida
Salim, Nauman ou Isa… a inocência reflectida no íngreme que são as escadas da vida.

O rol de personagens é extenso, mas consistente. Afinal a vida é pautada de inúmeros encontros e desencontros que, mais ou menos, contribuem para a nossa educação, para a nossa liberdade…
“(…) a educação é uma limitação da nossa liberdade, ensinamos os outros a respeitar fronteiras…”

É difícil explicar, mas este livro é um compêndio de ideias, de ensinamentos, de questões… quem sabe uma bíblia para ateus, daqueles que crêem em algo, mas não sabem bem o quê. E “se é difícil de explicar, é porque não é verdade, a verdade é algo muito simples.”
Mas como se ensina esta verdade simples, se somos todos tão complicados!? Não ensinamos, não explicamos… perguntamos, questionamos, vivemos na dúvida.

“O futuro é uma pergunta. Se há terrorismo eficaz, que valha a pena, é perguntar.”

E vocês, sabem para onde vão os guarda-chuvas?

“Alguns poemas, traduzia Elahi às crianças, ficam colados nas árvores e no céu, e só se apanham quando estamos suficientemente maduros para o fazer.”
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