Jeff Em Veneza, Morte em Varanasi, Geoff Dyer – Opinião

Um jornalista freelancer, uma festa badalada, sim é a Bienal de Arte de Veneza, mas podia ser qualquer outra festa, já que o que interessa são drogas, álcool e sexo… com mulheres bonitas de preferência.
O trabalho é um empecilho, a arte também, suportam-se as festas e as pessoas que fazem as festas à custa de bellinis e a corrida aos convites mede-se pelo alcool e a droga que se conseguirá consumir. A prosa não gira só em torno desta fina camada de pó dos dias, mas pouco mais. Há Jeff e Laura, essencialmente, a droga, as cenas de sexo e o vago, sim, tudo é vago!

Vaga é a sociedade, as obras de arte, as opiniões, as reportagens… enfim, a elite (supostamente) letrada e opiniosa da arte contemporânea, artistas e tendências actuais. No entanto, com o recurso a uma escrita que seja quase a ser displicente, Geoff mostra-nos um lado fétido, desprovido de valores e bastante amoral, que todos falam e desconfiam, mas que nem sempre se coloca na montra e revela ao mundo.
É uma realidade artificial, superficial e efémera  daí o desprendimento e a desmotivação com que a personagem (um misto de escrita auto biográfica com ficção – palavras do autor) vive actualmente a fase da meia idade.

Vaga é também a história ou o fio condutor que se espera que a mesma tenha, há um pseudo romance no ar, que por momentos dá um novo fôlego à vida do homem de meia idade, mas há também um objectivo profissional que é mal executado, por momentos talvez se chegue a pensar que é propositado e que a história lá volte… mas não, não volta.

Desprendimento é algo que também encontramos na escrita deste livro, que podia muito bem dividir-se em dois, talvez possamos interpretar Veneza e Varanasi como dois lugares, duas entidades díspares e antagónicas que vivem dentro do personagem, simbolizando conflitos interiores diferentes e fases da vida em que a pessoa procura algo, não sabendo muito bem o quê.
Aliás, a dificuldade em se definir ou a necessidade em se afirmar é bastante notória em ambas as situações com o cabelo e o que isso representa, seja internamente para a pessoa, seja a aceitação e impacto na sociedade que o acolhe.

E falando em acolhimento, chegamos a Varanasi – é Jeff que acolhe Varanasi ou é a cidade que o acolhe?
A mudança para o Ganges View é uma mudança mais interna do que geográfica?

“O que se passa com o destino é que é algo que quase pode não acontecer e, mesmo que aconteça, raramente se parece com aquilo que é.”

Se assim é, que importância têm as nossas escolhas, ou as nossas preocupações? Será o acaso a condicionante e mão oculta que conduz os mistérios das nossas vidas? Ou não haverá mistério nenhum e a busca por espiritualidade, paz, felicidade não faz qualquer sentido?

A escrita despretensiosa, crua (às vezes quase cruel) e por vezes até complexa e intrincada (se contarmos com o que as entre linhas nos dizem), traz uma nova roupagem à escrita de Geoff nesta metade de si, nesta viagem, mais interior que cultural, profissional ou turística. Jeff vai ficando em Varanasi, navegando de ghat em ghat, de funeral em funeral, respirando a morte, inalando o fumo e a putrefacção, ora dos corpos, ora das flores e ainda os dejectos animais e humanos que povoavam ruas, ruelas, becos e vielas, descendo escadas, como o povo que se banha no rio sagrado.

Eu gostaria de ter lido mais sobre cultura, tradição, festividades, simbolismo, mas talvez alguma da inactividade, incerteza e busca interior do personagem seja em si o simbolismo de uma sociedade que vive do instantâneo, dos factos, das garantias, numa insignificância de mordomias. E depois, uma vez por ano, de férias, normalmente, parte em busca de paz e espiritualidade, como um flash, um momento repentino que os curasse de anos de solidão ocupada por desconhecidos, anos de vazio povoado por fantasmas de gente, pelo consumo exacerbado…

Será a Índia uma sociedade flagelada pelo cunho de uma tradição que parece mórbida, macabra e até arcaica? Ou será a nossaflutes de álcool, pós de alívio rápido e tecnologias de felicidades à distância de um clique!?
sociedade, afogada em

Talvez o livro até tenha muito para nos ensinar se nós estivermos as questões certas para lhe colocar.
A maioria dos meus destaques (páginas com cantos dobrados) vão para referências a filmes, músicas, autores, peças de arte… enfim, pequenos grandes deleites a que a sociedade de consumo nos habitua…

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