«A Casa com Alpendre de Vidro Cego» de Herbjorg Wassmo – Opinião

É impossível ficar indiferente a este «A Casa com Alpendre de Vidro Cego» da norueguesa Herbjorg Wassmo!
“A poesia espera emboscada nos pormenores – no abençoado gotejar do caleiro partido, por exemplo. Porém, este era tão tímido e esquecido quanto uma criança miserável que ninguém ama ou cuida.” (pág.26)
E assim começa a poesia e a magia deste livro. Como que um binómio, onde a tudo o que é belo, corresponde algo monstruoso e nefasto. Onde a tudo o quanto é mágico, corresponde a algo tenebroso.
“A magia de se estar vivo raramente ocorria a qualquer uma dessas pobres pessoas. Para isso, eram precisas, pelo menos, ventanias fortes e naufrágios.” (pág.27)
Sem dúvida! É nessas ventanias e naufrágios da vida, que Tora, a nossa personagens principal, se vai, ora afogando, ora nadando para longe, entortando-se conforme o lado para onde o vento sopra mais forte, mas também resistindo como uma árvore rija, de folha persistente.
Tora persiste à descendência de “fedelha alemã”, contornando a aspereza de uma população que a olha de lado. O seu tom ruivo de tranças enredadas relembra-a todos os dias, as diferenças, mas igualmente uma força que não a deixa render-se.
A crueldade, esse lado duro e frio – tão bem descrito por todo o livro – mistura-se com os tons agrestes de uma vila piscatória de beira mar, assombrada pelas dificuldades de subsistência que também condicionam a vida de Tora.
A ausência da mãe, Ingrid, trabalhadora e ganha pão da casa, aumenta as investidas nocivas de um padrasto bêbado e violento, que vê nela um abrigo para as suas falhas, silenciando nela as suas investidas nocturnas. Transtornada e assombrada pelo negrume em que vive, Tora refugia-se nos ensinamentos e desafios da professora Gunn e da tia Rakel, duas mulheres de força, pouco subjugadas e menos ainda rendidas às evidências.
“O pai delas era um homem pequeno e grisalho que nunca batia com as portas (…) um género de sombra amena a quem ninguém prestava atenção…” (pág.45) mesmo descrevendo com beleza e mestria, Wassmo revela uma comunidade repleta de homens não assim tão rijos como seria de esperar e mulheres lutadoras e que estavam lá para marcar a História.
Sendo, «A Casa com Alpendre de Vidro Cego» o primeiro volume de uma trilogia, quem sabe, este relato histórico continua pelos anos afora, testemunhando a vida de Tora, como se espera, mas também, nos ensinando a história do próprio país, sem que para isso recorra a relatos intrincados ou desnecessariamente detalhados. É na simplicidade que Wassmo ganha fãs.
Porém, a meu ver, essa simplicidade é mascarada, já que a densidade está nas personagens e nos seus actos. Resta ao leitor, desmembrar e visualizar as várias camadas que o texto comporta em si.
“As histórias esperavam por ela, lá, junto às paredes, nas sombras da mobília, entre as vigas atravessadas no tecto.
As melhores tinham sempre um pai que regressava.” (pág.65)
É nesta, quase ansiedade que esperamos que o sol brilhe para Tora. Que as suas histórias se escrevam por linhas direitas e as alegrias de estar vivo sejam mesmo alegrias. Um relato repleto de pequenos detalhes, rebuscados, mas igualmente simples, pormenores de uma vida pobre, onde a felicidade é ter um par de botas (disponíveis), ou um caderninho e um lápis escondido, como um tesouro…
É a densidade da dor e a dureza de vidas como a de Tora ou a de Sol que amplificam todas as imagens que este livro cria na nossa cabeça. Somos incapazes de não verter uma lágrima quando lemos o capítulo do quarto malcheiroso de Elisif e a separação da família. É quase que descabido que a menina se chame Sol e viva num local tão pouco acalentado por ele. É nestas metáforas e jogos de palavras que a escrita de Wassmo se torna ainda melhor.
Mesmo descrevendo o feio, o frio, o áspero, Wassmo é belíssima:
“Por outro lado, a luz sobre a mesa brilhava nas suas caras pálidas e indefesas, e transformava todas as linhas do rosto numa cicatriz de cirurgia mal curada, e todas as borbulhas, num desafio nojento e pouco chamativo.” (pág.116)
A desumanização que se encontra neste livro é descrita de uma forma tão tocante que volta a reanimar o lado romântico e até sonhador de qualquer desumanizado:
“Bom dia, Tristeza” poderia ser o hino dos dias de Tora, mas não… “Quando Tora lia, quase tudo o resto perdia importância.” … “Era por isso que Tora remava sempre de frente.”

e
Ver o amor como “um domingo no verão.” é brilhante!!!

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