«O Filho» de Michel Rostain – Opinião

“Um filho que perde um pai chama-se órfão. Como se chama um pai que perde um filho?”

Um livro que começa logo pela capa. Um enredo negro e lúgubre o suficiente que pode desencorajar pessoas que se julguem mais sensíveis ou impressionáveis, mas que ninguém deixe de ler este relato sofrido, negro, mas também com um lado sarcástico e de humor, que mesmo negro, nos arranca alguns sorrisos. Não esperem contudo rir à gargalhada, fala-se de morte e da morte de um filho, algo fulminante. Mas fala-se de superação, de perdão, de confissão… de um pai purgar a sua dor através de um relato quase musical. Entre o lirismo de algumas peças, o tom dorido dos dias que passam sem sentido para um pai e a voz sarcástica e jovial de Lion… assim se narra «O Filho», o romance de estreia de Michel Rostain, a purga que lhe valeu a superação do luto, a imortalização da memória e do nome de Lion, mas valeu-lhe também um Prémio Goncourt em 2011.

Michel Rostain, para além de autor deste peculiar romance é também encenador de óperas, por sinal, algumas delas sobre a morte, em particular uma delas até a encenou e dirigiu perto da data de morte do filho. O percurso musical e a forma de sentir do autor estão intimamente ligadas à música, a própria forma de Michel sentir um outro cortejo fúnebre, pouco antes daquele que viria a “organizar” para o seu filho Lion, é caracterizado e descrito através das músicas. Mas não é só ai que a música entra, ela está em inúmeras páginas. Desde Bach a Ravel, Radiohead ou Portishead, Schubert ou até Audrey Tautou… o percurso musical é um caminho que é inevitável. Tão inevitável que lhe fiz uma banda sonora. O poder da música, confere ora ritmo ora pausas a este relato tão caricato. Carismático também, mas caricato e peculiar serão as palavras de ordem.

“Um pai herdeiro do filho, encadeamento incompreensível de palavras. Desordens do tempo.” (pág. 23)

É nessa desordem do tempo que um pai se habitua a viver sem um filho, sem nunca esquecer que tem a necessidade de lutar para se lembrar disso… de que é capaz de viver depois da morte.
No caos e no sofrimento, por onde continua a vida? Acariciando fotos num computador? Relendo cadernos e outros testemunhos parcos em ensinamentos… que um pai procura para conhecer melhor o filho perdido!?

“A morte é uma máquina de arrependimentos?” (pág. 51)

Como se desimpede o caminho da dor? Que arrependimentos ficam… os das coisas que fizemos ou daquelas que nem sequer fizemos?

Confusão, medo, negação… lágrimas, luto! O peso do ontem.
Luta, purga, superação… lágrimas, luto! A força do amanhã!

“A caderneta de família não está em dia!” (pág.107)
E depois da morte de um filho, algum dia volta a estar em dia, essa tal caderneta de família?

E não podia acabar sem música, «Hold On» Tom Waits.

No seguimento do vídeo podem aceder a toda a banda sonora que escolhi para o livro, tentando ser fiel às referências musicais da obra.

Um livro da Sextante EditoraLeia mais sobre o livro aqui. Ou leia as primeiras páginas aqui.

Boas Leituras.

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