«O Colecionador de Mundos» de Ilija Trojanow – Opinião

Eu deveria ter desconfiado quando Günter Grass avaliou este livro e o comparou a um clássico. Ler Grass é uma aventura e um desafio, ler Trojanow não foi por isso diferente. A «Mody Dick» vou deixar para outras viagens literárias.

Ilija Trojanow é um verdadeiro admirador de Sir Richard Francis Burton, são palavras do próprio autor aquando da apresentação do livro em Lisboa, por isso, aquele que poderia ser um livro biográfico do oficial britânico é antes um romance com uma linha ténue entre o relato verídico e o ficcional, igualmente afirmações do autor, já que não possuo conhecimentos sobre a vida e a obra de Richard Burton.
Para além das considerações, quase sinopses do livro, assistir a esses pequenos trechos relatados pelo próprio autor, é captar a paixão do mesmo pelo tema e pela personagem, foi esse interesse e o cunho de uma escrita, que no desenrolar do livro se torna cada vez melhor, que me fez terminar este livro.

Se o início do ano foi marcado por Mo Yan e as particularidades de uma China distante e culturalmente afastada da minha realidade, chegou agora a vez de ler Trojanow e experienciar um romance igualmente difícil. Se nas primeiras 200 páginas houve uma luta muito grande para continuar a leitura, todas as dúvidas se dissiparam durante a peregrinação a Meca. É aqui, na segunda parte do livro que eu me viciei na escrita e  na acção ali descrita. Já na terceira parte, compreende-se perfeitamente o subtítulo «Na memória dissolve-se a escrita», se para mim é a parte melhor, é também a parte que retorna ao início e algumas dúvidas retornam, afinal, o que pretende Trojanow narrar? Que fio condutor encontramos na escrita sobre Burton? Será «O Colecionador de Mundos» quase um álbum das três grandes incursões camufladas do oficial britânico!?
Se nas últimas 170 páginas, as primeiras 40/50 arrancam levemente, as cem últimas fazem-nos desejar novas aventuras, talvez mais outra cem, quem sabe mais.

“De que tens medo, baba Sidi? Da linguagem dos tolos e ingénuos para a qual tu e outros como tu traduzem qualquer tipo de experiência. Aquilo que eu vi não encontra lugar nos pequenos espaços despidos que tu arranjas.” (pp.336)

Se é no poder da palavra, seja ela escrita, ouvida ou falada que reside o fundamento da vida de um homem, então Burton foi exímio na qualidade da palavra que pronunciou. “Só havia uma possibilidade de não desperdiçar a sua vida: aprender línguas. As línguas eram armas. Com elas iria conseguir libertar-se das amarras do tédio, incentivar a sua carreira, enfrentar tarefas e desafios mais exigentes.” (pp.50)

Se me perguntarem o que relata o livro, eu diria que o livro é uma aprendizagem, antes de mais, é uma história sobre aprendizagem. É um romance sobre o ser humano, a sociedade, o mundo, as culturas, as diferenças, mas acima de tudo a aprendizagem que podemos fazer uns dos outros, incentivando o nosso próprio conhecimento sobre o que somos capazes de fazer.
Se a Burton importava conhecer e falar a língua dos nativos, interessava-lhe igualmente experienciar, disfarçar-se para se interligar com os povos, conhecendo-os assim por dentro, no âmago das suas experiências culturais.

Se sempre lhe interessou a riqueza na mistura e na convivência com os povos, interessou-lhe também os segredos da religião, da tradição ou até da intimidade com uma mulher, uma cortesã e os segredos do prazer. É aqui que chega o primeiro grande episódio, que marca para mim este capítulo. O que serão verdadeiramente as cortesãs cobras e o envenenamento pelo prazer. Será este envenenamento pelo prazer uma metáfora para as grandes aventuras de Burton? Viveria ele uma história toda ela envenenada pela curiosidade e a ânsia de viver? Terá toda a vida de Burton um cunho de consumação por um amor maior?  Ou foi apenas um episódio digno das artes de cortesã, para atrasar o clímax!?

Se na Índia encontramos a melhor qualidade narrativa nas palavras de Naukaram ou até na relação com Upanitche (o homem com um livro no lugar do coração – pp.91), já a caminho de Meca, a riqueza da acção reside no extenso interrogatório que confere dinâmica e fluidez à própria viagem para que naveguemos até aos leitos do Nilo, onde ninguém conhecia o caminho, se ninguém conhecia o caminho, todos podiam servir de guia. É na voz de Sidi Mubarak Bombay que conhecemos a luta pelos diferentes ideais entre os wasungus Burton e Speke. Qualquer uma das partes revela duros episódios, mas descobertas e conquistas maiores ainda. O enredo e a narrativa acompanha majestosamente cada parte, diferenciando a escrita, consoante o narrador, a viagem e a própria presença marcante de Burton, fazendo-nos quase pensar que estamos na presença de três livros diferentes, que se completam é certo, mas que são em si metáfora para a crise interior de Burton, um homem que parecia insatisfeito com o que a sua cultura e sociedade lhe ofereciam, mas que sabia não pertencer às que visitava. As leis de Burton prendiam-no apenas à lealdade para com quem partilha o mundo, não se podia caminhar hoje ao lado de alguém, e amanhã abandoná-lo à sua sorte e miséria.

“O chicote não deixa para sempre marcas numa pela que se muda. Acreditem no que vos digo, meus amigos, o ser humano muda de pele como uma cobra.” (pp.366)

Confesso que a pouco mais a meio do livro, tive necessidade de ler mais sobre o autor para compreender onde me levaria tal romance. Se da Índia colorida, mas suja, jejuamos com o oficial e aprendemos hindustani, deixamo-nos melhor ainda peregrinar e interrogar a caminho do local sagrado da fé islâmica, obrigando-nos (pelo menos a mim obrigou) a querer ter mais imagens do local. Por fim, assistimos à expedição até aos grandes lagos, às nascentes do Nilo. E lendo sobre o autor, descobrimos que talvez ele próprio se reveja na pertença ao mundo que Burton parecia sentir.

Quero ainda dizer que o “se” é a palavra que marca a leitura deste livro, pois tendo começado por uma afirmação “se eu o ler até ao fim”, passei para “se eu tivesse a gostar!?” para agora, ao fim de um mês de leitura e mais de uma semana a fermentar a crítica, chego à fase de dizer “se este não será um dos favoritos deste ano!?”
Um livro que é em si uma verdadeira peregrinação à excentricidade de um homem que despertou a curiosidade e a aprendizagem de muitos.

Uma leitura que recomendo vividamente, já que aqui o que importa não é o destino, mas sim os capítulos da viagem.

*
Uma leitura com o apoio da Rede de Bibliotecas Municipais de Vila Franca de Xira que gentilmente adquiriram esta obra por sugestão do nosso blogue. Obrigada!

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