Para Onde Vão os Guarda-Chuvas – Afonso Cruz

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Para onde vai tudo o que perdemos? Para onde vão os guarda-chuvas, as pessoas que deixaram de fazer parte da nossa vida, a pessoa que nós éramos e já não somos? Como todas as questões levantadas nos livros de Afonso Cruz, esta pequena pergunta é o suficiente para nos deixar a pensar durante horas. Neste caso, sobre tudo o que gostaríamos de ir reclamar ao balcão de perdidos e achados do universo.

Mas, como também é costume nos livros de Afonso Cruz, esta não é a única questão aqui levantada. A meu ver, não é sequer a questão fulcral da obra. Assim como não o é a questão da perda de um ente querido, apesar de tanto uma como outra estarem sempre presentes. Para mim, este é essencialmente um livro sobre a tolerância. Desde logo, a tolerância religiosa, mas também a tolerância face às diferenças alheias, sejam elas quais forem. Alguém  cujo maior desejo é passar despercebido, tornar-se “invisível”, para que a morte não repare nele, e que pontua habitualmente as suas frases com “peço perdão” e “com licença”, como que a desculpar-se pela ousadia de ocupar espaço no mundo, pode afinal ser capaz de actos grandiosos, como o de adoptar como filho um rapaz de outro país e de outro credo. Um mudo pode fazer poesia com as mãos, e ainda dizer mais verdades incómodas do que o falador mais verboso. Alguém que tem como forma de perseguir os seus objectivos pedir milagres aos deuses e esperar passivamente a sua realização pode tomar uma decisão radical como a de se converter a uma religião diferente da sua para se aproximar da pessoa que ama. Em suma, características que, à primeira vista, poderiam ser entendidas como fraquezas ou limitações podem coexistir, na mesma pessoa, com capacidades surpreendentes, como a coragem, a abnegação, a generosidade ou a sagacidade. E quem classificar a pessoa apenas de acordo com as primeiras nunca conseguirá ver as segundas.

Mas a abordagem da tolerância não se fica por aqui. É-nos demonstrado que alguém que tenha uma ideia menos negativa de um personagem unanimemente considerado execrável não é, necessariamente, um idiota: a sua visão pode estar tão certa como as dos demais, tendo apenas destacado uma faceta menos visível daquela personalidade. Afinal, todas as visões do mundo são, por natureza, incompletas – daí só terem a ganhar em abrir-se à compreensão de versões diferentes, que, ao invés de as contradizerem, podem completá-las.

A vertente filosófica está, pois, tão presente aqui como nas restantes obras de Afonso Cruz. Assim como a vertente estética, pois este livro é, antes de mais, um repositório de beleza, desde a capa às ilustrações, passando por pormenores como a alternância entre páginas brancas e negras, a numeração dos capítulos, a transposição de algumas passagens para fotografias de um tabuleiro de xadrez, etc. E, claro, tudo isto serve de moldura à beleza da escrita do autor, que descreve factos e reflexões numa linguagem poética e desarmante, sem nunca renunciar à simplicidade. Esta leitura torna-se, assim, uma experiência ímpar. Maravilha-nos e faz-nos pensar. As duas grandes marcas de um grande livro.

Com licença, e aquele final? Aquele final embacia-nos a alma, que Alá nos ajude.

Excertos:

“Os encantadores de serpentes, ó devoto, tentam fazer-nos acreditar que dominamos o destino. Mas as cobras riem-se e entre elas dizem: Vê, se eu ondular o meu corpo, consigo fazer com que este homem toque flauta.” (pág. 183).

“- Sabes o qual é a diferença entre um sábio e um devoto como o mulá Mossud? O devoto, num naufrágio, salva o seu tapete de orações. O sábio salva o homem que se afoga. O mulá Mossud é um verdadeiro devoto. Deves afastar-te dele.” (pág. 336).

“Um cão atrás da cauda, como já lhe expliquei, é um tratado de Teologia, uma suma mais do que teológica, São Tomás de Aquino que me perdoe. Um cão atrás da cauda é um movimento eterno, um rodar perpétuo até àquele lugar impossível que é Deus para o crente, e a cauda, para o cachorro. Um homem, quando pensa caminhar, apenas roda sobre si mesmo.” (pág. 554).

“Somos mais pesados quando fechamos os olhos. Isso acontece porque o nosso mundo interior é maior do que o exterior, pensava Fazal Elahi. A nossa dor não existe fora de nós, o mundo não suportaria esse peso, seria impossível, imagine-se a dor de todos os homens a existir no mundo exterior. Seria uma calamidade e não haveria gravidade capaz de fazer os planetas andar à volta das estrelas. Nós somos muito mais pesados do que o universo que nos rodeia. Temos a dor.” (pág. 583).

“Disse Ali: Não é a falta de pessoas à nossa volta que faz a solidão. São as pessoas erradas.” (pág. 602).

“Quanto menor é a alma de um homem mais espaço ela ocupa. Não há espaço para ninguém a seu lado.” (pág. 605).

Alfgaguara, 2013

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