«Jesus Cristo bebia cerveja», de Afonso Cruz – Opinião

Brindemos, Jesus Cristo bebia cerveja!

Que fado dos infernos viveu esta Rosa. Malfadada personagem, perdida num lugarejo lúgubre alentejano, onde a ruralidade não deveria ser desculpa para as brutalidades cometidas.
Filha de mãe fugida e pai enforcado, junta-se ainda um avô atirado num poço e uma avó que mija a seus pés e que já conta com muitas dívidas à saúde.

Quem leu e não gostou, ou leu e achou pouco, eu creio que não precisa de ser tudo dito. Por um lado, ainda bem, por outro porque nos deixa magicar aquilo que o autor não revela, não cria… dando ao leitor um pedaço de criação. As personagens são marcantes. Todas elas. Rosa é inocente … pen­sava que a san­ti­nha tinha as mãos jun­tas por­que batia palmas.
O Faia era bombeiro, mas pelos vistos não tinha quem lhe apagasse os seus fogos.
O pastor Ari, “o leão deitar-se-à com as ovelhas” … e a profecia cumpre-se!
O policia que é corrupto, é bruto e muito pouco polícia, o que não deixa de ser irónico e talvez exemplificativo de como certa coisas acontecem com naturalidade, naturalmente aceite.

Há uma certa tendência para o exagero, dirão alguns. Eu encontro uma elevada tendência mágica para mascarar os acontecimentos, tornando-os na mesma brutos e crus, mas menos chocantes. As cenas de violência, de abuso, de sofrimento, de ignorância… estão todas lá, mas muito bem camufladas nesta capacidade quase poética de Afonso Cruz.

Se o Alentejo é terra árida, seca, sofrida e até selvagem, então Rosa é o Alentejo. A terra desenvolve-se (ou não) e Rosa cresce. A acção avança, as tragédias continuam a acontecer.

O Professor Borja e Miss Whitmore começam a ser fulcrais e a ideia central do livro começa a desenhar-se. Trazer Jerusalém ao Alentejo. Será o Alentejo a Terra Santa? Poderá este enredo original e idílico trazer água no bico e ser metáfora e piada a algumas considerações sobre a importância (ou a falta dela) do nosso Alentejo!? Não sei, deixo à discussão, mas essa ideia não me abandonou em todo o romance. Afinal o próprio autor trocou a capital pelo Alentejo, algo o atraiu para lá…

Os episódios acumulam-se e queremos ver tal engenho trazer a terra santa para que os desejos da idosa, a avó de Rosa, sejam cumpridos. Mas o melhor de todo o enredo, não está neste foco central, está sim nas palavras que o autor usa para criar certos ambientes e preencher, dar alma, às suas personagens. Mesmo quando a alma se sente vazia.

“Rosa nunca se sentiu única” porque tudo o que lhe acontece é minimizado pela avó, que lhe diz “isso também já me aconteceu. A vida de Rosa é partilhada por todos (…) Ela pertence a todos, como o pão da missa que se divide pela humanidade” (p. 157)

Pensando no sentido do título e no cabimento de Jesus Cristo dentro deste livro, existem inúmeras frases que são assim como que iluminadas, como que tocadas pela sabedoria, como aquelas que teimavam em reaparecer, divinamente, no muro branco da inglesa. “Parece que a sabedoria teima em reaparecer, como os fungos.” (pág. 31).

As questões existenciais continuam e a luta de ideologias entre o hindu, os cristãos, ou até budistas… todos são chamados ao debate do “Eu”, do vazio, alquimias e magias… os desígnios das “coisas”. Enfim, a liberdade de ter opinião e deixá-la ganhar asas ou ser como as árvores ter asas e não voar, as raízes são profundas, enterradas, como palavras.

Existem aqui muitas, dessas palavras enterradas, mudas, invisíveis… deixadas para o leitor para que não lhe sobre o “silêncio na boca”. Talvez este livro seja preenchido com alguns silêncios, aqueles que fazemos entre determinadas frases mais profundas, aquelas que nos fazem ter vontade de gritar, mas “gritar é coisa de pessoa sozinha. Quando temos pessoas para nos ouvir não precisamos de gritar, pois não?” (pág.87)

E já para o fim, para se fazer ouvir, Rosa terá de tomar decisões. Talvez deixe de ser como os gatos. “a comer pássaros para voar.” (pág.190) Talvez deixe de chupar pedras como se fossem rebuçados a vida se torne menos pesada e pedregosa. Talvez dê “carne às palavras” e de beber à solidão.
Talvez, talvez… Rosa, de menina a mulher, com a alma como “uma casa a precisar de ser caiada” (pág.246)

*

O Alentejo é um deserto onde a morte não ouve o pianista, Harold Estefânia, um nómada, que devia ter aprendido a cultivar… talvez, quem sabe. E mais não digo, o mistério da cerveja é, diria, alucinante e deixa-nos de sorriso nos lábios.

*

«Jesus Cristo bebia cerveja» é uma edição Alfaguara/Objectiva, consultem mais no Blogue da Objectiva
e oiçam aqui o livro em destaque na TSF, na rubrica Livro do Dia
ou oiçam o autor a falar deste seu livro no programa Ler Mais, Ler Melhor, aqui.

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