«As primeiras coisas» Bruno Vieira Amaral – Opinião

«As primeiras coisas» é o regresso às origens olhando os “estendais de gente mórbida”, num rol de relatos que oscilam entre as tragédias e os enguiços que compõem a manta de retalhos que é um bairro, agora mais retalhado e remendado, sofrendo o natural passar dos anos, na dureza dos remendos dos dias!

Um romance a modos que disfarçado de enciclopédia que pretende nessa mestria de organização alfabética ordenar personagens desorganizados só por si e pelas vidas que levam, fruto do suburbano e das vicissitudes da vida.

Se alguns retomam às origens e não se orgulham de morar atrás do sol posto, Bruno, o personagem e narrador não se orgulha de retornar, tal qual retornado, mas para ele a guerra ainda haveria de começar e tem agora que voltar ao Bairro Amélia, sentindo o amargo de uma volta forçada.

Desempregado, recém-divorciado e a voltar à casa mãe (em toda a ascensão da palavra) o narrador é capaz de criar uma empatia imediata com o leitor, já que desde a sua condição a toda a conjectura bairrista, o que não lhe faltará serão fãs. Acredito que entre as mais de 50 personagens todos teremos traços que reconhecemos em alguma delas ou pelo menos algum nome nos fará lembrar alguém, tão ou mais “personagem” do que os habitantes do Bairro Amélia.

Com ou sem a Grande Pintura, o que dá cor a este livro, já que a enciclopédia reúne tragédias, enguiços, maledicências, fofocas, crimes, ladrões, putas e abortos, é mesmo os peculiares habitantes que no seu composto tecem a partitura que musicaliza os dias mais sossegados do Bairro ou são as suas histórias que puxam o brilho aos dias cinzentos. A cor deste livro são os detalhes. São os traços minuciosos que enaltecem a escrita de Bruno Vieira Amaral e que, mesmo em jeito de crítica social, retratam tão bem este ser-se português e ser-se bairrista, fatalista e até capitalista de bens pequeninos mas que tão grandes nos tornam.

Começando com a premissa de que “Portugal é um país de poetas” (Fion, página 36), passando pelos tempos em que éramos guerreiros com metralhadoras em tubos de pvc que cuspiam cartuchos de papel (pág. 45) e tínhamos o pai ou o tio que ao Domingo lavavam o carro na via pública ou saiam pro café com “bocadinhos de papel higiénico na cara depois de um golpe ao fazer a barba…” (pág. 206)… enfim, traços de um Bairro, que pode ser qualquer bairro, desde que habitado por gente que não tem medo de ser gente.

Para além da crítica social, que a meu ver está espelhada em tantas frases, habilmente cronológicas ou biográficas mas que se deixam ler nas entrelinhas, o traço idiossincrático que a todos dirá algo de diferente, mas que nos torna a todos semelhantes.
“Casal feliz (…) viviam numa barraca, das que tinham sido construídas perto das hortas, longe do bairro para que não os considerássemos vizinhos, mas perto o suficiente para que não fossem estranhos.” (pág. 88)

Há, em todo o compêndio de crónicas, a meu ver será isso, muito mais que um romance, uma forte tendência para a introspecção – até que ponto nos esquecemos de onde vimos e para onde vamos? O lado da estrada em que está o nosso prédio condiciona o entendimento que temos de um bairro e por si só, o entendimento que fazemos da sociedade?
Será a estratificação social um bem necessário para que todos saibamos com o que contar do próximo, porque o dia a dia programado deixou-nos intolerantes ao acaso e ao inesperado!?

Creio que sociologicamente o livro levanta muitas questões, no entanto não sei se é ai que o autor deseja chegar ou sequer que seja isso que pensemos durante a leitura ou quando chegamos ao fim, mas perante alguma ausência de enredo e fio condutor, está lá, mas é ténue ou é a questão estética que assim obriga e o leitor menos habituado enseja por algo que não vai ter…
Talvez isso nos deixe a braços com a tal introspecção e cheguemos a pensar na tal “energia geriátrica” que nos pode faltar se tivermos de recomeçar, ultrapassar o “dilúvio do esquecimento” e enfrentar, de orgulho ferido, “o mastigar estúpido dos dias”.

Apesar de a gíria dizer que “a vida são dois dias”, nem todos somos como o camaleónico Moreno e por vezes exacerbamos “a nostalgia pelos paraísos perdidos”, tendo como certeza que “nada é eterno, nem sequer o descanso dos mortos.”

“Prédios” é o meu capítulo favorito, pela dureza, fria e áspera como o cenário de betão que compõe muitos bairros Amélia e nos relata os tais “estendais de gente mórbida”…
“Tal como os seres humanos, as cidades, as vilas, os bairros adaptam-se, têm movimentos orgânicos, desenvolvem-se, crescem, certas zonas são como células cancerígenas, outras como defesas imunitárias contra o desespero…”

Só resta perguntar, em que célula estamos nós?

«As primeiras coisas» Bruno Vieira Amaral é o seu romance de estreia, num compêndio de personagens, introduzido por cerca de 50 páginas de apresentação, mais de 90 notas de rodapé, num enredo de mais de 50 personagens e mais de 300 páginas (301 para ser exacta) onde a volta de um homem pode desvendar mistérios, alguns internos e tão pessoais, que só revisitados passam a fazer sentido. Do Aborto, aos Enguiços ou aos “melhores lugares para voar no Bairro Amélia”, não esquecendo que teremos de contornar os “Prédios” e o picante das peculiaridades suburbanas de um Portugal que não se quer esquecido.

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