O Lago Avesso – Joana Bértholo

250_9789722126366_o_lago_avessoUma experiência de leitura completamente diferente. Um livro bonito e muito visual, que conta uma história que se pode ler e ver. Uma capa fantástica que me atraiu de imediato. Esteticamente convenceu-me logo, coisa rara e perigosa, pois que num livro (e em tudo) a beleza não é o mais importante.

Sou uma leitora compulsiva. Leio livros avidamente, muitas vezes com pressa, não só por a história ser boa mas com vontade de ler mais, sempre mais livros.

“O Lago Avesso” fez-me ler com calma desde há muito tempo. Saboreando e relendo passagens que me agradavam, aproveitando a escrita da autora que considero ser profunda e de grande qualidade. Um estilo urbano feito de retalhos, de pedaços intemporais que o leitor vai juntando, por vezes fazendo esforço para perceber, por vezes perceber passa para segundo plano pois que em primeiro está aproveitar para ver, ouvir, cheirar e sentir tudo o que está escrito.

Por vezes complexo e confuso. Intenso. Um livro que manda no leitor, marcando o seu próprio ritmo.

“Lá de cima, goza de uma inigualável panorâmica sobre a cidade, de onde comtempla a cada dia o diálogo entre a comprida língua verde de um jardim e o seu estreito lago ao centro, que Ella imagina ser gigante e erroneamente apequenado pela distância. Consegue passar tempo imenso só a observar este lago: a imaginar a temperatura da água sobre a pele despida, e as diferentes tonalidades que ganhará nos diferentes dias de sol, chuva, neblina ou neve. Mas nunca lá foi. É que entre Ella e esse lago estende-se aquele jardim amplo, aberto – quase obsceno -, e estende-se a decisão de não o atravessar.” (Pág. 80)

“A sua presença só é relevante graças à sua ausência. Ele só aqui está porque um dia se negou a estar, ou melhor, ele só aqui fica porque um dia se foi. A sua maior pertinência é porventura a de se ter recusado a ser pertinente, e esse é o gesto mais radical que um personagem pode ter numa história – quando se recusa a deixar-se narrar.” (Pág. 136)

“Quando oficialmente sai da cama é para ir dançar, lá para baixo. Ou então para se deixar ficar horas a fio pela varanda, tendo o azul do céu como teto: o lago ao fundo, do palco, no seu avesso.” (Pág. 165)

“Não se torna com isto num homem extraordinariamente bom, nem particularmente justo, nem excepcionalmente ético. É, como todos os outros, mais um ninguém a verter café ensonado na oleada engrenagem urbana, perpetuamente atrasado para qualquer coisa importante, e desnecessária. Não inicia uma ONG que salva muitas vidas, nem dá aulas de yoga num centro de gente quase-quase-iluminada.” (Pág. 305)

Sinopse

“Ella Bouhart, coreógrafa consagrada, vive num sexagésimo quarto andar, no centro de uma metrópole, de onde avista um enorme jardim, ao fundo do palco, observa a cada dia as diferentes tonalidades de um lago. Esse lago representa o seu horizonte, até onde não é capaz de ir, os territórios da sua vida que se sente incapaz de ocupar. Isso, e o seu avesso.”

Caminho, 2013

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