Fome – Knut Hamsun

Fome

Escreve Paul Auster, no prefácio a este livro, que o protagonista “procura o que é mais difícil em si mesmo, cortejando a dor e a adversidade da mesma maneira que outros homens procuram o prazer. Não passa fome porque tenha de o fazer mas por uma estranha compulsão interior, como que para empreender uma greve de fome contra si próprio” (pág. 10). Ora eu, na minha insignificância de leitora anónima, não consigo rever-me nesta interpretação. E, assim, vou cometer a suprema audácia: discordar de Paul Auster.

Na verdade, a meu ver, o que torna esta obra tão impressionante é a ausência total de filtros naquilo que é narrado. O protagonista passa fome e vai relatando essa experiência em todas as suas vertentes. E não se fica pela habitual descrição do “buraco no estômago” nem pelas alucinações mais ou menos cómicas ao estilo de Charlie Chaplin. Retrata as dores físicas em pormenor, mas também as alterações súbitas de humor, os delírios, os comportamentos inexplicáveis até para si próprio, a perda de referências, a diminuição das capacidades intelectuais, a degradação gradual da personalidade. A fome, como aqui é apresentada, não chega a matar, porque é ocasionalmente aplacada com algumas migalhas; mas essas migalhas não chegam para restabelecer o corpo nem o espírito, não passando, pois, de meros expedientes que não fazem mais do que prolongar o suplício. E, uma vez esgotadas as ditas migalhas, a fome regressa em força, fustigando sem piedade um organismo cada vez mais debilitado e corroendo-o ainda um pouco mais do que da última vez.

É verdade que haveria soluções disponíveis para evitar a fome. Aliás, no final do livro o protagonista encontra uma, empregando-se num barco prestes a levantar ferro. Mas, a meu ver, o facto de não ter optado por uma dessas soluções mais cedo não significa que deseje continuar a passar fome, nem que essa fome seja uma provação que voluntariamente impõe a si mesmo. Significa apenas que a fome lhe toldou o raciocínio, ocupando-lhe a mente com divagações e obsessões febris sem deixar espaço para o mais comum discernimento. Por isso são tão tocantes os pontuais lampejos de normalidade do personagem, como a sua preocupação em não cometer qualquer acto menos louvável em termos morais, a sua compaixão por desconhecidos necessitados e até a sua alegria perante um dia de sol e uma paisagem bonita.

Esta é a história de alguém que passou pelo inferno. Escrita por um autor que conhece bem esse inferno, já que Knut Hamsun também passou fome. Não podia, pois, deixar de ser esmagadora. E é-o mais ainda porque transmite na perfeição o isolamento dos destituídos. Não é só no topo que se encontra a solidão. Ela também está no fundo do poço.

Cavalo de Ferro, 2010

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3 pensamentos sobre “Fome – Knut Hamsun

  1. Mais do que nunca é necessário reflectir sobre “o isolamento dos destituídos”. Confesso que, apesar de ter gostado dos dois livros de Hamsun que já li, tenho um certo receio em pegar neste. Graças ao teu texto já sei o que esperar. Um dia destes pego em “A Fome”…

  2. Levo-o no próximo encontro, pode ser que o queiras ler. É um livro assustador na medida em que nos obriga a tomar consciência de quão pouco tempo a fome leva para dominar totalmente qualquer pessoa que lhe caia nas garras, causando-lhe danos devastadores, tanto físicos como psicológicos. Infelizmente é um tema muito actual, e convém que abandonemos de uma vez a imagem do mundo que nos foi incutida, segundo a qual a fome é uma coisa longínqua, e percebamos que qualquer um de nós pode, devido às vicissitudes da vida, encontrar-se de repente numa situação de destituição completa. e não levará mais de meia dúzia de dias a chegar ao ponto de tentar comer o bolso do casaco numa tentativa vã de aplacar as cãimbras no estômago…

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