“ Para onde vão os guarda-chuvas” de Afonso Cruz

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Pressinto as palavras, soltas e enevoadas, e não consigo deixar de pensar que qualquer delas será sempre completamente/absolutamente/inevitavelmente inadequada para expressar correcta e precisamente tudo aquilo que a leitura deste romance maravilhosamente invulgar me trouxe. Tal como noutros livros de Afonso Cruz, encontramos em “Para onde vão os guarda-chuvas” uma escrita brilhante e tremendamente imaginativa caracterizada por uma beleza delicada bem como por um  forte pendor filosófico que deslumbra e encanta. Ao percorrer as suas páginas, o leitor é conduzido através das múltiplas camadas e níveis da experiência humana, das nossas sociedades e culturas. Muitas (talvez até todas) das grandes e eternas questões e desafios com que a humanidade ainda se debate são aqui abordadas. Assim, somos levados a ler e reflectir sobre assuntos que vão desde a natureza labiríntica e contraditória do ser humano, da expressão da sua dor perante as grandes perdas da vida e da relação com o sagrado até aos direitos das mulheres, ao diálogo interreligioso, às tremendas injustiças sociais, à pobreza e à violência mais absurda. Mas não se pense que este é um livro inacessível e monótono; nada está mais longe da verdade. Tudo nos é apresentado de forma interessante, poética e, sobretudo, original e imaginativa. Gostei particularmente da metáfora dos guarda-chuvas. De facto, o que são aqueles que amamos e que nos amam senão guarda-chuvas metafóricos que nos ajudam a enfrentar as intempéries da existência?

Afonso Cruz é compassivamente irónico ou, talvez,  ironicamente compassivo  e mostra-se, mais uma vez, um explorador arguto e sensível da natureza humana, um astronauta do nosso universo interior. Em jeito de balanço final, este é um livro maravilhosamente/persistentemente/consistentemente cativante que muito apreciei ler. De que é estão à espera? “Para onde vão os guarda-chuvas” está aí e merece mesmo muito ser lido.

Excertos:

“Fazal Elahi não erraria na sua premonição, o universo gosta de equilíbrios completamente desequilibrados, é feito de opostos de mãos dadas, um homem enorme a segurar a mão de uma menina pequenina.”

“E que deprimentes são os números, sempre tão exactos, a dizerem-nos tudo com precisão, uma mais um igual a dois e por aí fora, sem qualquer originalidade. Com licença, se os números fossem uma coisa boa, existiriam  na natureza e andariam a pastar pelos campos, mas Alá sabe melhor, pois criou o mundo e a paisagem sem números nenhuns. Só existem na nossa cabeça e nas facturas e nos recibos, todos incisivos, muito abstractos, a olharem para nós de cima, parecem camelos, que Alá os corrija e lhes ensine a humildade. Se fossem alguma coisa de jeito, andariam a pastar como as cabras.”

“Já reparaste, Elahi, que os corpos das mulheres não são admitidos, são como aqueles cartazes que dizem que os cães não podem entrar? As mulheres só têm corpo quando estão no hamã, a lavar-se, e quando estão deitadas debaixo dos maridos, ou quando são espancadas. Aí admite-se que a mulher tenha pernas, mamas e rabo.”

“Quanto menor é a alma de um homem, mais espaço ela ocupa. Não há espaço para ninguém ao seu lado.”

“Sem pão não se fazem maravilhas. Só quando o pão se torna um bem adquirido, o homem começa a pensar no que é belo. O estômago incha e a poesia nasce do umbigo.”

“Um homem que, ao espelho, veja reflectido um homem em vez de um labirinto, não está a ver um homem. Está a ver um reflexo.”

“Encheremos o mundo de coisas preciosas, serão tantas que os homens passarão por elas julgando-as banais.”

“Isso, os tigres devoram homens, os tigres que nos habitam só pensam em devorar homens, são as feras mais perigosas desta selva, gostam de ter coisas, gostam de empilhar coisas. Os nossos tigres, os que vivem aqui, olha, na cabeça, e aqui, repara, no peito e na barriga, gostam de ser milionários e de comer tudo o que encontram pela frente, mas estes que vais ver hoje, Isa, são diferentes, têm riscas, têm dentes e pesam quatrocentos quilos. Estes tigres são de outro tipo, são boas pessoas.”

“Andamos todos em órbita a nós mesmos à procura de uma porta que nos leve para dentro da nossa alma. Procuramos entrar dentro de nós, mas é um mundo que nos está vedado.”

“E Elahi perguntava-se  como seria possível que a tradução daquilo que se passava dentro dele fossem apenas umas quantas lágrimas. Que coisa tão mal feita, pensava. Com tanto sofrimento, com licença, deveríamos chorar estrelas, para mostrar como tudo o resto é pequenino comparado com tudo o que nos dói.”

“Somos mais pesados quando fechamos os olhos. Isso acontece porque o nosso mundo interior é maior do que exterior, pensava Fazal Elahi. A nossa dor não existe fora de nós, o mundo não suportaria esse peso, seria impossível, imagine-se a dor de todos os homens a existir no mundo exterior. Seria uma calamidade e não haveria gravidade capaz de fazer os planetas andar à volta das estrelas. Nós somos  muito mais pesados do que o universo que nos rodeia. Temos a dor.”

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6 pensamentos sobre ““ Para onde vão os guarda-chuvas” de Afonso Cruz

  1. Pingback: Crítica de Leitor, blogue «Roda dos Livros» | Para Onde Vão os Guarda-chuvas

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