Diário de Inverno – Paul Auster

250_9789892318004_diario_de_invernoPegar num livro de Paul Auster é ter a certeza, ou pelo menos saber que há uma grande probabilidade de que nos espera algo extraordinário. “Diário de Inverno” é um livro fabuloso, uma espécie de dádiva do autor aos seus leitores, aos que leram os seus livros e acompanham a sua carreira, aos que gostam dele. Um compêndio de recordações e memórias, que escreve para si mas que oferece a todos que queiram ler. E devem ler, digo eu.

Paul Auster dirige-se a ele próprio como se falasse consigo, num tom confessional como quem fala com um velho amigo. Aos sessenta e quatro anos sentiu-se a entrar no Inverno da Vida e escreveu um livro sobre todas as estações do ano que o precederam. Uma escrita sublime e particularmente bonita, extremamente lúcida, de um homem que racionaliza, confronta e pensa por natureza.

Como se faz um escritor? A pergunta óbvia de qualquer aspirante aos universos tortuosos da escrita. Como se fez Paul Auster o escritor? Com dificuldades e dores como qualquer trabalho nascido de um dom e que necessita de aceitação para vingar. Foram duros os anos que demorou a chegar ao seu público, a ser o que é hoje, muitas as dificuldades, mas senti que lhe ficou o orgulho de ter lutado pelos seus cadernos de escritos. Mudanças, viagens, uma vida tão preenchida que podia ser dezenas de vidas ou mais. Auster sofreu mas gostou disso, eu acho. Tudo lhe serviu de inspiração e mote para escrever.

Todo o livro é recheado de descrições fabulosas, alguns apontamentos de recordações que vão surgindo, em cada tema consegue sempre viajar para situações caricatas ou determinantes no seu percurso. Ler este livro é quase como ter uma conversa, daquelas muito abrangentes em que um assunto leva a um acontecimento que leva a uma lembrança, a uma piada, a um casamento, a um divórcio ou a uma morte. Tudo pode acontecer. Como na vida.

Consigo dividir este livro em três grandes partes. Ou blocos. Todas as casas em que Auster viveu até ao momento presente. Grande parte do livro é dedicado a este bloco. Desde criança. E Paul Auster viveu em vinte e uma casas. Entre os Estados Unidos e uma fase que morou em França foram vinte e uma casas. Cada casa com dezenas, centenas, e algumas milhares de histórias da sua vida. Absolutamente brilhante a forma como conta episódios marcantes e os “arruma” na época em que viveu na casa X. E sempre os comentários opinativos sobe situações do dia-a-dia, que interpreta de forma muito própria e, por vezes, pessoal. Como é o caso deste excerto de que gostei particularmente, passado em França, acerca das casas dos Judeus que ficaram vazias durante a guerra:

“Talvez a palavra israelita te tenha deixado um pouco confuso, mas falavas o francês suficiente para saber que não era um sinónimo pouco frequente da palavra juif (judeu), pelo menos para as pessoas da geração da guerra, se bem que a experiência te dissesse que sempre tinha sido usada num certo sentido pejorativo, não tanto como uma declaração frontal de anti-semitismo mas como uma forma de distanciar os judeus dos Franceses, de fazer dos judeus uma coisa estrangeira e exótica, aquele povo do deserto, estranho e antigo, com os seus costumes engraçados e o seu Deus primitivo e vingativo. Se isso já era mau, o resto da frase tresandava de tal maneira a ignorância, a negação deliberada, que não sabias se estavas a falar com o maior simplório do mundo ou com um antigo colaboracionista de Vichy. Eles foram-se embora. Com certeza num cruzeiro de luxo à volta do mundo, numas férias ininterruptas de cinco anos passadas a gozar o sol do Mediterrâneo, a jogar ténis nas Florida Keys e a dançar nas praias da Austrália” (Pág. 58/59).

Segundo e terceiros blocos para as mulheres mais importantes na sua vida, a mãe e a mulher, a companheira de mais de trinta anos. Em relação a Siri, foram escritas palavras que me encantaram verdadeiramente, principalmente por entender que o autor sente ter encontrado um porto de abrigo (super cliché, eu sei, desculpem lá), depois de uma vida amorosa atribulada e até de certa forma azarada.

“Bela, sim, sem dúvida sublimemente bela, uma loira esbelta, de um metro e oitenta de altura, pernas compridas magníficas, e pulsos finos de uma menina de quatro anos, a maior pessoa pequena que alguma vez tinhas visto, ou talvez a mais pequena pessoa grande, e no entanto não estavas a olhar para um objecto distante de esplendor feminino, estavas embrenhado numa conversa com um sujeito humano que vivia e respirava. Sujeito, não objecto, e por isso não eram permitidas as ilusões. Não havia engano possível. A inteligência é a única qualidade que não se pode fingir, e, quando os teus olhos se adaptaram ao esplendor da sua beleza, percebeste que estavas na presença de uma mulher talentosa, uma das mentes mais brilhantes que tinhas conhecido em toda a tua vida.” (Pág. 155)

Um trecho arrebatador que me deixa sem palavras a cada vez que o leio, e que é a forma perfeita de terminar este texto. Leiam!

Sinopse

“Paul Auster, incansável criador de ficções e de personagens inesquecíveis, vira agora o olhar para si próprio e para o sentido da sua vida. As descobertas da infância e as experiências da adolescência, o compromisso com a escrita – que marcou a sua entrada para a idade adulta -, as viagens, o casamento, a paternidade, a morte dos pais… Uma vida que transborda das páginas deste Diário de Inverno, um definitivo autoretrato construído com a paixão e a transbordante criatividade literária que são as marcas distintivas da identidade deste escritor amado pelos leitores e admirado pela crítica.”

Asa, 2012

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