A Companhia de Estranhos – Robert Wilson

nacompanhiadeestranhosDepois de “Último Acto em Lisboa” segue-se, na opinião dos meus ilustres conselheiros da Roda dos Livros especialistas em Robert Wilson, “A Companhia de Estranhos”. Leitura que iniciei com muito entusiasmo, na medida do arrebatamento provocado por “Último Acto em Lisboa”.

Contudo, “A Companhia de Estranhos” revelou-se um livro mais complexo e denso do que eu esperava, o que me levou a uma luta dolorosa durante mais de metade do livro. A verdade é que ponderei por várias vezes parar, não o fiz por sentir que o livro tinha de ter mais para me dar, e sabendo de antemão que parando dificilmente o retomaria.

Custa-me prosseguir com livros dos quais não retiro o esperado rendimento ou cuja leitura não me entusiasma. Neste caso específico o tema é do meu interesse, Robert Wilson escreve de uma forma que me agrada muito, mas sinceramente acho que o livro não está muito bem conseguido, ou não me teria custado ler tantos trechos até mais de metade do livro. Muitas personagens e muitas histórias entrelaçadas exigem uma atenção que talvez eu não tivesse prestado, o que levou a que muitas vezes perdesse a ligação entre os acontecimentos. Assumo parte da culpa da dificuldade em prosseguir mas ao mesmo tempo penso que alguns diálogos e descrições são demasiado exaustivos.

Um livro pesado, enquadrado historicamente na fase final da II Guerra Mundial, anos do pós-guerra e final do século XX, passado maioritariamente em Lisboa e com grande destaque para a realidade socioeconómica portuguesa desses anos. Mais uma vez a pesquisa de Wilson é exemplar, pelo menos nos temas e acontecimentos que conheço e estou mais à vontade. Confesso que o meu nível de conhecimentos dos anos da Guerra Fria é parco, talvez por isso todas as descrições das operações de espionagem me surjam de certa forma como ficção de cinema de suspense. Gosto, interessa-me, mas não sei avaliar onde acaba a realidade e começa a ficção. Ou se é tudo realidade ou tudo ficção.

A verdade é que a minha persistência foi recompensada. As últimas duzentas páginas foram lidas num dia, avidamente, com o interesse e a determinação que desejava ter sentido desde o início. O amor e os desencontros dão sempre aquele interesse extra mas, se formos explorar os sentimentos humanos, este é um livro sobre a solidão. Sobre um amor que durou uns dias, marcou uma vida inteira de duas pessoas que sempre viveram afastadas na certeza de não se voltarem a encontrar. Andrea, a personagem feminina, ultrapassa várias fases da sua vida na mais perfeita solidão. Rodeada de pessoas é certo, mas perfeitos estranhos, ela vive na companhia de estranhos, pensando saudosamente nos que amou e morreram. Uma vida triste, cheia de mortes e falsidade, Andrea vive várias personagens, várias identidades, a maior parte das vezes duplamente. O retrato fidedigno de uma época em que ninguém é o que parece ser, a desconfiança levada ao expoente máximo, com as maiores surpresas a surgirem na própria família.

Por vezes perturbador e exaustivo. Marcante e inesquecível. Um livro que cumpre o seu propósito.

Sinopse

“Lisboa, 1944. No calor tórrido do Verão, as ruas da capital fervilham de espiões e informadores, enquanto os serviços secretos disputam em silêncio a última partida. Os alemães dominam a tecnologia dos foguetões e a pesquisa atómica. Os aliados estão decididos a impedir que a ameaça da «arma secreta» venha a concretizar-se. 
Andrea Aspinall, matemática e espia, entra nesse mundo sofisticado pela mão de uma abastada família do Estoril. Karl Voss, adido militar da Legação Alemã, abalado pela implicação no assassinato de um Reichsminister e traumatizado pelo desastre de Estalinegrado, chega a Portugal com a missão de salvar a Alemanha do aniquilamento. Na tranquilidade mortal de um paraíso corrupto, Andrea e Voss encontram-se e tentam viver o seu amor num mundo em que não se pode acreditar em ninguém. Depois de uma noite de terrível violência, Andrea fica na posse de um segredo que vai ligá-la para sempre ao mundo clandestino, do repressivo regime fascista português à paranóia da Guerra Fria na Alemanha. E aí, numa Berlim gelada, descobre que os maiores segredos não estão nas mãos dos governos, mas em mãos muito próximas de si, e é forçada a fazer a derradeira e dilacerante opção.”

D. Quixote, 2009

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