Jesus Cristo Bebia Cerveja – Afonso Cruz

01O que acontece quando uma mente analítica e dotada de uma sensibilidade fora do comum se encontra perante a esmagadora paisagem alentejana? Filosofia. Ao contrário do que possa parecer a quem ler a sinopse, este livro não é um romance. É um tratado filosófico. Não da filosofia asséptica que poderia ser escrita num gabinete envidraçado de uma torre de escritórios, numa de tantas cidades iguais umas às outras, mas de filosofia com os pés sujos de lama, a cheirar a ovelhas e com os olhos a arder do fumo da lareira e de tanto se perderem no horizonte infinito.

Aqui, todas as personagens são filósofos, excepto aquelas que pretendem sê-lo. As únicas ocasiões em que não se encontra aqui filosofia são aquelas em que alguns pseudo-intelectuais se reúnem (relutantemente, é certo) com o intuito expresso de verterem a sua sabedoria sobre uma inglesa rica que pretende, assim, obter uma mente tão recheada como a bolsa. Em vão, claro. A verdadeira análise da crueldade da vida, da inexorabilidade do tempo, da natureza dos sentimentos, das leis de funcionamento do universo, é feita através das observações prosaicas de quem não pensa antes de falar, e às vezes nem sequer fala: apenas sente.

Talvez por isso a linha narrativa é tão simples e descomplexada. A história de uma neta que cuida carinhosamente de uma avó senil e transforma uma vila alentejana na Terra Santa para que a avó não morra sem pensar que lá foi é tão ingénua como as personagens que, quando menos esperamos, nos brindam com tiradas de fazer perder o fôlego. Aliás, a dada altura tive a sensação que estava a ler um livro escrito sob a forma de tópicos: são tantos os temas complexos abordados que, para os explorar, seria necessário um livro para cada um. Mas o autor opta, em vez disso, por oferecer-nos, pela mão das personagens, algumas frases provocadoras sobre cada assunto, deixando-nos a opção de simplesmente apreciarmos a beleza dessas frases e passarmos à página seguinte ou pararmos a leitura e continuarmos, por nossa conta e risco, a tecer a teia apenas iniciada. Em qualquer dos casos, esta leitura será uma experiência única.

Não vale a pena pegar neste livro com  dogmas inatacáveis seja sobre o que for. O autor nem se dá ao trabalho de os contrariar. Simplesmente, ignora-os. Expõe o que tem a expor, partindo do princípio de que o leitor terá suficiente maturidade para perceber que não há tabus inquestionáveis. Seja a convicção de que uma adolescente precisará de um motivo válido para entregar o seu corpo a um homem ou a de que uma homilia não pode conter palavrões. Se o leitor não tiver estrutura para aguentar o embate, pior para ele. Não encontrará a mais pequena tentativa de justificação nem de desculpabilização pela quebra de convenções praticada a cada página. Aqui só se justifica o que realmente importa, e nessa categoria não se inclui a colisão com susceptibilidades exacerbadas. As explicações guardam-se para a estrutura dos raciocínios, para clarificar a construção das ideias que são o verdadeiro cerne deste livro. Como a de que, realmente, Jesus Cristo só podia beber cerveja. Por motivos de uma lógica imbatível.

Excertos:

“- Ridículo – diz o professor Borja. – Isso do budismo não passa de uma superstição transmitida por um sujeito obeso de pernas cruzadas. O problema do Eu é medíocre. Fica bem a príncipes indianos com grandes lóbulos das orelhas, mas falta-lhes ciência. Vocês, pessoas de budismos e teosofias, interrogam-se sobre o que é o Eu. Fazem isso constantemente. Comprem uma televisão e vejam telenovelas, divirtam-se com qualquer outra coisa fútil, porque isso de andar a tentar compreender o Eu é uma palermice. E essa coisa incrível que pregam, o tal Eu superior, o que é realmente? Uma pessoa como a senhora não tem um Eu superior, tem, quando muito, um Eu com a mania que é superior.” (pág. 61).

“A natureza abomina o vazio, ou dito numa língua morta: natura abhorret vacuum. Mas que ele existe, existe. Parece que o Nada, a existir, deixa de ser Nada para ser alguma coisa. A natureza não gosta de espaços vazios e preenche-os como um burocrata preenche requerimentos. Não deixa buracos em lado nenhum. Mesmo os lugares mais rarefeitos, como o espaço sideral e a estupidez humana, são preenchidos por alguma coisa: luz, metais leves, preconceitos, partículas e subpartículas dos átomos, radiações, chavões e telenovelas. A natureza enche chouriços, não há espaço vazio nas suas tripas. Um homem olha à sua volta e não encontra nada que não esteja já ocupado. Assim pensam os homens com a razão e a lógica que se passeia nos interstícios dos seus cérebros cinzentos, nessas dobras confusas que se assemelham a um intestino redondo ou a uma noz. Mas os homens que pensam com os sentimentos, têm outra lógica a nadar-lhes nas veias e artérias. Esses acreditam no vazio porque o vêem a toda a hora dentro de si.” (págs. 137 e 138).

“- Dantes havia o Jacinto, que ressuscitava os mortos. E o Ruivo, que perdeu tudo a jogar à lerpa. Agora é só engenheiros. Dantes, se não conseguias matar um sapo, ele escondia-se debaixo da tua cama e assim definhavas e morrias. Agora são espécies não sei quê e não se lhes pode tocar. O tabaco enrijecia o peito e dava-nos voz para lutarmos aos berros. Foi-se tudo, não foi? Gritávamos o nome de Deus enquanto sangrávamos do nariz e dos lábios e éramos mesmo Deus, não éramos? Ainda há dez anos era tudo diferente. Lembras-te do Luís da barba de bode? Era teso como o Inverno e quando se irritava não ia votar noutro partido, como se faz agora. Partia era a cara do patrão e depois ia às putas. Tenho saudades do tempo em que as bengalas não serviam só para apoiar a velhice, mas para desancar os canalhas. Agora plantam-nos os campos de oliveiras espanholas regadas gota a gota, como as mulheres finas. Dantes era sequeiro. Dizem-nos para poupar no banho e depois regam as oliveiras, que nunca foram regadas desde que Deus criou o mundo. Nós não nos podemos molhar, mas as putas das árvores podem encharcar-se como peixes. E depois temperamos os tomates com aquele azeite aguado, que é o que aquelas oliveiras dão, de tanta água que bebem. Dizem que é a competitividade. Mas um gajo quer competir em quantidade ou em qualidade? Eles que produzam mundos aguados que nós ficamos com os frutos a saber a suor e a sangue e a terra. Que se fodam todos, mais o tempo, mais o século. Lembras-te do António Samarra? Morreu com uma braçada de um eucalipto na cabeça. Hoje serram os plátanos todos os anos, não é? Têm medo das árvores, têm medo que cresçam. São bichos perigosos, as árvores. Nem se mexem, mas são perigosos. Que mundo! São as alergias dos plátanos, são os ramos dos plátanos. Acabem com a natureza que isto só nos faz é mal. É só ervas e bichos selvagens, letais como as cobras e as árvores. Os meus avós, os meus pais, a minha mulher, eu e os meus filhos comemos debaixo de um plátano gigante, brincámos debaixo de um plátano gigante, rimos debaixo de um plátano gigante… Se nos cair um tronco em cima, se nos matar a todos, é melhor do que a puta de um cancro. Foram gerações inteiras a usufruir da felicidade de estar debaixo de uma árvore. Sabes o que isso quer dizer? Que vivíamos, que gostávamos do que fazíamos, que sangrávamos dos tomates e das costas e dos ossos, que chorávamos e ríamos sem precisar de uma telenovela ou de um comediante na televisão. Era assim que vivíamos. Debaixo das árvores.” (págs. 201, 202 e 203).

Alfaguara, 2012

Anúncios

2 pensamentos sobre “Jesus Cristo Bebia Cerveja – Afonso Cruz

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s