A Sentinela – Richard Zimler

Novidades Richard Zimler_19-09-2013Richard Zimler é dos meus autores favoritos. “A Sentinela” é um livro diferente dos seus livros que me são mais queridos. Representa, para mim, uma viragem ou uma mudança. A escrita é mais crua e real e o estilo mais contemporâneo. Sou absolutamente fã dos romances históricos de Zimler. Apesar disso “A Sentinela” preencheu os meus momentos de leitura de uma forma avassaladora, agarrou-me pelo interesse não só no enredo mas também pelas personagens, que são cheias de detalhe, vivem de pormenores, e se enredam constantemente nas estórias dos seus próprios passados.

Intrincado e por vezes complexo, mas ao mesmo tempo linear pela simplicidade que a vida, no fundo revela, acaba por resumir-se ao que é essencial.

Pode chamar-se de policial. Apesar de eu achar que a descoberta do assassino é um aspeto secundário. Será um policial particular. Ou será um policial por que há um crime e a personagem central é um polícia? Questões pouco relevantes pois mais importante do que descobrir o assassino interessa a natureza do crime e a posição dos envolvidos. É como um novelo que se vai desenrolando e transformando em pesadelo; vão-se levantando pontinhas do tapete e só se encontra porcaria. Quanto mais se aprofunda maiores são as ramificações e as ligações a importantes figuras da sociedade e do mundo dos negócios.

Interessante a corajosa é a forma como o autor cita nomes e situações da vergonhosa corrupção do nosso país. Exímia descrição da crise de valores, da ignorância e apatia do povo, da limitação de acção das forças de autoridade. Desilude muito verificar que os criminosos vão escapando impunemente, mas revolta de forma atroz saber que é assim que as coisas se passam na realidade.

Colocar o dedo na ferida e não ter medo não é para todos. Sim, toda a gente fala abertamente dos escândalos políticos, a comunicação social vive disso, mas escrever um livro cuja ação decorre nesse ambiente, cujas vidas das personagens estão envolvidas na nossa particular realidade social de forma tão realista como as nossas vidas neste momento, é corajoso. Senti-me que podia ser uma personagem deste livro. Ou talvez as personagens se pudessem sentir como eu. Muito realista.

Monroe, inspector da Polícia Judiciária, vive num limbo entre a revolta pelo caso que tem em mãos e a revolta pessoal pelo sofrimento que o acompanha desde a infância. Monroe e o irmão mais novo, Ernie, foram maltratados física e psicologicamente pelo pai, cresceram numa solidão de horror que os acompanha até hoje. Monroe desenvolveu um transtorno de identidade dissociativa, do qual eu nada sabia e me fascinou muito aprender. Muito inteligente a forma como o autor nos vai permitindo construir este conceito através da atuação de Monroe, que ora assume uma postura de homem de família, bom colega e bom profissional, para subitamente acordar o seu lado mais revoltado e cruel.

Por vezes duro de ler, pela impotência perante descrições atrozes, Zimler vai combinando a dor com cenas mais calmas de puro amor familiar e filial. Em oposição à sua infância doentia Monroe tem uma família unida e que se ama. Tanto é o amor que se espalha nesta família que por vezes me chegou a enjoar, considero que alguns limites foram ultrapassados, ou pelo menos eu não senti a necessidade de aligeirar os temas pesados sobre os quais gosto mesmo muito de ler.

Mas, e apelando ao meu lado “mini-sentimental”, gostei muito do pequenino Jorge, o filho de Monroe, por ser diferente e engraçado, e talvez avançado para os seus sete anos. A visão de uma criança perante a realidade é por vezes francamente revigorante.

Várias vezes citado um dos meus poemas preferidos de Neruda, mais um ponto a favor de um livro que já estava entre os melhores.

Recomendo sem reservas.

“Será que todos levamos a vida que levamos porque temos de saber porque razão as coisas aconteceram da forma que aconteceram, e se elas poderiam ter-se combinado de um modo diferente para produzir algo mais terno e significativo e permanente?” (Pág.65)

“- Portugal… – disse ele, abrindo os braços como se para abraçar o país inteiro – é o país onde as regras não passam de sugestões!” (Pág. 375)

Sinopse

“Até que ponto um único assassinato pode iluminar a crise moral em que se encontra o país?

6 de julho de 2012. Henrique Monroe, inspetor-chefe da Polícia Judiciária, é chamado a um luxuoso palacete de Lisboa para investigar o homicídio de Pedro Coutinho, um abastado construtor civil. Depois de interrogar a filha da vítima, Monroe começa a acreditar que Coutinho foi assassinado ao tentar defender a perturbada adolescente do violento assédio sexual de algum amigo da família. Ao mesmo tempo, uma pen que o inspetor descobre escondida na biblioteca da casa contém alguns ficheiros com indícios de que a vítima poderá também ter sido silenciada por um dos políticos implicados na rede de corrupção que o industrial montara para conseguir os seus contratos.
Tendo como pano de fundo o Portugal contemporâneo, um país traído por uma elite política corrupta, que sofre sob o peso dos seus próprios erros históricos, Richard Zimler criou um intrigante policial psicológico, com uma figura central que se debate com os seus demónios pessoais ao mesmo tempo que tenta deslindar um caso que irá abalar para sempre os muros da sua própria identidade.”

Porto Editora, 2013

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