“Se numa noite de Inverno um viajante” de Italo Calvino

Se numa noite de inverno um viajante                       calvino_italo-19810625.2_png_300x307_q85

 É difícil tentar escrever seja o que for sobre este livro absolutamente fantástico de mais um enorme autor recentemente descoberto. É também inevitável pensar que as parcas palavras de uma leitora serão sempre inadequadas para transmitir fielmente a grandeza da obra de um escritor tão extraordinário como Italo Calvino (1923-1985).  Que poderei dizer sobre “Se numa noite de Inverno um viajante”? Creio que nada de novo, nada que alguém, algures, não tenha já dito ou escrito. No entanto, proponho-me a fazê-lo porque este é um romance único e merece ser relembrado. Os seus protagonistas são, a meu ver, os livros, os leitores e a própria arte de escrever. É um percurso divertidíssimo, muito bem estruturado e soberbamente escrito sobre as vicissitudes de um leitor e de uma leitora em busca da continuação de um novo romance que tinham começado a ler e cuja leitura fora súbita e irritantemente interrompida num ponto crucial da história. Este é o pretexto de Calvino para empreender um percurso de intensa comunicação com o leitor que me deslumbrou tanto pela mestria demonstrada  ao reinventar-se em 10 escritores imaginários diferentes  quanto pela sua imaginação verdadeiramente gigantesca e original. Mais do que um romance, é uma homenagem ao prazer da leitura, aos leitores e aos livros.  Como leitora revi-me no modo como o autor descreve os tiques e as pequenas grandes manias dos leitores incorrigíveis e simplesmente adorei o início do livro onde nos é dada uma série de conselhos quanto ao ambiente, à posição de leitura e até à luminosidade adequada para ler. Completamente hilariante  e deliciosa é também a descrição seguinte sobre a entrada do leitor na livraria. E a partir daqui entra-se num mundo mágico de peripécias alucinantes em busca da continuação perdida do romance que inevitavelmente nos fazem sorrir. Por outro lado, o facto de se iniciar a leitura de 10 histórias diferentes cujo desenrolar somos impedidos de acompanhar pode constituir uma enorme frustração para qualquer leitor. Este é realmente um risco que se corre quando pegamos neste livro mas, para mim, o brilhantismo da prosa de Calvino supera-o larga e indubitavelmente. Em suma, um livro sobre o prazer de ler que me encantou e que recomendo veementemente a todos, sobretudo a quem, como eu, não consegue viver sem ler.

– “Estás para começar a ler o novo romance Se numa noite de Inverno um viajante de Italo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te. Afasta de todos os outros pensamentos. Deixa esfumar-se no indistinto o mundo que te rodeia. (…) Arranja a posição mais cómoda: sentado, estendido, enroscado, deitado. Deitado de costas, de lado, de barriga. Na poltrona, no sofá, na cadeira de baloiço, na cadeira de praia, no pufe. Numa cama de rede, se tiveres alguma cama de rede. Em cima da cama, naturalmente, ou dentro da cama. Até podes pôr-te de cabeça para baixo, em posição de yoga. Com o livro virado ao contrário, bem entendido.” (…) Descalça primeiro os sapatos. Mas só se quiseres ficar de pés soerguidos, porque senão torna a calçá-los. E agora não fiques por aí e sapatos numa mão e livro na outra.

Regula a luz de modo a não te cansar a vista. Fá-lo já, porque assim que estiveres mergulhado na leitura, nem penses em mexer-te. Arranja-te de maneira que a página não fique na sombra, um emaranhado de  letras negras sobre fundo cinzento, uniformes como uma ninhada de ratos; mas tem cuidado para que não lhe bata de chapa uma luz demasiado forte e que não se reflicta no branco cru do papel roendo as sombras dos caracteres como num meio-dia do Sul. Tenta prever agora tudo o que puder evitar-te o interromper da leitura. Os cigarros ao alcance da mão, se fumares, e o cinzeiro. Que mais é que falta? Tens de ir fazer chichi? Bem, tu é que sabes.”

– “Foi logo na montra da livraria que descobriste a capa com o título que procuravas. Atrás desta pista visual, lá foste abrindo caminho pela loja dentro através da barreira cerrada dos Livros Que Não Leste, que de cenho franzido te olhavam das mesas e das estantes procurando intimidar-te. Mas tu sabes que não te deves deixar assustar, que no meio deles se estendem por hectares e hectares os Livros Que Podes Passar Sem Ler, os Livros Feitos Para Outros Usos Além Da Leitura, os Livros Já Lidos Sem Ser Preciso Sequer Abri-los Por Pertencerem À Categoria Do Já Lido Ainda Antes De Ser Escrito. E assim transpões a primeira muralha dos baluartes e cai-te em cima a infantaria dos Livros Que Se Tivesses Mais Vidas Para  Viver Certamente Lerias Também De Bom Grado Mas Infelizmente Os Dias Que Tens Para Viver São Os Que Tens Contados. Com um movimento rápido passas por cima deles e vais parar ao meio das falanges dos Livros Que Tens Intenção De Ler Mas Antes Deverias Ler Outros, dos Livros Demasiados Caros Que Podes Esperar Comprar Quando Forem Vendidos Em Saldo, Dos Livros Idem Idem Aspas Aspas Quando Forem Reeditados Em Formato De Bolso, dos Livros Que Podes Pedir A Alguém Que Te Empreste e dos Livros Que Todos Leram E Portanto É Quase Como Se Também Os Tivesses Lido. Escapando a estes assaltos, avanças para diante das torres do reduto, onde te opõem resistência

os Livros Que Há Muito Programaste Ler,

os Livros Que Há Anos Procuravas Sem Os Encontrares,

os Livros Que Tratam De Alguma Coisa De Que Ocupas Neste Momento,

os Livros Que Queres Ter Para Estarem À Mão Em Qualquer Circunstância,

os Livros Que Poderias Pôr De Lado Para Leres Se Calhar Este Verão,

os Livros Que Te Faltam Para Pôres Ao Lado De Outros Livros Na Tua Estante,

os Livros Que Te Inspiram Uma Curiosidade Repentina, Frenética E Não Claramente Justificada.

E lá conseguiste reduzir o número ilimitado das forças em campo a um conjunto sem dúvida ainda muito grande mas já calculável num número finito, mesmo que este relativo alívio seja atacado pelas emboscadas dos Livros Lidos Há Tanto Tempo Que Já Seria Altura De Voltar A Lê-los e dos Livros Que Dizes Sempre Que Leste E Seria Altura De Te Decidires A Lê-los Mesmo.”

“- Ler-diz ele, – é sempre isto: há uma coisa que ali está, uma coisa feita de escrita, um objecto sólido, material, que não se pode alterar, e através dessa coisa comparamo-nos com outra coisa qualquer que faz parte do mundo imaterial, invisível, porque é só pensável, imaginável, ou porque existiu e já não existe, passando, perdida, inalcançável, para o país dos mortos…

– …Ou que não está presente porque ainda não existe, algo de desejado, de temido, possível ou impossível – diz Ludmilla, – ler é ir ao encontro de qualquer coisa que está para ser e que ainda ninguém sabe o que será…”

“ A leitura que os amantes fazem dos seus corpos (desse concentrado de corpo e espírito de que os amantes se servem para irem juntos para a cama) difere da leitura das páginas escritas por não ser linear. Começa num ponto qualquer, salta, repete-se, volta atrás, insiste, ramifica-se em mensagens simultâneas e divergentes, torna a convergir, enfrenta momento de tédio, vira a página, recupera o fio, perde-se. (…)O aspecto em que a cópula e a leitura mais se parecem é que dentro delas se abrem tempos e espaços diferentes do tempo e do espaço medíveis.”

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