Os Olhos de Tirésias – Cristina Drios

tiresias

O que mais me impressionou neste livro foi, sem dúvida, a qualidade da escrita. O texto flui com naturalidade, sem nunca prescindir da riqueza de vocabulário e da elegância de estrutura; a narração a várias vozes permite o recurso a diferentes estilos, os quais apresentam diversos graus de confessionalidade e intimismo; as frequentes referências literárias e históricas tornam a obra mais abrangente, levantando questões e deixando pistas para reflexão; e as abundantes metáforas e imagens adicionam à leitura uma nota de beleza e musicalidade.

A neta de um soldado português enviado para a Primeira Guerra Mundial decide investigar a história desse seu antepassado e escrever um livro sobre ele. Entrará assim em contacto com elementos do seu próprio passado, que até então desconhecia, e também com alguns personagens curiosos cujas vidas rodearam a do seu avô. Cada um desses personagens abre uma janela sobre a história que procura e, mais importante ainda, uma nova perspectiva sobre a questão da percepção humana, que, durante toda a leitura, nos é colocada de várias formas: será aquilo que vemos real? Será uma imagem objectiva ou subjectiva? Será suficiente? Deveremos contentar-nos com a visão que temos do mundo? Teremos a capacidade de ver mais além? E a de não ver aquilo que nos horroriza? E será mais clarividente quem vê com os olhos ou com o coração?

Tal como Tirésias, o profeta cego da mitologia grega, dois dos personagens desta história têm o dom da premonição. Um deles, o avô investigado, é também, de certo modo, cego – um cego sentimental, incapaz de experimentar ou compreender qualquer tipo de emoção. Poderá essa cegueira ser ultrapassada? E, se o for, o que sucederá então às suas capacidades premonitórias? De notar que o médico que pretende estudar as mentes incomuns destes dois seres se vê confrontado com o mais rotundo fracasso e obrigado a remeter-se à cura das feridas do corpo, mais prosaica mas considerada mais urgente. E de assinalar também a presença do pequeno Émile Lebecq, que deve a sobrevivência às suas artes de… ilusionista. É que os ilusionistas só existem porque as pessoas gostam de ser iludidas…

Estão, pois, lançadas as sementes para um romance em dois planos – o plano factual, histórico, e o subjectivo, psicológico. A este quadro soma-se a análise feita pela narradora da sua própria vida pessoal, numa exposição lúcida e honesta das pulsões e dilemas comuns à generalidade dos seres humanos. O resultado é um livro que fala ao ouvido do leitor, relatando-lhe uma história que o prende enquanto, ao mesmo tempo, o faz pensar sobre a sua própria existência.

Excertos:

“E, se atentarmos bem nos nossos pés, nas nossas pernas, no movimento mecânico de andar, sincopado ou desajustado entre pés e braços, essa forma física de chegar às coisas e aos sítios, às outras pessoas, é irremediavelmente diferente se estivermos a ser levados pelo amor, pelo ódio ou pela suma indiferença. Por isso me agrada tanto observar, em locais de chegadas e partidas um terminal de aeroporto ou uma estação ferroviária -, a forma como cada pessoa se move, a andar, a correr, quantas vezes a tentar escapar-se, na única direcção possível, o futuro.” (págs. 18 e 19).

“Há coisas que sabemos que hã-de acontecer e, no entanto, só ocorrem quando já desistimos de as desejar; nesse momento ficamos irremediavelmente aturdidos, não porque tenha por fim acontecido aquilo por que tanto ansiávamos, mas porque não perdemos a capacidade de nos espantar.” (pág. 24).

“A resposta, porém, conheço-a bem, é simples e aterradora: em breve, quebrado esse ténue fio a ligar-me aos factos, terei perdido o pé e, num jardim do éden, estarei a apaixonar-me por uma ficção. Apaixonar-me-ei, não por uma pessoa, não por uma situação, nem sequer pela conjunção estelar da pessoa na situação certa, mas pela possibilidade encerrada ness promessa dúbia, o amor. De certa forma, neste encontro, foi-me prometida uma vida nova, um recomeço.” (pág. 121).

“Creio que, para se tornarem marcos miliários na vida do leitor, os livros carecem de uma leitura não só no tempo certo, como no local certo, como ainda, nesse tempo e local, abrindo campo a uma possibilidade latente, escondida, talvez mesmo rejeitada. Como o amor. Abrem-nos os olhos para um desejo, qualquer coisa a latejar cá dentro que não queríamos ou sabíamos exprimir. Ali está, preto no branco, e de repente tudo se torna claro, preciso e irrefutável, abre-se uma porta e daí em diante é impossível arrepiar caminho. Como se o diabo nos entrasse no corpo.” (pág. 122).

Teorema Editora
.

Anúncios

2 pensamentos sobre “Os Olhos de Tirésias – Cristina Drios

  1. Sónia, este teu texto é brutal. Reli-o agora que li o livro da Cristina Drios. Pensa em voltar a escrever por aqui. As tuas análises são um deleite para quem gosta de ler.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s