” A Peste” de Albert Camus



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Albert Camus (1913-1960), jornalista, escritor, filósofo e Prémio Nobel da Literatura em 1957, é considerado como um dos grandes nomes da arte de escrever do século XX. Confesso ter sido um pouco a medo que decidi pegar no volume de “A Peste” que me desafiava do alto da prateleira da Biblioteca Itinerante. Tinha a percepção que as obras deste autor seriam inacessíveis ao grande público sendo, ao invés, destinadas às mentes intelectuais e a círculos restritos de leitores dedicados a livros “difíceis”. Esta ideia não podia estar mais errada! Ler este romance foi um enorme prazer não só pelo estilo de escrita superior revelado pelo autor, como também pela forma como tratou o tema central da narrativa. A pretexto da criação de uma história sobre um surto de peste bubónica ocorrido numa cidade argelina na década de 1940, Camus apresenta-nos uma série de personagens marcantes e ricas, representativas das várias facetas do ser humano. Estas vão sendo desvendadas, pouco a pouco, ao longo de uma narrativa bem construída e sedutora que prende, eficaz e brilhantemente, o leitor. A leitura deste livro evocou na minha memória uma frase de Ferreira de Castro, acerca da literatura, incluída em “Os Fragmentos” e referente à explicação da origem de “O Intervalo” :

“Que esse seu estádio, então e hoje, ainda um estádio do mundo inteiro, seduzisse um escritor a incorporá-lo na Literatura, que por natureza é reflexão e sentimento das várias fases humanas, sempre me parecera trabalho para servir a Arte e expor ao Homem mais uma parcela do seu próprio espírito.”

Estas palavras traduzem, na perfeição, o sentimento que me ficou ao acabar de ler “A Peste”; um sentimento de que muita da complexidade do espírito humano estava ali dissecada e exposta de modo absolutamente brilhante. Não me vou alongar mais, nem tão pouco discorrer sobre a história deste livro notável cuja leitura recomendo vivamente. Deixo aqui alguns excertos que, espero, suscitem a curiosidade de ler “A Peste”:

““Os flagelos, com efeito são uma coisa comum, mas acredita-se dificilmente neles quando nos caem sobre a cabeça. Houve no mundo tantas pestes como guerras. E, contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas. “ (…) Quando rebenta uma guerra, as pessoas dizem: “Não pode durar muito, seria estúpido.”. E, sem dúvida, uma guerra é muito estúpida, mas isso não a impede de durar. A estupidez insiste sempre e compreendê-la-íamos se não pensássemos sempre em nós. Os nossos concidadãos, a esse respeito, eram como toda a gente: pensavam em si próprios. Por outra palavras, eram humanistas: não acreditavam nos flagelos. O flagelo não está à medida do Homem; diz-se que o flagelo é irreal, que é um mau sonho que vai passar. Ele, porém, não passa, e de mau sonho em mau sonho, são os homens que passam e os humanistas em primeiro lugar, pois não tomaram as suas precauções. Os nossos concidadãos não eram mais culpados do que os outros. Apenas se esqueciam de ser modestos e pensavam que tudo era ainda possível para eles, o que pressupunha que os flagelos eram impossíveis. Continuavam a fazer negócios, preparavam viagens e tinham opiniões. Como poderiam ter pensado na peste, que suprime o futuro, as viagens e as discussões? Julgavam-se livres e nunca alguém será livre enquanto existirem os flagelos.”

“Mas o narrador é mais tentado a acreditar que, dando demasiada importância às belas acções, presta-se finalmente uma homenagem indirecta e poderosa ao mal, pois deixaria então supor que estas belas acções só valem tanto por serem raras, e que a maldade e a indiferença são forças motrizes bem mais frequentes nas acções dos homens. Essa é uma ideia de que o narrador não compartilha. O mal que existe no mundo vem sempre da ignorância, e a boa vontade, se não for esclarecida, pode fazer tantos estragos como a maldade. Os homens são mais bons que maus, e, na verdade, a questão não está aí. Mas ignoram mais ou menos, e é a isso que se chama virtude ou vício, sendo o víco mais desesperado o da ignorância, que julga saber tudo e se autoriza então a matar. A alma do assassino é cega e não há verdadeira bondade nem belo amor sem toda a clarividência possível.”

“Acreditei que a sociedade em que eu vivia repousava na condenação à morte e que, combatendo-a, combatia o assassínio. Acreditei-o, outros disseram-mo e, para terminar, em grande parte era verdade. Coloquei-me, pois, com aqueles que amava e que não deixei de amar. Fiquei com eles durante muito tempo e não há país da Europa cujas lutas eu não tenha compartilhado. Adiante.

Bem entendido, eu sabia que também nós procedíamos, ocasionalmente, a condenações. Mas diziam-me que essas mortes eram necessárias para construir um mundo em que não se mataria ninguém. Era verdade, de certo modo, e, no fim de contas, talvez seja eu que não sou capaz de me manter nesse género de verdades. O que é certo é que eu hesitava. Mas pensava no mocho e a coisa continuava. Até ao dia em que vi uma execução (estava na Hungria) e a mesma vertigem que havia atacado a criança que eu era obscureceu os meus olhos de adulto. (…) Quando me acontecia exprimir os meus escrúpulos, diziam-me que era preciso reflectir no que estava em jogo e davam-me razões muitas vezes impressionantes para me fazerem engolir o que eu não conseguia deglutir. (…) Mas eu respondia então que, se cedia uma vez, não havia razão para parar. Parece-me que a História me deu razão- hoje cada qual mata o mais que pode. Andam todos no furor do assassínio e não podem proceder de outra maneira.”

“Do morro escuro subiram os primeiros foguetes dos festejos oficiais. A cidade saudou-os com uma longa e surda exclamação. Cottard, Tarrou, aqueles e aquelas que Rieux tinha amado e perdido, todos, mortos ou culpados, estavam esquecidos.

O velho tinha razão, os homens são sempre os mesmos. Mas essa era a sua força e a sua inocência, e era aqui que Rieux sentia que se juntava a eles. No meio dos gritos que redobravam de força e de duração, que repercutiam longamente até junto do terraço, à medida que a chuva multicolor se elevava mais abundante no céu, o doutor Rieux decidiu redigir esta narrativa que aqui termina, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor destes pestiferados, para deixar ao menos uma recordação da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar do que a desprezar.”

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