Profundo como o mar – Jacquelyn Mitchard

profundocomoomarÉ difícil imaginar a dor que o desaparecimento de um filho pode causar nos pais e na restante família. “Profundo como o mar” é um livro conhecido, que foi inclusive adaptado ao cinema, mas que eu ainda não tinha lido. Já habitava a minha estante há uns tempos, mas foi a aquisição inesperada de “Sem Tempo para dizer Adeus”, da mesma autora e sequência deste livro, que me fez finalmente lê-lo.

Ben desaparece aos 3 anos. No átrio de um hotel fica entregue aos “cuidados” do irmão mais velho, Vincent, enquanto a mãe convive com antigos colegas de escola. A mãe mergulha num abismo de dor e culpa. Toda a família é arrastada para uma sensação de frustração e impotência perante o, ao que tudo indica, rapto de Ben.

A relação do casal Beth e Pat degrada-se. Vincent não tem um crescimento considerado normal; a partir do momento em que o irmão os deixa a educação e crescimento de Vincent são pautados pela dor, pela culpa, e também pelo abandono a que a mãe submete todos. Apenas a pequena Kerry (irmã mais nova), por ser muito pequena, não pode detetar a diferença de comportamentos, e a sua educação/crescimento decorre num ambiente de profunda dor; Kerry, ao contrário de Vincent, nunca conheceu outra realidade, não tem memórias de a sua família ser feliz.

Gostei de ler este livro, mas por vezes confesso que o achei demasiado exaustivo. Em algumas descrições fez-me mesmo perder o interesse na leitura. Penso que os sentimentos de perda e vazio poderiam ter sido explorados de forma mais intensa, dando mais poder ao drama mas utilizando menos páginas. Vincent é sem dúvida a personagem que considero mais interessante. Uma criança que cresce com o estigma de ter deixado o irmão “ir embora”, nunca foi considerado culpado pelos pais mas cresce a sentir-se responsável pela perda de Ben. Inevitavelmente torna-se um adolescente com problemas de integração social, com vários episódios de delinquência.

De forma surpreendente Ben é encontrado. Passados 9 anos e de forma inesperada a família reencontra-se. Ben foi raptado mas bem tratado, e para ele a família é o “pai” com quem vive. Não se lembra de Beth e Pat nem dos irmãos.

Mais do que a história do desaparecimento de Ben, “Profundo como o mar” é um testemunho do seu regresso, da felicidade de encontrar um filho perdido e da tomada de consciência que é impossível recuperar o passado, e que Ben nunca estará completamente de volta.

Apuradas as responsabilidades em tribunal Ben é entregue à família biológica. Existem os laços de sangue mas na verdade são perfeitos estranhos. Neste ponto achei que a exploração da dor e da mágoa foram novamente exaustivos, penso que não seriam necessárias tantas páginas para descrever a dor e quanto profundamente avassalador foi o percurso desta família.

Um livro mediano que, a meu ver, acaba por saturar mais do que impressionar e não explora da melhor forma os sentimentos de quem lê. Considero-o pouco intenso para drama e pouco empolgante para um livro de mistério. Um livro “morno”.

Sinopse

“Bastou apenas um instante para que, naquele irrequieto átrio de hotel onde Beth iria rever os seus ex-colegas de liceu, Ben, o seu filho de três anos de idade, largasse a mão do irmão mais velho e desaparecesse sem deixar um único rasto visível. A sua ausência viria a fecundar com sementes de disfuncionalidade um terreno familiar aparentemente banal, votando todos os seus elementos a uma profunda agonia. Até que um dia, nove anos depois do desaparecimento, toda a família é obrigada a enfrentar um novo choque…”

Presença, 1998

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