Filhos da Época – Knut Hamsun (Editorial Minerva)

Filhos da Época - Knut HamsunKnut Hamsun é comummente designado como o criador do romance moderno tendo influenciado inúmeros escritores que se lhe seguiram ao longo do século XX um pouco por todo o mundo.

Se por um lado os seus primeiros romances que datam ainda da última década do século XIX são romances que enfatizam a natureza psicológica dos seus personagens, não descurando, é certo, de todo o ambiente em que se movem, seja mais citadino ou rural. O elemento dramático ou mesmo trágico é igualmente um dos elementos fundamentais em obras como Fome (1890), Mistérios (1892), Pan (1894) e Victoria (1898), obras publicadas no período indicado. As difíceis relações entre os personagens que conduzem a amores impossíveis de concretizar ou mesmo amores imaginários é outra das fortes componentes exploradas nas obras supramencionadas.

No entanto, a partir de 1910, Knut Hamsun dá um novo rumo às suas obras no que respeita às questões centrais. Assim, não colocando de lado a exploração psicológica dos personagens, o autor passa a ser um acérrimo defensor do conservadorismo rural tendo como objetivo dar a conhecer à Noruega e aos Noruegueses do seu tempo que a modernidade do país não deverá esquecer a terra como fonte de riqueza colocando igualmente o homem em harmonia com a natureza. Deste modo, Knut Hamsun acredita que a progressiva industrialização do país poderá conduzir o país à dependência do capital e da banca em oposição à crescente importância da terra, elemento central das obras do autor que foram influenciadas pelo novo realismo norueguês que retrata o dia-a-dia da Noruega rural empregando frequentemente o dialeto local, a ironia não esquecendo também o humor.

É neste contexto que Knut Hamsun publica Filhos da Terra, em 1913, apresentando-nos o tenente Willatz Holmsen, o terceiro de uma geração de grandes proprietários de Segelfoss, uma grande propriedade costeira, no eixo da região de Bergen e Trondheim, tendo também muitos animais, ribeiras, mata de onde se retira a madeira mediante as necessidades ao longo das estações do ano.

Segelfoss apresenta-se, pois, como uma grande propriedade muito ao estilo das descrições dos poemas homéricos em que, neste caso em particular, o tenente Willatz Holmsen é o senhor que garante a ordem e a harmonia desse universo fechado de quem as várias famílias de trabalhadores dependem para sobreviver sendo a terra e os animais o seu sustento.

Segelfoss é neste sentido um mundo económico e social fechado sobre si mesmo tendo poucas ou nenhumas relações com o exterior, mesmo no que respeita ao resto do país.

Mas tudo está prestes a mudar com o regresso de um filho da terra que viveu durante muitos anos no México. Decidido a estabelecer-se definitivamente em Segelfoss, Holmengraa, apelidado muitas vezes por “Rei Tobias”, negoceia a compra faseada de várias parcelas de Segelfoss que passará a utilizar para a construção da sua residência, cais, loja, abate da mata, para além de tantos outros projectos que se vão aflorando à sua mente à medida que os anos vão passando.

É assim que Filhos da Terra coloca em confronto dois mundos, duas realidades e duas formas de pensar completamente distintas tendo como seus promotores o tenente Willatz Holmsen, homem profundamente conservador em oposição Tobias Holmengraa, homem viajado e conhecedor daquilo a que se pode designar por progresso.

O progresso foi de tal forma notável em Segelfoss ao ponto de a própria paisagem ter sofrido alterações em detrimento da atividade humana, colocando, dessa forma, aquela localidade em articulação com algumas das principais rotas marítimas nacionais e internacionais, atraindo igualmente muitos trabalhadores à região acabando por se estabelecerem atendendo à melhoria significativa das condições de vida. Não deixa de ser interessante como a população rapidamente se adapta à nova realidade passando a ter mais dinheiro disponível, adquirindo outro tipo de bens de consumo que anteriormente não era possível, não esquecendo que a própria alimentação sofreu grandes melhorias sendo mais abundante e mais variada.

Se por um lado o tenente Willatz Holmsen sempre se mostrou renitente com a venda das sucessivas parcelas entre outros recursos, por outro lado, a sua venda constituía um encaixe de liquidez que permitia fazer face às suas muitas despesas necessárias à manutenção de Segelfoss e dívidas para com o banco, herança deixada do seu falecido pai.

Do ponto de vista psicológico, o tenente Willatz Holmsen é um homem profundamente humano que procura basear a sua vida no dia-a-dia nos textos dos filósofos humanistas, tornando-se, ele próprio filósofo como forma de ultrapassar as suas dificuldades e problemas, lidando também com lisura e compreensão com todos aqueles que vivem em Segelfoss e que dele dependem para a sua sobrevivência. Incapaz de recusar qualquer pedido que seja, sendo esta uma das suas máximas, o tenente Willatz Holmsen tentou sempre, na medida do possível, satisfazer as necessidades dos habitantes da propriedade.

Extremamente cordial e correto com o seu filho, preocupou-se desde sempre com a educação do mesmo, enviando-o para Inglaterra para estudar, porém, passados alguns anos, o jovem é enviado para Berlim para aprender música em virtude de se tratar da sua verdadeira vocação, situação igualmente compreendida e aceite pelo tenente.

Com um casamento problemático face à sua passividade, o tenente gere sempre à distância as decisões e as vontades da sua esposa alemã Adelheid que é apresentada como uma mulher culta, inteligente, responsável pela educação do filho e deveras emancipada.

Considerado como louco e ridículo, à medida que a história vai decorrendo, o leitor vai ganhando especial consideração e afeto pelo tenente Willatz Holmsen que tudo faz para manter a harmonia de Segelfoss, sendo, pois, um personagem da literatura que dificilmente esqueceremos pela sua bondade, otimismo (mesmo nos piores momentos), compreensão, tolerância, entre tantos outros aspetos que fazem do seu caráter um mais nobres seres humanos caso não estivéssemos a falar de literatura, mas que ainda assim servem de modelo para a nossa relação com os outros ao longo da vida.

Fica a certeza de mais uma obra literária memorável que, aparentemente inocente, apresenta-se repleta de significado e com um enorme sentido universal. Para os admiradores das obras deste escritor norueguês, certamente não vai deixar de querer ler Filhos da Época.

Filhos da Época assume-se neste contexto como o romance preparatório para a publicação do magistral Pão e Amor, em 1917, que valeu a Knut Hamsun a atribuição do Prémio Nobel de Literatura, em 1920.

hamsunExcertos:

“Tais acontecimentos constituíram um progresso e uma bênção para toda a região e as suas redondezas. Todo o centeio que se convertia em farinha tornava quase impossível encontrar vestígio de fome ou de penúria naqueles sítios; à falta de outro meio, podia-se ir ter com o «Rei» Tobias e comprar a crédito, mas entretanto, era fácil arranjar trabalho em casa dele e estar ao seu serviço. Era uma coisa nunca vista! Como a vida se desanuviava! Os jornaleiros podiam mascar tabaco à vontade e os camponeses que tinham cavalos faziam carretos para as obras e ganhavam para pagar os impostos e comprar toda a espécie de coisas. O progresso e as bênçãos não tinham fim! O próprio senhor Holmengraa parecia prosperar também e florescer; o ar dos pinheiros e uma actividade a seu gosto haviam-lhe restabelecido a saúde, e, no que dizia respeito a ganhos materiais, não podia correr perigo algum, eh, eh! Nenhum perigo iminente decerto o ameaçava. Ou, então, como era? Os negociantes de perto e de longe não mandavam a Segelfoss os seus barcos, de oito e dez remos, buscar carregamentos de farinha? E o negócio não progredira a ponto de ser preciso instalar um escritório e casas de habitação para o chefe dos armazéns, lá em baixo, no cais? Em Segelfoss havia agora uma estação de correio. Segelfoss tornara-se estação para os navios-correios da costa, para os navios das carreiras Vadsö-Hamburgo, que vinham de três em três semanas, do norte e do sul, e traziam a correspondência e descarregaram mercadorias, carregando, à ida, farinha para todo o Norte. O chefe de cais tinha na verdade muito que fazer: o correio e a expedição, a contabilidade e toda a correspondência, além de dirigir o pessoal e fiscalizar os pesos e as medidas. Não tardou muito que lhe não dessem um empregado para o ajudar, de tal maneira a actividade crescia rapidamente. O próprio «Per da loja» tinha agora um grande negócio e recebia caixas e tonéis por cada navio; depois do dia de Ano Novo devia ter uma licença para vender vinho e então viriam ainda mais caixas e barris para ele; quem era capaz de dizer onde aquilo pararia?

(…)

Segelfoss e seus arredores estavam irreconhecíveis desde o tempo em que reinava o tenente; nada soçobrara, propriamente falando, mas tudo mudara de aspeto e de caráter, e tudo continuava a mudar, coisas e pessoas.” (pp. 136-137, 182)

“Mas uma pequena festa de bodas como aquela não podia alegrar os convidados por muito tempo, o humor geral era e continuava sombrio. Ninguém podia, verdadeiramente, compreender o que se passava; o moinho rodava noite e dia, como dantes, os navios-correios, que primeiro só passavam de quinze em quinze dias, agora vinham todas as semanas; Baardsen, na estação de telégrafo, mais o seu ajudante, o pequeno Godofredo, expediam telegramas a respeito do arenque, do bacalhau, da compra e venda, e as mercadorias e a actividade… Por conseguinte havia bastante vida em Segelfoss; mas o humor era sombrio. (pp. 269-270)

“Chegou um dia uma carta de Willatz, em que o filho dizia estar em apuros… Oh! Fora um acaso: numa sala de leilões, estava lá uma senhora a chorar, encostada a um piano de preço – o seu ganha-pão. Que havia de fazer Willatz? Oferecer-lhe o piano; era um caso de honra e uma boa ação. «Meu querido pai, é uma quantia, uma avultada quantia… Talvez o não devesse ter feito? Foi por acaso, nós tínhamos ido ao leilão, vários músicos, iam vender-se instrumentos empenhados. E a senhora chorava, devia ser professora, e nós outros, músicos, ficámos a vê-la. Então fiz o que já te disse, pensei em ti, e fi-lo; numa palavra, o dinheiro deve ser entregue no prazo de um mês. Que devia eu fazer, neste caso, meu querido pai?»

Alto! – disse o tenente, para si mesmo e para a carta – nem mais uma palavra! O dinheiro? Claro que sim.

Dito isto, foi procurar o senhor Holmengraa. Pelo caminho, observou que se sentia profundamente emocionado; seu filho honrava-o, estava entusiasmado com a sua conduta, os olhos marejavam-se-lhe de enternecimento. O seu Willatz… Oh, era bem um rebento da sua raça, um Willatz Holmsen, como o fora o pai do tenente, o seu grande e nobre pai! Numa palavra… Estou a vê-lo…” (pp. 270-271)

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