O Anão – Pär Lagerkvist (Antígona)

O Anão -Pär Lagerkvist“Ser homem é uma coisa grande e maravilhosa, mas deveremos regozijar-nos por sê-lo? Ser homem é uma coisa destituída de sentido, mas deveremos afligir-nos, cheios de desespero? Como responder a tais perguntas?” (p. 43)

Publicado inicialmente em 1944, O Anão é a obra mais significativa e mais traduzida do sueco nobelizado Pär Lagerkvist (1891-1974) que conheceu uma edição portuguesa em 1955 e que foi recentemente recuperado pela Antígona.

O Anão é passado numa corte italiana renascentista, embora a noção de tempo não seja significativa em virtude de algumas das referências marcantes aludirem especificamente ao século XIV, nomeadamente a fome, a peste e a guerra comummente denominadas por trilogia negra.

Piccolino é o anão que após ter sido rejeitado pela sua mãe foi vendido por esta ao príncipe para servir como bobo da corte. Porém, Piccolino é muito mais do que o bobo da corte, é a personificação de todo o mal atendendo ao facto de que aquilo que mais odeia é o ser humano não esquecendo todos os seres da sua estirpe que odeia com todas as suas forças.

Quer por iniciativa própria, quer por indicação do príncipe, Piccolino age deliberada e conscientemente cometendo todo o tipo de atrocidades com vista à extinção humana de quem sente o mais profundo desprezo.

Nesta obra, o mal é dissecado sob as suas múltiplas facetas sendo que Piccolino assume-se como a personificação de Satanás sentindo uma exaltação imensa, um puro delírio na prática do mal como se tratasse da sua religião. É perfeito na consecução da maldade! Aliada à rejeição que sente por parte dos homens, Piccolino sente igualmente o temor que os homens sentem quando se cruzam consigo quase sentindo de forma espelhada e num ser com aquelas características todos os receios, medos e aterrorizando-os verdadeiramente “o anão que se esconde neles” (p. 24).

Mesmo na condição de prisioneiro a dada altura da narrativa, Piccolino tem a nítida consciência e convicção de que o seu senhor “não poderá passar muito tempo sem o seu anão” (p. 178).

O Anão - 1ª ed.

Ler O Anão pode tornar-se desconfortável na medida em que a maldade que corre no sangue envenenado de Piccolino torna-o um ser mesquinho, miserável e desprezível, sendo, pois, um reflexo de até onde pode ir a natureza humana que é imune ao espaço e ao tempo.

São inúmeras as leituras cruzadas que se podem fazer a partir deste livro, nomeadamente através de extensões a Antígona de Sófocles, O Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, O Discurso da Dignidade do Homem de Pico della Mirandola, não esquecendo também O Príncipe de Maquiavel, além de outros exemplos que aqui poderiam ser referidos.

Pär Lagerkvist criou sem dúvida uma obra incontornável da literatura contemporânea e com uma mensagem de caráter universal valendo-lhe, em 1951, a atribuição do Prémio Nobel de Literatura.

Pär LagerkvistExcertos:

“O meu destino é odiar as criaturas da minha espécie. A minha própria estirpe é-me execrável.Mas também me odeio a mim mesmo. Devoro a minha carne embebida de fel. Bebo o meu sangue envenenado. Sombrio bispo do meu povo, cumpro todos os dias o meu riso solitário.” (pp. 22-23)

“Tenho notado que por vezes inspiro temor. Mas cada um sente sobretudo medo de si próprio. Os homens supõem sem razão que é por minha causa que andam inquietos. O que na realidade os aterroriza é o anão que se esconde neles, a caricatura humana de rosto simiesco que ergue por vezes a cabeça fora das profundezas do seu ser. Sentem-se tanto mais horrorizados quanto ignoram a sua existência. Espanta-os ver surgir à superfície esse desconhecido que lhes parece nada ter de comum com a sua verdadeira vida. Quando nada aparece acima dos esconsos, sentem a alma em paz. Seguem, de cabeça alta, impassíveis, com rostos lisos, sem expressão. Mas há sempre neles qualquer coisa de diferente, que fingem ignorar; podem viver diversas vidas ao mesmo tempo sem o saber. São estranhamente reservados e incoerentes. E são disformes, embora isso não seja visível.” (p. 24)

“Louco de excitação, contemplava os resultados inauditos da minha obra. Assim, eu exterminara aquela raça execrável, que só merecia ser destruída. Assim, a minha arma poderosa e vingadora, exigindo uma punição completa, sem piedade os ceifava. Assim, eu enviava-os para as chamas do Inferno por toda a eternidade. Pudessem eles arder lá todos! Todos aqueles seres que a si mesmos dão o nome de homens e nos enchem de nojo! Porque existem eles? Porque se fartam de risos e de amor e reinam tão orgulhosamente sobre a Terra? Sim, porque existem eles, esses hipócritas e esses charlatães, esses seres lascivos, sem sombra de vergonha, cujas virtudes são piores que os vícios? Possam todos arder no Inferno! Eu sentia-me como o próprio Satanás, rodeado pelos espíritos infernais que eles invocavam nas suas reuniões noturnas e que nesse momento, voltando para eles a cara trocista, arrebatavam dos seus corpos as almas ainda quentes e nauseabundas, para as levar para o reino da morte. Com uma volúpia que jamais experimentara antes e cuja violência quase me fez perder os sentidos, eu saboreava o meu poder sobre a Terra.” (p. 112)

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