Kanikosen – O Navio dos Homens – Takiji Kobayashi (Clube do Autor)

Takiji Koboyashi

«A ressurreição triunfal de um autor japonês.»

Le Magazine Littéraire

«Kobayashi descreve com precisão e realismo expressionista as dificuldades dos pescadores.»

Qué Leer

Takiji Kobayashi (1903-1933) é um dos mais reconhecidos escritores japoneses por ter sido ao longo da sua curta vida um dos defensores do proletariado estando associado ao movimento sindical assim como ao Partido Comunista. O reconhecimento veio na sequência da publicação de Kanikosen – O Navio dos Homens, em 1929, tornando-se o grande escritor do proletariado na luta contra a injustiça social. Em 1933, Takiji Kobayashi foi preso sofrendo penosas torturas que conduziram à sua morte em escassas horas.

Recentemente a obra Kanikosen – O Navio dos Homens foi redescoberta pelas gerações mais novas no Japão tornando-se novamente um sucesso de vendas tendo em consideração a identificação com os personagens que dão alma ao livro.

Kanikosen - O Navio dos Homens

Hakko Maru é um navio-fábrica que parte para as águas geladas no Kamchatka (fronteira com o Japão) para a pesca do caranguejo durante vários meses cuja tripulação é constituída maioritariamente por estudantes universitários, camponeses pobres e tantos outros dependentes da bebida e das mulheres que “tinham de vender o corpo por uma ninharia” (p. 18).

À medida que a viagem vai decorrerndo, rapidamente a tripulação toma consciência que a realidade que ali vai vivenciar em nada tem a ver com o previamente estipulado em terra e assim enfrentam dias penosos de frio, fome, falta de higiene, para além dos severos castigos que por vezes conduzem à morte sempre que o patrão considera que a produtividade está aquém do esperado.

Embarcar na leitura de Kanikosen – O Navio dos Homens é embarcar numa viagem alucinante ao inferno das condições inimagináveis por que um ser humano alguma vez é capaz de passar! Como forma de apaziguar os ânimos da tripulação, os jovens comentavam entre si “Pensa no Recordações da Casa dos Mortos de Dostoiévsky. Se pensares que agora conheces isto, não parece nada do outro mundo.” (p. 68)

É neste contexto de condições de trabalho extremamente duras que gradualmente se vão disseminando as sementes da revolta que conduzirão ao inevitável motim na embarcação.

Excertos:

“- Se o inferno é pior que isto, tenho de o ver para acreditar.

– Quando voltarmos para casa, e por mais que o contemos, ninguém irá acreditar.

– É verdade. Não creio que haja coisa mais dura.” (p. 47)

“O patrão anunciou com uma mensagem que, além de premiar o trabalhador que rendesse mais, castigaria aquele que rendesse menos. O castigo consistiria em aplicar-lhe um ferro ao rubro sobre a pele. Ao trabalharem, os homens não podiam deixar de pensar nesse ferro escaldante, que os perseguia como se fosse a sua sombra.

A produtividade do trabalho voltou a aumentar de modo considerável.”

(p. 67)

“O polvo para sobreviver, come os seus próprios tentáculos. Eram exatamente isso! Assim surgiu esta classe de exploração primitiva que não temia nada. Os patrões recolhiam benefícios às pazadas. E racionalizaram-nos habilmente, associando-os a frases como «desenvolvimento da riqueza nacional». Os capitalistas eram muito astutos. Os trabalhadores morriam à fome, ou eram espancados até à morte «em nome da nação».” (p. 74)

“O patrão disse que o «velório» prejudicaria o trabalho do dia seguinte, e assim apenas permitiu que estivessem presentes os doentes que não podiam trabalhar. Quando despiram o morto para lhe lavarem o corpo com água quente, sentiram um odor forte e viram que estava infestado de repugnantes piolhos brancos e achatados. A sujidade que lhe cobria a pele era como uma camada contínua de escamas, e o cadáver parecia um tronco de pinheiro caído. As costelas sobressaíam-lhe sob o peito. Quando a beribéri de que sofria piorou, perdera a capacidade de andar sem ajuda, e assim urinara para cima de si mesmo. As cuecas e a camisola interior tinham adquirido uma cor vermelho-escura e, quando lhas despiram, parecia que iam desfazer-se como se as tivessem mergulhado em ácido sulfúrico. O umbigo tinha tanta imundície e sujidade que já nem se via. À volta do ânus havia excrementos secos e colados à pele como se fossem plasticina.”

(…)

Nenhum dos homens exibia as suas emoções. Tentando que ninguém reparasse, trabalhavam ocultando a sua raiva. Por mais que o patrão gritasse com todas as suas forças, por mais que os atormentasse quando passava junto deles, não respondiam e mantinham-se calmos. Continuavam assim, um dia a seguir ao outro. A princípio, a ideia aterrorizava-os mas, apesar disso, continuaram a esquivar-se. Desde o funeral no mar, que os seus movimentos se tinham tornado mais lentos e a produção diminuía de modo evidente.” (pp. 113, 121)

“- Com quatro ou cinco dos nossos, um único mestre de bote não dura nem um minuto até o atirarmos ao mar. Podemos deitar-lhe a mão. Um contra um não serve de nada. É demasiado perigoso. Mas eles, contando com o capitão e não importa quantos mais, não chegam a dez. Por outro lado, nós somos cerca de quatrocentos. Quatrocentos homens juntos são invencíveis. Dez contra quatrocentos! Imaginem que se trata de um combate de sumo. – E acabou por acrescentar: – Quem não quiser ser morto, que se junte a nós.” (p. 125)

“As companhias pesqueiras escolhiam com extremo cuidado os pescadores. Nos locais de recrutamento, contavam com a ajuda dos presidentes das câmaras e dos chefes da Polícia para escolherem os «jovens modelos». Selecionavam os trabalhadores que não sentiam simpatia pelos sindicatos e que eram obedientes. «Com astúcia, tudo para o nosso interesse!» Mas o trabalho no barco-fábrica conseguira exatamente o contrário: os trabalhadores tinham-se agrupado e estavam prestes a organizar-se. Até o capitalista mais astuto não teria imaginado que as coisas pudessem acontecer de modo tão estranho. Ironicamente, tinham feito um favor àqueles trabalhadores desorganizados, bêbados e inúteis; tinham-nos ensinado e juntarem-se e a organizarem-se.”

(pp. 126-127)

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