A Arte da Ressurreição – Hernán Rivera Letelier (Alfaguara/Objectiva)

A Arte da Ressurreição - Hernán Rivera Letelier

“Letelier é um extraordinário contador de histórias. Cheio de vida, este romance estupendo transporta-nos para um passado que coincide com o presente moral.”

El Cultural

“Rivera Letelier transforma as minas do deserto chileno em ouro literário. (…) Este romance está escrito com uma linguagem deslumbrante, um idioma que é como um repicar de sinos e de ressurreições.”

ABC

A Arte da Ressurreição é a obra singular do chileno Hernán Rivera Letelier que retrata a dureza da vida dos habitantes de La Piojo, uma pequena localidade junto a uma mina salitreira em pleno deserto de Atacama cujos trabalhadores se encontram em greve geral contra as duríssimas condições de trabalho a que estão sujeitos. As profundas dificuldades económicas da população aliadas ao aparecimento de um estranho personagem que se assumiria como a reincarnação de Cristo conhecido como o Cristo de Elqui são alguns dos ingredientes deste livro que dificilmente se esquecerá muito à conta dos vários personagens que aqui vão desfilando refletindo, de certa forma, a realidade daquelas paragens ainda que com um forte pendor para o fantástico sendo que aquelas latitudes sejam propícias a situações que poderiam considerar-se quase surreais comummente aceites pelas populações locais como casos verdadeiramente normais.

Hernán Rivera Letelier1 O Cristo de Elqui, o personagem central da obra, torna-se famoso pelas suas prédicas e milagres naquela região procurando igualmente Magalena Mercado, a prostituta mais exímia da sua arte e simultaneamente mais beata que as beatas, o que torna a história mais interessante na medida em que o Cristo de Elqui, como homem que era, sentia fortemente o desejo da carne e nada melhor do que ter a prostituta como sua fiel discípula e amante para, em conjunto, anunciarem o fim do mundo.

Como em todas as pequenas localidades não falta um maluquinho, La Piojo não é exceção, Dom Anónimo mostrava um empenho imenso em varrer o deserto mais comprido do mundo munindo-se, para tal, de uma vassoura e de uma pá.

Com personagens verdadeiramente inesquecíveis, A Arte da Ressurreição é uma obra também inesquecível não só pelos bons momentos de leitura que proporciona, como retrata de modo real e surreal uma época e uma região únicas repleta de humor e fantasia.

A Arte da Ressurreição garantiu ao chileno Hernán Rivera Letelier a atribuição do Prémio Alfaguara 2010 sendo igualmente uma das três obras do autor publicadas em Portugal.

Excertos:

“(…) Para os forasteiros existia uma referência ainda mais extravagante que distinguia La Piojo das outras fábricas, uma referência de índole humana. Moravam ali duas das personagens mais conhecidas e singulares da região Central: o maluquinho que com uma pá e uma vassoura se empenhava em varrer o deserto mais comprido do mundo, e a prostituta que parecia uma irmãzinha da caridade.

(…)

O que certamente ninguém negava era o facto indesmentível de que o comportamento de Magalena Mercado – «a p*** hipócrita», como lhe chamavam as senhoras do acampamento – fazia supor, de qualquer forma, que era uma rematada louca. Pois nunca, em lugar algum, compadre, diziam os solteiros da mina, se tinha visto uma p*** tão p*** e ao mesmo tempo tão devota das coisas de Deus.

(…)

O certo era que, a princípio, os homens surpreendiam-se e desconcentravam-se com o altar instalado num canto do quarto onde professava o seu ofício, tanto assim era que alguns, os mais crentes, se retiravam coibidos e sem consumar o ato. É que a imagem da Virgem, de um metro e vinte de altura, talhada à mão, era de uma beleza tal que intimidava o espírito. Por isso mesmo, Magalena Mercado optou pelo mais são: todas as tardes antes de começar a atender os seus «fregueses», como se chamavam a si próprios os seus assíduos, ajoelhava-se à sua frente, benzia-se fervorosa e cobria-lhe a cabeça com uma manta de veludo azul.

«Vou e volto, Chinita», sussurrava-lhe.

(…)

No entanto, em La Piojo, éramos todos testemunhas de que Magalena Mercado era mais piedosa do que cada uma das beatas da exígua congregação católica. Ela fazia penitências e votos de jejum dois dias por semana, ajoelhava-se a rezar diante da imagem da sua Virgem diariamente, ao levantar-se e ao deitar-se, e era possuidora de uma generosidade tão cristã e de um amor ao próximo tão forte, que foi a única que acolheu em sua casa dom Anónimo, quando o pobre louco foi despedido sem consideração pela companhia e não tinha onde descansar os ossos.

(…)

Preocupava-se tanto Magalena Mercador com o homenzinho, que nas filas da venda o mulherio do acampamento dizia que a rameira da Virgem de Cármen era tão caridosa, não vai acreditar em mim, comadre, valha-me Deus, que além de albergar o pobre Maluquinho da Vassoura, até lhe fazia o favor de lhe dar uma à «borla» uma vez por mês.

– Que diz a isto, comadre?

– Tem de ser muito caridosa, comadre.

– Já eu o dizia, amiguinha.

(…)

Os machos do quarteirão dos solteiros, que compunham a sua freguesia mais fiel, veneravam-na, pouco mais ou menos, como a sua santa patrona.” (pp. 77, 79, 81-82, 84)

“Todos os dias, de segunda a domingo, de manhã e à tarde, com um breve descanso para almoçar, dom Anónimo percorria o deserto em volta da fábrica varrendo cada papel, cada lata de conserva, cada maço de tabaco, cada botifarra velha, cada ferradura enferrujada, cada crânio de vaca, cada flor de papel roubada pelo vento aos cemitérios abandonados. Segundo se lhe tinha ouvido dizer nas poucas vezes que se conseguia fazê-lo falar, onde mais desperdícios apanhava era de ambos os lados da linha de caminho-de-ferro, pois em cada passagem do comboio os passageiros atiravam toda a espécie de porcarias pelas janelas, profanando sem remorsos esta paisagem de planeta recém-criado que a pampa exibia nesta parte do deserto. «Estes selvagens querem transformar a pampa numa cloaca», dizem que resmungava o velho enquanto ia apanhando garrafas de cerveja, frascos de óleo de rícino, frascos de água-de-colónia inglesa, pernas de peru, cabeças de porco e montanhas de ossos de coelho, cobaias e borrachos que manducavam os passageiros durante a longa viagem de comboio através das infinitas clareiras do purgatório de Atacama. Tudo isto sem levar em linha de conta a série de objetos, ainda mais ignominiosos, como sejam cuecas sujas, dentaduras postiças, sapatos esburacados, cordões umbilicais, bonecas de trapos espetadas com alfinetes e outras imundícies inimagináveis que ele ia metendo rigorosamente no seu saco para, em seguida, os enterrar na areia.” (pp. 124-125)

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2 pensamentos sobre “A Arte da Ressurreição – Hernán Rivera Letelier (Alfaguara/Objectiva)

  1. Caro Jorge, antes de mais quero agradecer-lhe a resposta, calculo que o meu comentário tenha causado estranheza, deixo desde já claro a minha intenção não é a de invadir a privacidade dos demais. Já visito o v/ blogue há algum tempo, achei a situação engraçada e perdi a vergonha…
    Em relação a Hernán Rivera Letelier e a este “A Arte da Ressurreição”, que desconhecia (e creio nunca o ter visto ou a capa chamar-me-ia a atençã- a imagem é de um filme do Buñuel), vou incluí-lo na minha lista de próximas leituras. Pelo que indica esta obra reflecte na perfeição as linhas da literatura hispano-americana, as descrições da realidade com elementos fantásticos que concedem à obra o seu colorido, as personagens sui generis e consequentemente inesquecíveis.

    Continuação de boas leituras a todos os elementos da Roda 😀

  2. Olá C,
    Sinta-se sempre à vontade em partilhar as suas opiniões neste espaço cuja ideia é divulgar os livros que o grupo vai lendo.
    De facto a situação em si foi caricata, o que significa que Lisboa é uma cidade bem mais pequena do que parece.
    Quanto ao livro “A Arte da Ressurreição”, confesso ter sido um livro cuja leitura que me encantou. Informo ainda que o livro poderá ser adquirido gratuitamente online na compra de “Numa Mesma Noite” de Leopoldo Brizuela, Prémio Alfaguara 2012. Poderá obter mais informações através da seguinte ligação:
    http://www.fnac.pt/Numa-Mesma-Noite-Leopoldo-Brizuela/a674362?PID=5&Mn=-1&Mu=-13&Ra=-1&To=0&Nu=1&Fr=0

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