“O Imperador de Portugal”, de Selma Lagerlöf

imperadorEntão o senhor nunca tinha gostado de ninguém a ponto de sentir bater o coração?… – Perguntou a parteira.

-Não – respondeu Jan.

E no mesmo instante ficou a saber o que lhe fizera palpitar o coração. E mais ainda: começou a compreender o que até ali lhe fizera falta na vida.

Pois quem não sente bater o coração, nem de tristeza nem de alegria, não pode ser considerado um verdadeiro ser humano.”

Começar por uma citação do livro sobre o qual nos propomos escrever, não será a melhor forma, dir-se-á.

Mas, garanto-vos, foi a melhor que encontrei para vos transmitir o impacto que, logo desde o início, a leitura deste livro teve em mim. Este pequeno excerto, colocado no final do primeiro capítulo, foi de tal forma inesperado que…comecei o livro a chorar!

Pois bem, mas desengane-se quem ficou a pensar que o Jan anterior às “palpitações do seu coração” não era um “ser humano”. O Jan é uma das personagens mais ricas que encontrei num livro desde…nem vos consigo dizer quando!

Simplesmente, este momento, aquele em que a sua filha Clara Bela nasceu, tornou-o num homem diferente. Trouxe-lhe a alegria de viver. A motivação para a sua vida. Encheu o seu coração de amor.

Ao longo dos 18 anos que se seguiram, os laços que uniram Pai e Filha eram de tal forma fortes que nem precisavam existir palavras entre ambos. A sincronia era perfeita. O que um pensava o outro sentia e o reverso também era verdadeiro.

E tudo o mais era (quase) perfeito, pois, não obstante Jan e a sua mulher Kattrinna nada terem de seu, viverem numa casa que mais parecia um barracão, mas que fora construída pelas mãos amorosas e hábeis de Jan, trabalharem arduamente, serem pessoas da simplicidade e pobreza maiores que se possa imaginar, tinham um verdadeiro Lar, ao qual apetecia regressar e permanecer e repousar, a cada final de dia.

A ambiência era rural, numa Suécia de fins do Sec. XIX, com vizinhos esparsos, cada um com as suas idiossincrasias, comungando, todavia, em uníssono, da mesma realidade simples, muito pobre, em contacto com a natureza, contrastando com o estar de famílias mais abastadas e poderosas, com predominância para a família Falla.

Todos sabemos o quanto uma realidade dura pode estabelecer união e espírito de entreajuda, ainda que esta possa muitas vezes nem estar patente mas, antes, seja dissimulada. Era a forma como se vivia na realidade narrada neste belíssimo livro.

Mas nesta vida será que tudo pode ser perfeito ou apenas quase perfeito? Também todos nós sabemos que não.

E, o mais chocante é pensar que as mais vis acções, os piores atos, as maiores injustiças e safadezas podem provir daqueles que tudo têm, a quem aparentemente nada falta mas que, vá lá saber-se porquê, tudo cobiçam e de tudo reclamam. Afinal, também todos sabemos, o dinheiro não compra a felicidade e o caráter.

É também sobejamente conhecido que nem sempre, ou quase nunca, a bondade, a pureza, o altruísmo, o dom de perdoar e respeitar a troco de nada, são bem entendidos e percecionados como tal.

Ora, o bom Jan e a sua família não constituíram exceção. A Clara Bela foi crescendo, tornando-se numa menina bela, vivaça e feliz. Inseparável dos pais, em especial de Jan.

Mas, em jeito de história infantil, só que de final invertido, ao completar 18 anos, foi confrontada com a necessidade de ter de partir para ajudar os seus pais, que corriam o risco de perder os parcos bens que possuíam, por injusta imposição dos mais ricos e poderosos da zona.

O barco que atracava no porto da zona conduziu Clara Bela a outro destinos.

Repentinamente, Jan deixa de ter a sua razão de viver por perto e aguarda em vão, no cais, nos dias de passagem do barco, notícias da sua bem amada filha, que tardam e são curtas, as mais das vezes alarmantes. No dia aprazado para a entrega do dinheiro aos Falla, surge um intermediário de Clara Bela que efetua o pagamento em seu nome. As notícias sobre ela, essas não chegaram e, por fim, deixaram de suceder de todo.

Nunca Jan colocou em causa a bondade do comportamento da filha. Ela era a sua Imperatriz. A Imperatriz de Portugal. E uma Imperatriz, sobretudo de um país como Portugal, sabe sempre o que faz!

E, se a sua Bela filha era Imperatriz, ele era Imperador. E assim começou a ser. Cantava Jan pelas ruas e campos:

“O pai da imperatriz

Sente-se tão feliz,

Como anunciam os jornais.

A Áustria, Portugal,

A China, o Japão.

Rataplão, rataplão, e vivó!

Rataplão, plão, plão!”

Anos e anos decorreram, Jan e Katrinna envelheceram, sem que de Clara Bela, a Imperatriz, se soubesse. Jan para tudo encontrava razão de ser, dentro da sua mente já desligada da realidade e do seu coração cansado, mas cheio de amor por aquela filha um dia transportada por um barco sem retorno.

É o natural da vida que os filhos cresçam e ganhem asas para fazerem os seus próprios voos. Todos o sabemos. Supostamente, as asas que os acolheram e ajudaram a aprender a voar deverão ser sempre estimadas e queridas. Mas também é verdade que a vida traz tanta incerteza e as vivências de cada um tantas mudanças, que nunca saberemos, em algum momento, o que o futuro reserva, com tudo o que tal realidade tem de positivo ou negativo.

Que sucedeu à bela Clara? Ela voltará, Imperatriz perfeita, para o lado do seu pai, o Imperador? E será ela a Imperatriz perfeita que preenche o coração daquele pai amoroso, dedicado e confiante da sua filha?

Pois, não irei revelar. Apenas vos recomendo: não deixem de ler este livro maravilhoso, um hino ao amor, à confiança, à esperança. Mas também, quiçá, o seu contrário!

Sinopse

” Esta é a história de um pobre camponês da Suécia, que acabou por enlouquecer com o facto de a filha ir para Estocolmo para ganhar o dinheiro necessário ao pagamento de uma dívida de família. O homem passou a aguardar quase diariamente, no embarcadouro, o regresso da filha. E um dia em que lhe fizeram algumas insinuações sobre os verdadeiros motivos da ausência da menina, Jan declarou: «Quando a Imperatriz Clara de Portugal chegar aqui ao embarcadouro, com uma coroa de oiro na cabeça… veremos se te atreves a dizer-lhe na cara o que hoje me disseste a mim». A partir de então, o homem tornou-se Johannes de Portugal!
Há quem admita que O Imperador de Portugal tenha tido por inspiração a vida de Joshua Abraham Norton, um estranho personagem de San Francisco, que em 1859 se auto-intitulou Norton I, Imperador destes Estados Unidos e Protector do México, chegando a cunhar moeda, a corresponder-se com a Rainha Vitória sendo sempre tratado com deferência pelos seus conterrâneos.”

Excertos

“- Se é verdade que tens sido a alegria e a luz dos teus pobres pais, então bem podes continuar a usar esse vestido – disse com brandura. – Porque, quanto a mim, não há coisa melhor neste mundo do que um filho que faz a felicidade dos seus pais.”

“Ali estava a única pessoa no mundo, além do próprio Jan, que acreditava no esplendor do Império de Portugal – e Jan recusava-se a levá-la. A pobrezinha sabia que nesse reino não se morria de fome, não se sofriam misérias, não haviam pessoas maldosas, capazes de escarnecer uma desgraçada, nem garotos que perseguissem à pedrada nos caminhos os viandantes solitários e sem defesa. Nesse país reinava a abundância e uma paz perpétua: Ingborg sonhava refugiar-se lá, bem longe da desgraça da sua vida miserável. (…)

Nesse magnífico Império de Portugal, não podia haver senão príncipes e generais. Só gente bem vestida. E, na verdade, Ingborg iria lá fazer triste figura.”

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7 pensamentos sobre ““O Imperador de Portugal”, de Selma Lagerlöf

  1. Isabel, eu sei o quanto aprecias este livro. Acho que é um dos teus livros preferidos. E oportunamente irei pedir-to emprestado. Vou para a fila.

    • Querida Vera, foi o meu livro ou um dospreferidos do anos passado. Marcou-me para sempre. Foi-me emprestado pelo Jorge Navarro, mas como vou querer comprá-lo, emprestar-to-ei de mto boavontade! 🙂

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