A História de uma Serva – Margaret Atwood

ahistoriadeumaservaA descoberta de um autor que me satisfaz torna-me reincidente. Saber que há ainda tanto para conhecer alarga o alcance da descoberta e torna-a agradavelmente infinita. Assim me sinto, num percurso que apenas vai no início mas que tem muito para oferecer. Como se, com Margaret Atwood, tivesse aberto uma porta que oferece muitas outras para abrir. Desta vez abri a porta da distopia. O que nunca antes me interessou é agora algo a explorar atentamente.

“A distopia, também conhecida como antiutopia, é um conceito filosófico adotado por vários autores e expresso em suas criações ficcionais, nas quais eles retratam uma sociedade construída no sentido oposto ao da utopia, que por sua vez prevê um sistema perfeito, um estado ideal, onde vigora a máxima felicidade e a total concórdia entre seus cidadãos.

A literatura distópica também pode representar um regime utópico que na prática destoa da teoria. As comunidades regidas pela distopia normalmente apresentam governos totalitários, ditatoriais, os quais exercem um poder tirânico e um domínio ilimitado sobre o grupo social.”  (Tirado daqui).

“A História de uma Serva” é um livro silencioso. Um silêncio opressivo imposto pelo medo, fruto de uma espécie de adaptação ou aceitação. Uma sociedade que se transforma, que coloca as mulheres no centro e valoriza as suas funções mais primitivas. Uma sociedade assente na procriação, mas em que só algumas são as escolhidas para essa função. Esse privilégio cabe a um número de mulheres cuja existência se reduz a assegurar a descendência da espécie e que, focadas nessa tarefa, deixam de poder agir por vontade própria. Treinadas e controladas por um sistema que tudo vê, as servas são uma inspiração bíblica, a meu ver uma desculpa que impõe a esta sociedade uma componente religiosa a cair no fanatismo.

As servas perdem o seu próprio nome para ganhar outro, um nome escolhido de uma forma extremamente redutora mas que é mais um ponto demonstrativo do brilhantismo e criatividade de Atwood. As razões são explicadas no final e não me sinto no direito de as revelar aqui. Além do mais achei que a leitura é francamente estimulante por ser pautada por constantes dúvidas e alguma revolta. Sentimentos que me impeliram a ler em todos (mesmo todos) os momentos em que era possível conciliar qualquer tarefa com um livro.

Estas escolhidas não podem ler, não podem ter acesso a nada que tenha letras e lhes possa estimular minimamente o pensamento. Querem-se cerebralmente mortas de modo a aceitar sem questionar as regras pelas quais se pautam os seus dias. Não escolhem as suas roupas, até porque o traje é uma forma de serem identificadas, não escolhem a comida, não podem ter nada de seu, não sabem onde estão as suas famílias nem os amigos, são formadas para esquecerem que houve uma outra vida e para se dedicarem em exclusivo à causa. São colocadas em lares de casais que não têm filhos e sobre elas cai a responsabilidade de engravidarem do homem (aqui chamado de Comandante), num ritual com contornos doentios. O objectivo e razão de máxima felicidade é darem um filho a este casal como se por ele tivesse sido concebido. Uma vez o objectivo concretizado a serva segue o seu percurso para outra casa, onde continua a exercer as suas funções de “útero ambulante”. Sempre sem nada de seu, sem qualquer direito à criança que eventualmente tenha dado à luz.

Um relato extremista e doentio que, esmiuçado, leva a inúmeras considerações e reflexões sobre a nossa sociedade. Quantos de nós não nos sentimos já (pelo menos) algumas vezes meros peões ao serviço de algo considerado superior e desconhecido, e por isso temível? Estamos ou não rodeados de fanáticos religiosos e seitas fundamentalistas que arrasam a condição feminina e reduzem as mulheres a servas, a quem impigem o dever e a honra de servir os seus senhores?

Quem nunca sentiu a felicidade da ignorância? A tranquilidade de desconhecer algo terrível, que obviamente se evapora e se transforma numa pesada consternação chamada tomada de consciência? Quem tem mais poder pisa onde sente fraqueza, e qual a melhor forma de exercer pressão e levar os seus intentos senão através do medo?

A História da Serva Defred é um convite à discussão, à análise da sombria mente humana na sua luta pelo poder. Com exemplos que podem estar ao virar de qualquer esquina. Que tenhamos consciência que não há pessoas melhores, que todos nos poderemos transformar em monstros uma vez reunidas as condições. E que as servas (e servos) também acordam e que, normalmente, o facto de existirem em número superior tende a trazer algumas vantagens. Mas para quem?

“Caminhamos, sedadas. O sol está descoberto, há tufos de nuvens brancas no céu, do tipo que lembra ovelhas sem cabeça. Por causa das nossas abas, dos nossos antolhos, é difícil olhar para cima, é difícil conseguir uma visão completa, do céu, seja do que for. Mas podemos fazê-lo, um pouco de cada vez, um movimento rápido da cabeça, para cima e para baixo, para o lado e para trás. Aprendemos a olhar o mundo em arquejos. “ (Pág. 42).

“Vivíamos, como de costume, ignorando. Ignorar não é o mesmo que ignorância, exige esforço da nossa parte.” (Pág. 69).

“Passado o primeiro choque, depois de uma pessoa começar a aceitar, o melhor era deixar-se ficar letárgica. Podíamos dizer a nós próprias que estávamos a poupar forças.” (Pág.86).

“A minha presença aqui é ilegal. É-nos proibido ficarmos a sós com os Comandantes. Servimos um propósito reprodutivo: não somos concubinas, gueixas ou cortesãs. Pelo contrário: fizeram-se todos os possíveis para nos retirarem dessa categoria. Não deve haver nada de recreativo em nós, não pode haver espaço para o desabrochar de desejos secretos; não podem ser concedidos favores especiais, nem por eles nem por nós, não pode haver pontos de partida para o amor. Somos úteros andantes, nada mais: veículos sagrados, cálices ambulatórios.” (Pág.157).

“Mas, a toda a volta, as paredes têm prateleiras. Estão cheias de livros. Livros, livros e mais livros, ali mesmo à vista, sem cadeados, sem caixas. Não admira que não possamos aqui entrar. É um oásis do proibido. Tento não ficar a olhar.” (Pág.158).

Sinopse

“Uma visão marcante da nossa sociedade radicalmente transformada por uma revolução teocrática. A História de Uma Serva tornou-se um dos livros mais influentes e mais lidos do nosso tempo. 
Extremistas religiosos de direita derrubaram o governo norte-americano e queimaram a Constituição. A América é agora Gileade, um estado policial e fundamentalista onde as mulheres férteis, conhecidas como Servas, são obrigadas a conceber filhos para a elite estéril.
Defred é uma Serva na República de Gileade e acaba de ser transferida para a casa do enigmático Comandante e da sua ciumenta mulher. Pode ir uma vez por dia aos mercados, cujas tabuletas agora são imagens, porque as mulheres estão proibidas de ler. Tem de rezar para que o Comandante a engravide, já que, numa época de grande decréscimo do número de nascimentos, o valor de Defred reside na sua fertilidade, e o fracasso significa o exílio nas Colónias, perigosamente poluídas. Defred lembra-se de um tempo em que vivia com o marido e a filha e tinha um emprego, antes de perder tudo, incluindo o nome. Essas memórias misturam-se agora com ideias perigosas de rebelião e amor.”

Bertrand, 2013

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