Homer and Langley – E. L. Doctorow

HomerLangley_19-03-2013

Dois irmãos vivem, durante grande parte do século XX, em reclusão numa mansão da 5ª Avenida, em frente ao Central Park, em Nova Iorque. Possuem fortuna pessoal, mas não têm o menor interesse em utilizá-la para usufruirem dos confortos ou privilégios proporcionados pela sociedade de consumo. Pelo contrário: aspiram a atingir a independência total dessa sociedade, libertando-se da tirania insuportável das poucas empresas que ainda lhes prestam serviços, como as companhias de electricidade, da água e dos telefones, e abandonando os padrões mais básicos de vida em sociedade, como o uso de um vestuário tido como aceitável ou o hábito de cortar o cabelo.

Homer é cego e usa a sua grande capacidade de empatia para descrever o dia-a-dia dessa existência partilhada a dois, pela qual vemos passar vários personagens de ocasião e na qual se reflectem, sujeitos a uma interpretação muito pessoal, diversos acontecimentos-chave do século passado. Langley sofre de problemas respiratórios adquiridos durante a sua participação na Primeira Guerra Mundial e, acima de tudo, personifica uma filosofia de vida bizzarra, que oscila entre o absurdo e o verdadeiramente genial. A meu ver, a grande riqueza deste livro encontra-se nas tiradas filosóficas destes irmãos, pequenas pérolas ora irónicas, ora amargamente prosaicas que impedem o leitor de encará-los como meros loucos de anedotário, impondo durante todo o livro um sentimento de respeito e até admiração por quem assim se exprime, por muito excêntricas que sejam as suas opções de vida.

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E, na verdade, mais excêntricas não poderiam ser: convém lembrar que esta história é baseada em factos reais e que os verdadeiros Homer e Langley Collyer foram encontrados mortos na sua casa da 5ª Avenida, literalmente soterrados debaixo de toneladas de objectos acumulados por Langley ao longo dos anos e amontoados em todos os espaços da casa. As imagens que se encontram na Internet, retratando o estado da habitação dos Collyer quando a polícia aí entrou devido a uma denúncia de cheiro a cadáver, são verdadeiramente impressionantes. Talvez por isso, foi uma agradável surpresa verificar que o autor não se limitou a explorar esse aspecto mais mediático do caso, tendo, em vez disso, construído uma obra inteligente e humana.

Excertos:

“O Langley nunca chegaria a terminar o seu projecto de jornal. Eu sabia disso e tenho a certeza de que ele também. Era um plano louco, absurdo e mórbido, que lhe mantinha a mente num estado de espírito que lhe agradava. Parecia dar-lhe o ânimo mental de que ele necessitava para prosseguir – para continuar a trabalhar numa coisa cujo único objectivo era sistematizar a sua lúgubre conceção da vida. A energia dele afigurava-se-me, por vezes, anormal. Como se fizesse todas as coisas que fazia para permanecer entre os vivos. Não obstante, mergulhava dias a fio numa desalentadora lassidão. Desalentadora para mim, devo dizer. Contagiava-me, às vezes. Tinha a sensação de que não valia a pena fazer fosse o que fosse e a casa parecia um túmulo.” (págs. 46 e 47).

“Perguntei ao Langley que tipo de radical era ela. Sei lá, disse ele. Que diferença é que isso faz? É uma espécie qualquer de comunista-anarquista-sindicalista-anarcossindicalista-socialista. A menos que se seja um deles, é difícil perceber quem é o quê. Quando não andam a lançar bombas, estão ocupados a dividirem-se em facções.” (págs. 49 e 50).

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“Estávamos todos com um estado de espírito soturno. Tendo a imagem da pobre da Siobhan na cabeça e lembrando-me das minhas idas ao cemitério de Woodlawn para enterrar os meus pais, a única coisa em que conseguia pensar era na facilidade com que as pessoas morrem. E, além disso, tinha aquela sensação que nos assola quando fazemos o trajeto até ao cemitério atrás de um corpo num caixão: uma impaciência para com os mortos, um desejo de voltar para casa, onde podemos continuar com a ilusão de que é a vida diária, e não a morte, a condição permanente.” (pág. 60).

“E daí? Os polícias são escroques com distintivos. Quando não estão a receber luvas, estão a espancar alguém. Quando estão a morrer de tédio, dão um tiro em alguém. Eis o teu país, Homer. E para sua glória suprema, eu fiquei com os pulmões queimados.” (pág. 62).

“Quando uma pessoa lê ou ouve rádio, disse ele, cria uma imagem na cabeça. É como tu e a própria vida, Homer. Peerspetivas infinitas, horizontes sem fim. O ecrã de televisão, porém, torna tudo plano, comprime o mundo, já para não falar da mente das pessoas. Se visse mais TV do que vejo, mais valia descer o Amazonas de barco e deixar que os jivaro me encolhessem a cabeça.” (pág. 93).

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“Surgiu uma complicação. A estratégia defensiva de Langley tornou pouco sensato, se não mesmo impossível, eu tentar deslocar-me pela casa. Em termos práticos, estou aprisionado. Encontro-me agora posicionado do lado de dentro da porta da sala de estar, com um único caminho ao meu dispor, que leva à casa de banho no vão das escadas. Os movimentos do Langley também estão restringidos. Instalou-se na cozinha e entra e sai de casa pela porta dos fundos que dá para o quintal. O vestíbulo está completamente vedado com caixas de livros empilhadas até ao teto. Uma estreita passagem entre fardos de jornais e ferramentas de jardim dependuradas – pás, ancinhos, uma broca mecânica, um carrinho de mão, tudo dependurado com arame e corda de ganchos que ele fixou às paredes com um martelo – leva do seu posto avançado na cozinha até ao meu enclave. Traz-me as refeições por este túnel. Diz-me que navega com a ajuda de uma lanterna para não tropeçar nos arames que prendeu, de parede a parede, ao nível dos tornozelos.” (pág. 170).

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Porto Editora, 2009

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