O Assassino Cego – Margaret Atwood

assassinocegoMargaret Atwood foi até há pouco tempo uma autora desconhecida para mim. A avalanche de livros editados diariamente, e o culto das novidades literárias por parte dos media, tendem a distrair a minha atenção, não só dos clássicos, mas também de excelentes livros já publicados há alguns anos.

Tenho tentado inverter esta tendência. Contudo, a divulgação massificada das novidades nem sempre é fácil de gerir para quem adora livros, e quer estar sempre a par do que se passa. A Roda dos Livros tem tido um papel fundamental nessa “libertação” que me proponho levar a cabo. Não quero deixar de saber o que há de novo no mercado editorial, nem conseguiria, mas cada vez mais quero conhecer o que já está escrito há alguns anos e que, acima de tudo, deixou marcas nos leitores.

E assim descobri Atwood. Ou melhor, “apresentaram-me” e eu decidi descobrir. Com apenas um livro lido sinto estar na presença de uma escritora brilhante que quero continuar a conhecer. Margaret Atwood conseguiu, em pouco tempo, bastante espaço na minha estante. Um livro lido e mais cinco para ler. A pesquisa sobre a autora deixou-me rendida e o fantástico preço de alguns dos seus livros fez o resto. As expetativas são elevadas e a vontade de ler imensa.

“O Assassino Cego” é um livro excecionalmente escrito e com uma estrutura bem imaginada. Surpreendente, envolvente e, acima de tudo, com uma excelente história para contar. Iris é uma octogenária peculiar, que enfrenta as habituais dificuldades físicas da idade avançada, e que surpreende com tiradas de humor sobre a sua própria condição, assim como sobre o meio envolvente que analisa com uma lucidez acutilante.

Iris “passeia” entre presente e passado e levou-me nessa viagem. Pelo presente, pelo passado, e também por alguns universos paralelos que me fizeram sentir ter um pé na ficção científica e outro no fantástico. Ler Atwood é, segundo a Renata Carvalho, sempre um novo passeio pelo inesperado. A imaginação e criatividade da autora devem de alguma forma ir beber numa fonte inesgotável, na medida em que são tantos os livros editados, sobre tão variados temas e assentes em tão diversos conceitos, que sinto que serão precisos anos para descobrir tudo. Se pareço fascinada é porque realmente estou, e ávida de me deixar levar por distopias, utopias, histórias de época e o que mais houver.

O mistério assume um papel fundamental neste livro e na forma como faz prosseguir a leitura. Tive uma constante sensação que havia algo para desvendar mas não sabia o quê. O desejo de compreender, de encontrar o encaixe entre duas histórias contadas paralelamente e que sabia que se relacionavam apesar de não saber como, associado à sensação de descoberta iminente fez precipitar as páginas de forma compulsiva.

Iris conta a história da sua família. Escreve para si própria pois sabe que se o fizer para um público não será totalmente sincera, tenderá sempre a ocultar este ou aquele pormenor que poderá mostrar a verdade desconhecida das pessoas que ama e até mesmo de si própria. Um percurso de diversos anos que os fatores históricos obviamente influenciam. As flutuações entre riqueza e pobreza são pautadas pelas crises, guerras, doenças que afetaram a humanidade e que deixaram a família de Iris, outrora abastada, literalmente à beira da ruína. O seu casamento é encarado como uma tábua de salvação, e Iris submete-se a uma vida sem amor rodeada dos que nada lhe dizem, sempre com a terrível sensação de que, afinal se entregou a uma causa sem sentido. As coisas verdadeiramente importantes foram-se perdendo pelo caminho.

Mais do que uma história bem contada, “O Assassino Cego” é uma reflexão sobre a vida, sempre buscando temas tão polémicos como a condição da mulher através dos tempos e como, ainda hoje, as mulheres se submetem a papéis que vão para além das suas aparentes forças, se anulam ao lado de companheiros que não amam, desempenhando vidas infelizes que apenas a imaginação e o sonho podem (ocasionalmente) salvar.

Desafio-vos a conhecer Iris Chase Griffen.

“Voltando à tarefa em mãos. Em mãos é a expressão apropriada: por vezes, parece-me que é apenas a minha mão que escreve, e não o resto de mim: parece que a minha mão ganhou vida própria e continuaria a escrever mesmo que fosse separada do resto do corpo, como um fetiche egípcio embalsamado e enfeitiçado, ou como as patas de coelho secas que os homens costumam pendurar nos retrovisores dos carros para dar sorte. Apesar da artrite nos meus dedos, esta minha mão tem manifestado ultimamente uma quantidade invulgar de energia, como que atirando paus aos cães. Sem dúvida que tem escrito muitas coisas que não lhe seriam permitidas, se estivesse sujeita ao meu julgamento.“ (Pág. 454)

Sinopse

“Qual boneca russa, “O Assassino Cego” apresenta uma complexa estrutura narrativa em que se interligam as recordações de Iris Chase – uma anciã que conta a história da sua família ao longo do século XX, detendo-se em especial na relação desta com a sua irmã Laura (já morta) – com episódios escritos em registos tão distintos como romance ou a ficção científica.
No livro, chegada ao fim da vida, Iris Griffen começa a escrever a história secreta da sua família, evocando um mundo de prosperidade e miséria que se estende pelo período que separa as duas guerras mundiais. Mas o enigma central da história de Iris é a morte de Laura Chase, a sua irmã, também ela uma contadora de histórias. O único livro de Laura, um
best-seller intitulado O Assassino Cego, narra o amor clandestino entre uma jovem de sociedade e um radical a monte. Mas como terá morrido Laura? Acidente ou suicídio? Quem é esse anarquista que habita as páginas de O Assassino Cego? E qual é a relação entre a história de ficção científica, que ele conta à amante em troca de sexo, e a realidade?
O Assassino Cego é na verdade dois livros (pelo menos) e um labirinto de histórias que recorrem a uma multiplicidade de géneros literários, do romance à ficção científica, passando pelo jornalismo. Todos juntos, estes retalhos de narrativas vão dando contornos a uma história única: uma saga familiar que é também a História do mundo ocidental entre as duas Grandes Guerras e uma das histórias de amor mais complexas e inesquecíveis da literatura.”

Bertrand, 2009

Anúncios

2 pensamentos sobre “O Assassino Cego – Margaret Atwood

  1. Obrigada Renata. Também estou muito feliz com esta descoberta! Acho que também vai ser uma das minhas favoritas. Num mundo literário maioritariamente de homens é bom encontrar uma mulher a escrever desta maneira.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s