“A curva do rio” de V.S. Naipaul

A curva do rio.foto

Neste livro Naipaul conduz-nos numa grande viagem através de África desde a sua costa oriental na orla do Índico até aos meandros de um grande rio no interior. Mas esta é também a viagem de um homem jovem ao encontro de si mesmo. Salim rejeita a postura tradicional da comunidade onde nasceu pois pressente que o modo de vida desta, imutável e regido por normas rígidas, está fatalmente ameaçado pelo novo governo do país recém- independente. Decide assim viajar, para um outro país, no interior do continente, até uma cidade localizada na curva de um grande rio onde se estabelecerá como comerciante e tentará fazer fortuna. Este é o ponto de partida para o retrato de uma época (final da década de 70 do século XX), caracterizada, naquela região do planeta,  por grandes e constantes mudanças que obrigam as populações a um esforço permanente de adaptação para conseguirem sobreviver a um  quotidiano de insegurança e medo. Todos os grupos étnicos estão representados numa história concebida como uma tapeçaria complexa, rica e muito viva, capaz de nos transportar quase literalmente até àquele tempo e àqueles lugares bem como aos acontecimentos verdadeiramente dramáticos que não deixaram ninguém incólume. Esta não é uma narrativa maniqueísta, um mundo de “bons” e de “maus” mas sim de personagens muito humanos, com forças e fraquezas, todos africanos, apesar de oriundos de vários povos e culturas. Negros de várias tribos, muçulmanos de origem indiana e brancos originários de diversos países europeus são subitamente confrontados com o recrudescer dos ódios tribais, com a guerra e com as directrizes arbitrárias e os caprichos de um Grande Chefe que detém um poder de vida e de morte sobre todos.

Muito bem escrito e primorosamente construído, “A curva do rio” é um testemunho do sofrimento de grande parte de um continente, vítima sistemática da ganância do ser humano devido às suas inúmeras riquezas e recursos naturais,  cujo potencial de desenvolvimento pleno está ainda muito longe de ser atingido. Gostei muito e recomendo.

 

“Quando se deu a independência, o povo da nossa região enlouqueceu de raiva e de medo – toda a raiva acumulada durante o período colonial, todos os medos tribais que entretanto tinham estado adormecidos. A gente da nossa região tinha sido muito maltratada, e não apenas pelos europeus e árabes, mas também por outros africanos; e quando veio a independência, recusaram-se a obedecer ao novo Governo instalado na capital. (…) Mas o povo odiava a cidade por causa dos intrusos que tinham governado nela e a partir dela; e tinha preferido destruí-la a apossar-se dela. Depois de destruírem a cidade, choraram amargamente a sua perda. Queriam que voltasse a ser um local vivo. A vida voltara de facto à cidade, mas com ela voltara também o medo. “

 

“Quanta raiva! Igual a um fogo na floresta, a um fogo que consome as entranhas da terra e reduz a cinza, sem que ninguém o veja, as raízes das árvores que já destruiu e que depois irrompe na terra ressequida, onde pouco alimento encontra, e daí que, no meio da destruição e da miséria, o desejo de mais destruição se reacendesse.”

 

“Falar de sarilhos era pretender que havia leis e normas reconhecidas por todos. Mas aqui não havia nada. Houvera ordem noutros tempos, mas essa ordem tinha as suas próprias desonestidades e crueldades – e por isso a cidade fora destruída. Nós vivíamos nos escombros. Em vez de normas, havia polícias que nos considerariam culpados até ao momento em que tirássemos a carteira do bolso.”

 

“Não lhe fizeram nada na prisão. Não lhe fizeram nada porque não se lembraram. Eles ainda acham que você não é esse tipo de homem, o tipo de homem a quem normalmente batem e torturam. Você é estrangeiro; eles só batem na gente das aldeias. Até que um dia lhe batem a si também e descobrem que você é igual aos outros, e então é que lhe podem acontecer coisas terríveis. Você tem de se ir embora. Esqueça tudo e vá.”

 

“Não pense que as coisas só estão más para si. Isto está mau para toda a gente. Isso é que é terrível: Está mau para o Prosper, para o homem a quem deram a sua loja, está mau para toda a gente. Ninguém vai lado nenhum assim, ou melhor, vamos todos para o inferno, e não há ninguém que não pressinta isso. Estamos todos a ser mortos. Nada faz sentido. É por isso que toda a gente anda doida. Toda a gente quer fazer dinheiro e fugir. Mas para onde? É isso que deixa as pessoas loucas. Sentem que já não podem fugir para sítio nenhum. “

 

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