Tudo o que nunca te disse – Romana Petri

tudooquenuncatedisseSenti uma espécie de desencanto ao longo de toda a leitura deste livro. Inegavelmente bem escrito mas tristemente real e verosímil, foi inevitável deixar crescer um vazio em relação a este monólogo que pretende ser um diálogo, mas que obriga a imaginar uma das partes.

Cristiana responde às cartas de Mário, o ex-marido. Quinze anos após o divórcio Mário retoma o contacto através de cartas. “Tudo o que nunca te disse” são as respostas de Cristiana a Mário. Sucessivas cartas de desamor sobre uma relação da qual ficou uma imensa mágoa, e que servem como exorcismo dos demónios que (ainda) convivem com Cristiana.

Descrições pormenorizadas da opressão e tensão em que Cristiana viveu a sua relação passada, detalhes das formas de humilhação usadas por Mário, tudo nos é relatado por uma mulher que tem necessidade de encerrar um capítulo, de se libertar da amargura e, aos 65 anos, começar finalmente a viver.

Gostei de ler. Romana Petri demonstra mais uma vez a sua capacidade de expressar sentimentos através das palavras, numa escrita consistente, madura, que não se perde em devaneios e se foca em pontos concretos.

O segundo livro que leio da autora foi encarado de uma forma diferente de “Esteja eu onde estiver”. Petri é uma mulher mundana, culta, com o dom da palavra, e com capacidade de encantar plateias com a sua experiência de vida e análise acutilante de escritora. A Roda dos Livros convidou e ela aceitou passar um fim de tarde a (literalmente) maravilhar-nos com a sua história, que é feita das histórias que ela encontra, que a encontram, que a perseguem, ou que simplesmente imagina. Uma escritora de topo, um ser humano especial. Uma noite inesquecível.

“Foi precisamente nesse momento que se me abriram outras perspectivas, um horizonte diverso. Num só instante, consegui ver tudo aquilo que poderia encontrar se te deixasse. Não sei como aconteceu. Foi como uma grande revelação, uma daquelas coisas que não se conseguem explicar, que nos devemos limitar a saber aceitar. Talvez eu tenha esta qualidade: quando vejo a vida oferecer-se-me de modo tão evidente, não lhe consigo dizer não. Parece fácil mas nem todos o sabem fazer. Sabes, os anos, o obscurecimento, o cansaço. Acaba-se por perder aquela lucidez que nos permite fazer a escolha certa quando a ocasião propícia se apresenta. É um instante, não dura mais do que isso e é necessário ter rapidez de espírito. Não digo que não se deva também reflectir, mas é preciso saber fazê-lo rapidamente.” (Pág. 168)

Sinopse

“Mario e Cristiana já passaram dos sessenta anos e estão divorciados há quinze. Ele é engenheiro hidráulico, acabado de se mudar para o Rio de Janeiro com a sua jovem mulher e o filho com pouco mais de um ano. Ela vive em Roma com os dois filhos já crescidos e um segundo casamento, feliz. Certo dia, Cristiana recebe uma carta estranha de Mario, do Brasil. Escreve-lhe dizendo que se sente velho, que gostaria de reencontrar um pouco da juventude trocando cartas com ela. Diz que só assim, voltando atrás com quem se foi jovem, se pode continuar a sê-lo. Mas quais serão verdadeiramente as suas intenções? Através das respostas de Cristiana, o leitor verá desfilar diante dos seus olhos, ao mesmo tempo que a história de um amor naufragado, os tiques e os mal-estares de toda uma geração: as falsas utopias, a crise das relações entre homens e mulheres, a revolução fracassada, o terrorismo, os muitos ideais que se esfumaram, deixando espaço apenas para a realidade banal. E depois os rancores, as traições mútuas, todas as coisas nunca ditas que finalmente vêm ao de cima de maneira violenta, brutal, impiedosa. Até se chegar a um verdadeiro ajuste de contas, no qual todas as cartas são postas na mesa.”

Bertrand, 2013

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