“Arde o musgo cinzento” de Thor Vilhjálmsson

O título deste livro causou-me alguma estranheza e também muita curiosidade. Como e porquê é que o musgo cinzento arderia? O autor responde-nos a esta pergunta numa das minhas passagens preferidas. Aliás, numa das minhas muitas passagens preferidas de um livro que se desdobra em múltiplos níveis e dimensões. Estas incluem questões sociológicas, históricas, filosóficas e religiosas que já foram referidos num outro artigo sobre esta obra publicado há alguns meses atrás neste blog. Assim, para evitar cair em redundância, salientarei um outro aspecto que me agradou imenso neste livro: a forma como o autor escreve sobre a paisagem islandesa. O estilo de Vilhjálmsson é denso, compacto, por vezes eivado de características oníricas, que nos obriga a abrandar o ritmo de leitura de modo a conseguir captar o pleno significado das palavras. A viagem do protagonista através da Islândia proporciona um vislumbre da natureza agreste e selvagem desta ilha associada também à existência de uma mitologia, rica em criaturas fantásticas e mágicas como elfos e trolls, a qual actua como contraponto relativamente às mudanças sociais, económicas e tecnológicas que começavam a emergir no século XIX. Esta natureza, poderosa e capaz de intimidar o ser humano, é-nos descrita de uma forma original, bela e frequentemente poética que muito apreciei.

Em relação ao aspecto humano da narrativa impressionou-me sobretudo o modo brilhante como é abordada a transformação interior do protagonista que passa de um homem pleno de confiança em si próprio a alguém que questiona a sua capacidade para administrar a justiça devida àqueles que infringem as leis civis e morais da sociedade. Até que ponto temos livre-arbítrio? Podem pessoas responsáveis por actos criminosos abjectos ser de alguma forma também vítimas devido às circunstâncias terríveis que moldaram as suas vidas desde muito cedo? Como conciliar o progresso com o respeito pela natureza e pelas tradições de um povo?

“Arde o musgo cinzento” ocupa a partir de agora um lugar especial junto às outras obras notáveis de autores nórdicos que tenho tido o prazer de ler desde o início deste ano. Gostei muito, recomendo e deixo aqui alguns excertos particularmente apreciados:

“Nuvens de passagem mudavam constantemente as cores das encostas mais altas. Depois o céu escureceu e o dia foi-se apagando sobre o grande deserto. ”

“Ervas secas entre as rochas, talvez nelas se ocultasse o desejo de se converterem em cordas de uma harpa enorme, digna de reunir segredos sussurrados, trazidos de muito longe pelo vento em busca de algo capaz de lhes dar voz; para não perder as confidências daqueles que ansiavam por cor no seu silêncio.”

“ Anoitecer num vale desabitado. O sol perde-se até ao invisível, do outro lado da crista do vale, atrás das colinas do oeste. O agradecimento da terra pelo dia que termina ascende como uma neblina violácea no longínquo poente e o sol já só tem um breve trecho até ficar oculto por detrás das colinas; a sua despedida estende-se pelo mundo com delicadas cores. A erva torna-se ouro e o musgo cinzento que cobre a lava começa a arder.”

“E viveremos uma vida dupla. De progresso nas povoações e mitos nos despovoados. E adquiriremos forças titânicas na luta por fundir numa só essas duas naturezas. A temporal, que no seu vôo se afasta a grande velocidade e a outra que é eterna, atemporal; que habita imutável na profundidade; e que esquecemos. E então, finalmente, tudo atingirá a sua plena sonoridade: tudo o que habita dentro de nós.”

“Espigões de rocha elevam-se sobre uma crista ou uma planície com os rostos inchados como máscaras de pedra, como cativos seres primitivos com semblantes humanos surgidos de míticos mundos. Ali jazem e não podem deixar de aceitar a suave chuva sobre as suas bocas cobertas de musgo.”

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