“A vida em surdina” de David Lodge

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Atenção: Este artigo desvenda alguns aspectos da história do livro passíveis de prejudicar o prazer da sua eventual leitura futura

Não consigo evitar uma certa tristeza quando chego ao fim de um livro altamente recomendado com a sensação de que este ficou aquém das minhas expectativas. Pior ainda, tratando-se de uma obra que tem rodado por vários membros desta Roda dos Livros e sobre a qual foram já publicados neste blog nada mais, nada menos, do que 4 opiniões favoráveis. Pois bem, a quinta opinião é de natureza oposta. Inicialmente a leitura de “A vida em surdina” progrediu com certo agrado, embora sem entusiasmo, sobretudo devido às peripécias trágico-cómicas associadas à surdez do seu protagonista. Contudo, à medida que a narrativa avançava, comecei a ser assolada por uma sensação de incompletude, de que algo lhe faltava para ser um livro realmente cativante. Esperava muito mais da interacção entre Desmond e Alex Bloom. Afinal, esta revelou-se uma sucessão de lugares-comuns amplamente disseminados tanto na literatura como nas séries televisivas e mesmo no cinema. Nem sequer assumiu muita importância no desenrolar da história, ao contrário do que prometia a sinopse. Mas o que mais me desagradou foi a introdução, a meu ver forçada e completamente inusitada, duma ida de Desmond à Polónia e da sua subsequente visita a Auschwitz. A analogia feita pelo autor entre a morte das pessoas enviadas para esse campo de extermínio nazi e a eutanásia da primeira esposa do protagonista que se encontrava no estado terminal de um cancro pareceu-me de muito mau gosto. Não são de modo algum situações comparáveis e as questões éticas que levantam são de índole totalmente diversa. Creio que todos os seres humanos (e não só) têm um direito inalienável à dignidade, tanto na vida como na morte. Na sua tremenda massificação, a atroz indignidade das mortes das vítimas do holocausto judeu nada tem a ver com as circunstâncias de alguém que se vê perante a terrível escolha de preferir morrer em vez de prolongar um simulacro de vida desprovida de dignidade. Ficou-me a sensação de que o editor, pressentindo que faltaria espectacularidade à história, terá pedido ao autor para arranjar forma de incluir nesta algo passível de causar grande impacto nos potenciais leitores. Daí o aparecimento, no final do livro, destes aspectos “caídos de pára-quedas” e desgarrados do resto. Por fim, e mudando de tom, não posso deixar de salientar o excelente trabalho de tradução, evidenciado de modo muito especial, nas “conversas de surdos”.

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9 pensamentos sobre ““A vida em surdina” de David Lodge

  1. Oh, Renata, tenho pena que não tenhas gostado, eu adorei o livro! Mas paciência, as pessoas são diferentes. Percebo o que dizes da relação entre o protagonista e a mulher, embora pense que o autor cingiu essa relação às vicissitudes usuais na maioria dos casais de propósito para marcar um ponto.
    Mas em relação à tua interpretação da viagem a Auschwitz é que não concordo mesmo contigo. O facto de essa visita ter feito o protagonista invocar a morte da primeira mulher não significa, a meu ver, que o autor esteja a comparar a morte por eutanásia às mortes em campos de concentração. Nem faria qualquer sentido que assim fosse, ainda por cima sem uma teoria justificativa, já que seria uma ideia no mínimo descabida, de tal forma estas realidades são diferentes. Aliás, não nos esqueçamos que, na mesmíssima reflexão, ele recorda ainda a morte do pai, e até a comparação que fez no início do livro entre a morte e a surdez. Com certeza não vamos supor que ele está a equiparar tudo isto às mortes em Auschwitz. Seria uma simplificação absurda. A mim, parece-me que a viagem a Auschwitz é o ponto de partida para uma reflexão sobre a morte em geral e, em especial, sobre os efeitos da morte nos familiares do falecido, na qual, obviamente, têm também lugar as mortes que fizeram parte da vida do protagonista. Mas a relação entre a morte da primeira mulher e as mortes dos presos de Auschwitz será, na minha interpretação, precisamente o contrário daquilo que dizes: é a contraposição entre uma morte causada por compaixão e uma série de mortes causadas pela crueldade levada ao seu limite. São situações extremas, mas cada uma num extremo diferente do espectro. E a conclusão que daí se tira é que, apesar da distância incomensurável que as separa, estas mortes não deixam de afectar quem cá fica com a inescapável sensação de despojamento e de impotência. Afinal, trata-se sempre da perda de um ente querido.

  2. Muito obrigada pelo teu comentário! Compreendo o teu ponto de vista mas cada pessoa faz a sua leitura de um livro e a minha é realmente muito diferente da tua. Para mim este livro foi uma decepção enorme. Como a Márcia costuma dizer, não me cativou… Relativamente à morte do pai, embora não tenha referido nada sobre isso no post, devo dizer que achei que o autor seguiu pelo caminho mais fácil: Um AVC grave seguido de uma morte em pouco tempo. Infelizmente muitas pessoas após um episódio desses ficam meses ou anos acamadas em grande sofrimento e total dependência e isto sim é um drama tremendo. Também não gostei dos devaneios de jargão de linguista. Embora até goste de aprender coisas novas, achei essas passagens completamente entediantes. Ainda sobre os campos da morte e a eutanásia, não consegui ler a sua ligação no livro como um contraponto mas aceito que possa ser interpretado desse modo. E a cereja no topo do bolo (vais dizer que é mesquinharia de alguém com formação em ciências e até se calhar é, LOL) foi encontrar quase no fim do livro o nome de uma bactéria, Staphylococcus aureus, mal escrito e também chamarem vírus a uma outra bactéria ( Clostridium difficile). Estes nomes em latim deviam estar em itálico mas não sei como formatá-los neste comentário. Confesso que esses pequenos detalhes me irritam bastante.Enfim, este foi para mim um caso de “a montanha pariu um rato”, infelizmente…

  3. Pois, isso das incorrecções também me deixa furiosa, quando as detecto (estas não detectei porque não tenho conhecimentos de ciências suficientes para isso, mas percebo o teu descontentamento). Mas achei as passagens da relação com o pai muito realistas, especialmente antes do AVC. Aqueles pequenos mal-entendidos devido à impossibilidade de uma comunicação eficiente com alguém que é de outra geração e tem já a teimosia característica da idade e ainda por cima deficiências auditivas deliciaram-me precisamente por serem tão familiares. Quem nunca passou por situações dessas com os respectivos pais? Achei muito bem retratado. Das passagens linguísticas já não me lembro muito bem, talvez por não me dizerem tanto como as partes que incidem sobre relações interpessoais. No geral, foi um livro que gostei muito de ler, pareceu-me bem escrito, divertido e ao mesmo tempo sério e com conteúdo. Fiquei com vontade de ler mais deste autor, mas também é bom saber que não é consensual…

  4. Realmente essas passagens da relação com o pai antes deste adoecer são interessantes. Gostei dessa parte. Passei por algumas situações parecidas com os meus avós. O início do livro e essas partes com o pai foram responsáveis por ter levado a leitura até ao fim. Olhando para trás vejo que talvez tivesse sido bom ter abordado também essa faceta do livro mas fiquei tão desagradada com os capítulos finais que acabei por dar-lhes mais ênfase.

  5. Já li o livro há algum tempo e não tenho presentes todos os detalhes mas lembro-me bem de ter gostado. Confesso que é dos meus livros favoritos. Adoro o David Lodge.

  6. Li apenas “Terapia” há uns anos atrás. Recordo-me que gostei muito sendo um livro que recomendo e creio que se trata de uma das obras que é consensualmente tida como uma das melhores do autor inglês. No entanto, fiz a “Terapia” e fiquei-me por ali.

  7. Assim sendo, talvez um dia destes também eu faça essa “Terapia” mas por agora não estou com muita vontade de voltar a ler David Lodge.

  8. Bem, eu comecei com uma baixa expectativa e gostei. Uma das facetas deste grupo de leitores que tão bem interage é que somos diferentes em opiniões, gostos e interesses, e como tal, esperava que este romance pudesse ficar aquém das minhas que são distintas de algumas pessoas do grupo. Confesso que comecei reticente e aprecei a relação um tanto casual e até superficial do casal. Creio que algumas caem nesse molde, e pareceu-me credível. De resto. eles são ingleses.

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