Maldito seja o rio do tempo – Per Petterson

Maldito Seja o Rio do TempoA sensação que tive ao ler este livro foi a de mergulhar constantemente em recordações, como se estivesse a ver o álbum de família de Arvid, a recordar episódios marcantes da sua vida e a fazer constantes saltos temporais entre as memórias e o presente.

Por vezes sentia que era como caminhar no escuro ou na névoa para perceber o percurso de Arvid, as suas tristezas e melancolias, os seus receios pelo futuro, divorciado e só, preocupado pelo estado de saúde da mãe.

Bastante descritivo, “Maldito seja o rio do tempo”, é de uma narrativa muito bela que me envolveu como uma bonita música. Que vale pela extraordinária beleza da sua escrita mais do que pela história, que muitas vezes senti ser um misto de sentimentos mal ordenados de um homem, acima de tudo, só.

Um leitura com compasso próprio, que dita as regras e não se deixa tomar pelas vontades ou pressas do leitor, que se sujeita com prazer às exigências do texto.

“Uma semana depois ela apareceu à minha porta, e continuou a aparecer, e começou a ir muitas vezes ao meu apartamento quando se dirigia a casa depois da escola no centro de Oslo e bebia chá na minha cozinha vermelha, onde eu lhe contava coisas acerca das quais tinha alguns conhecimentos, os meus livros, o Afeganistão, a intersecção de culturas: falava de Mao sentado à sua secretária, falava-lhe de Edvard Munch e do Partido, e ela falava-me da sua família, e como odiava regressar a casa depois das aulas. Uma vez veio da cidade e fez os seus trabalhos de casa na minha mesa da cozinha, e eu sentei-me para a ajudar e depois conversámos e fumámos até já ser muito tarde, e acho que foi a maneira como ela segurava o cigarro entre os dedos que me tocou mais, o modo como a palma da sua mão se abria em frente do seu peito com uma ligeira inclinação do pulso e a ponta incandescente a apontar para o chão, e aquela foi a primeira noite em que ela não voltou para casa.” (Pág. 100)

Sinopse

“Estamos em 1989 e, por toda a Europa, o comunismo está em colapso. Arvid Jansen, de 37 anos, encontra-se à beira de um divórcio. Ao mesmo tempo, à sua mãe é diagnosticado um cancro. Durante alguns dias intensos, no outono, seguimos Arvid enquanto ele se esforça por encontrar uma nova base para a sua vida, ao mesmo tempo em que os padrões estabelecidos à sua volta se estão a alterar a uma velocidade estonteante. Enquanto tenta conciliar-se com o presente, volta a recordar as suas férias na praia com os irmãos, o namoro, e o início da sua vida de trabalho, quando como jovem comunista abandonou os estudos para trabalhar numa linha de montagem. 
Maldito Seja o Rio do Tempo é um retrato honesto, enternecedor e simultaneamente bem-humorado de uma complexa relação entre mãe e filho, contado na prosa precisa e bela de Petterson.”

D. Quixote, 2013

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