Esteja eu onde estiver – Romana Petri

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Este deve ter sido um dos livros mais lidos neste grupo. E também mais apreciado e elogiado. Por isso, e também devido à desarmante simpatia da autora, que teve a amabilidade de se juntar a nós para uma conversa na semana passada, parti para a sua leitura com a firme convicção de que iria, necessariamente, adorá-lo.

Pois bem: gostei de ler, não há dúvida. Seria impossível não gostar, quanto mais não fosse pelo retrato fiel da sociedade lisboeta e da própria cidade de Lisboa, em especial na parte da história decorrida antes do 25 de Abril, e pela análise psicológica de algumas personalidades-tipo bem definidas. Mas adorar é uma coisa diferente. Adoramos um livro que nos enche as medidas, que explora situações e personagens de modo a superar expectativas, que nos surpreende com matizes inesperados em quadros que julgávamos previsíveis. Ora, não é bem isso que acontece aqui. Aqui, temos um conjunto de personagens caracterizadas por traços psicológicos marcantes – uma mulher resignada e fraca; uma mulher forte, lutadora mas incapaz de se libertar de um amor antigo; uma mulher forte, lutadora e independente; uma mulher condenada à nascença a uma existência terrível e sempre bem disposta; um homem sedutor, falso e mentiroso; um homem sedutor e insensível; um homem ambicioso, calculista e incapaz de expressar sentimentos; um homem viciado em diversão e incapaz de encarar a realidade – que, inevitavelmente, nos fazem identificá-los com alguém que conhecemos, da vida real ou da ficção. E isso acontece precisamente porque, ao longo da narrativa, estas personagens pouco mais fazem do que confirmar os traços gerais do seu carácter tais como acima enunciados em duas ou três palavras. É certo que existem muitas pessoas cujas personalidades se definem essencialmente por dois ou três traços mais fortes. Mas a palavra-chave aqui é “essencialmente”. Mesmo essas pessoas possuem nuances de carácter, têm atitudes inesperadas, são por vezes diferentes do que se esperaria delas. É essa dimensão humana que falta aos personagens deste livro. Ninguém leva uma vida inteira de resignação sem nunca ter um assomo de rebeldia. Ninguém consegue ser forte e encarar a adversidade durante toda a vida sem nunca vacilar. Ninguém mente sempre, ninguém é irresponsável a tempo inteiro, ninguém é insensível a 100%. Neste livro, até os diálogos são inverosímeis: uma discussão,seja conjugal ou entre pai e filha, não é composta de longas dissertações proferidas por uma das partes sem qualquer interrupção da outra parte. Na vida real, as pessoas exaltam-se, interrompem-se, insultam-se, dizem o que não sentem para se arrependerem logo a seguir. Não discutem elaborando, com toda a calma, raciocínios lógicos e extensos sobre a situação. Por tudo isto, ao terminar a leitura, ficou-me uma sensação de incompletude: a meu ver, falta aqui uma parte da história. Falta relatar os momentos menos previsíveis, aqueles em que os personagens se afastam do caminho que lhes foi pré-determinado. Como fariam se fossem humanos.

Dito isto, tenho de admitir que o livro faz uma análise bastante interessante de alguns estados de espírito conhecidos de todos nós. Particularmente, das diferentes atitudes femininas perante a vida e o destino. Apesar de toda a dor que se contém nas suas páginas, é, sobretudo, uma obra optimista. Praticamente ordena-nos que encaremos as dificuldades com alegria e esperança, lembrando-nos de que é essa a nossa obrigação se tivemos a sorte de ser presenteados com a saúde suficiente para levarmos uma existência autónoma. E adverte-nos de que, se nos afundarmos na autocomiseração, nada conseguiremos com isso além de desperdiçarmos a nossa própria vida. Poderá ser uma visão um pouco simplista das coisas, como aliás o é todo o livro, mas não deixa de ter um fundo de verdade. Assim como muitas das reflexões que se encontram espalhadas pela obra revelam um conhecimento profundo dos mecanismos que regem as relações entre as pessoas. Não deixa de ser uma leitura leve, mas pelo menos é uma leitura leve de qualidade – bem escrita e com algum conteúdo.

Excertos:

“Mas ainda assim Margarida queria sentir-se feliz, mesmo naquele sofrimento pungente que a afligia. E não queria pedir ajuda, gritava dentro de si mesma que não queria, porque a ajuda nunca existe, apenas existe a ilusão, e cada momento de medo é uma espécie de morte. Sabia isso, que não devia deixar-se levar pelo medo, podia deixá-lo caminhar a seu lado, mas não dirigir-lhe a palavra, nunca, nem uma sequer. Tinha de aprender sozinha as coisas que não sabia, tinha de se chamar pelo nome e dizer-se aquilo que lhe diria uma mãe.” (pág. 86).

“- E pensavas que me tinha tornado numa daquelas mulheres que depois de uma grande desilusão veem patifes por toda a parte? Não, Ceuzinha. Eu não tive uma grande vida, mas sempre esperei pelo que viesse e continuarei a esperar com o mesmo otimismo até ao último dia. Não sou daquelas que se viram continuamente para trás, agrada-me mais a emoção que existe nas coisas que se esperam. Amanhã, amanhã, percebes? Sempre amanhã. O mundo é grande. Podemos ter esperança até ao último momento numa vida melhor. Mas não melhor depois, na outra vida, não, sempre nesta, sempre nós, prolongados aqui, de mãe para filho. E então, sim, ter mesmo uma visão da vida eterna, mas sempre aqui, na Terra, porque enquanto a vida durar nós também duraremos. Nada de dramas, de acordo?” (pág. 311).

“Aquele homem era tão incapaz de manifestar os seus sentimentos, que ela, com o tempo, estava a aprender a ser precisamente como ele, a ir contra a sua natureza que era exuberante como a da sua mãe Margarida. E então, muito em breve, tornar-se-iam dois pedaços de gelo que continuariam a viver juntos sem muita coisa para dizer, esperando apenas as horas e todos os dias com aquela resignação que só se aprender a ter em relação às coisas que ficam por concluir.” (pág. 368).

“- Então pensa nesse quase, pensa que sermos quase felizes desde o princípio de pouco serve. Ouve, Joana, é sempre uma questão de percentagens. Com o tempo, as percentagens diminuem, logo, é preciso partir de mais alto, de muito alto, percebes?

– O que queres dizer?

– Que um homem, no início, deve agradar-te a cem por cento, a cento e vinte por cento, a cento e cinquenta. Porque depois esta percentagem irá fatalmente baixar e abaixo dos oitenta por cento não pode durar toda a vida.” (pág. 513).

“Por vezes, a tristeza é mesmo um destino. Eu encarnicei-me um pouco contra o meu, mas ela resignou-se. Não sei o que é melhor. Sabes, parece-me que encarniçar-se é uma grande perda de energias. Talvez tenha ficado doente por isso. Mas sempre foi mais forte do que eu. Talvez tenha sido assim sobretudo por vós, porque queria dar-vos uma mãe que sorria mesmo quando não tinha muita vontade. Também a minha mãe fez isso por mim.” (pág. 519).

Bertrand Editora, 2011.

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2 pensamentos sobre “Esteja eu onde estiver – Romana Petri

  1. Sónia, mais uma excelente opinião fundamentada num brilhante texto. Eu pessoalmente gostei muito do livro e das personagens que, a meu ver, estão muito bem caracterizadas. Realmente não é um livro que surpreenda ou que opere reviravoltas que nos façam vibrar, mas é um livro real que me convenceu. E lamento mas há mesmo quem leve uma vida de dor e resignação. Se me agrada ou se acho bem? Claro que não. Mas que é real lá isso é.

    • Às personagens, a meu ver, falta espessura. São demasiado uniformes e por isso soam um pouco a falso. As vidas de resignação existem, obviamente, mas não sem os seus altos e baixos, sem oscilações de humor, como aliás qualquer vida. E oscilações de humor é coisa que não existe neste livro. Cada personagem é definida por uma ou duas características de caracter e a elas se resume, sem nunca daí se desviar. Para um livro que pretende ser uma saga, parece-me pouco. Mais valia ter-se cingido às pessoas de uma única geração mas atribuindo-lhes mais cambiantes, tornando-as mais reais. Claro que isto é apenas a minha opinião, talvez influenciada pelas elevadas expectativas que tinha criado…

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