“Os Fragmentos” de Ferreira de Castro

Os Fragmentos - Ferreira de Castro

                                                                                                                                                                                  Caro Ferreira de Castro

Espero que me desculpe o atrevimento por escolher esta forma epistolar para escrever sobre o seu livro.

Folheei pela primeira vez “Os Fragmentos” através de um exemplar gentilmente emprestado por um amigo. A sua primeira página bastou para me convencer que este era um livro não para ler apenas uma vez mas sim para ter. Um livro enorme na sua discreta pequenez; um livro para reter, guardar e reler.Tendo nascido décadas depois da época nele retratada, impressionou-me imenso o retrato do nosso país traçado pela sua escrita fluida, despretensiosa, despojada de artifícios excessivos e bela, sobretudo, bela. “Os Fragmentos” despertaram em mim uma grande admiração pela forma clara e elegante como contam histórias das lutas proletárias dos primeiros decénios do século XX em Portugal e também em Espanha; impressionaram-me muito a força e tenacidade daqueles homens e mulheres que acreditavam na concretização de um mundo mais fraterno e justo pelo qual lutaram, nalguns casos, até à morte. Inicialmente perplexa com o título “O Intervalo”, logo percebi como este era absolutamente perfeito na sua simplicidade e não poderia ser mais adequado á sua narrativa. Infelizmente, pese embora a significativa melhoria das condições de vida dos portugueses ocorrida nas últimas décadas do século XX, lamento ter de lhe dizer que o mundo continua a viver no Intervalo. Os seus sonhos e aspirações, caro Ferreira de Castro, continuam, em grande parte, por cumprir. Mas hoje, pelo menos, os seus colegas jornalistas e escritores já não são obrigados a lutar contra as suas próprias palavras para fintar o famigerado lápis da censura.

Resta-me apenas dizer-lhe que apreciei imenso “Os Fragmentos” e que este livro conquistou inequivocamente um lugar especial nas minhas melhores memórias de leituras.

Atenciosamente,

R. Carvalho

“ Volto as gavetas sobre a minha mesa de trabalho, como se nela virasse o açafate doméstico, contendo apenas as migalhas dos dias vividos, de que se aproveitam somente as aspirações e os sonhos. Sonhos e aspirações que continuam vivos e ardentes e se realizarão inevitavelmente, mas talvez só quando eu já estiver morto.

Papéis que jaziam no fundo, submersos pelos mais recentes, estão agora à flor dos outros; a cronologia restabeleceu-se e eles falam-me dos anos em que fui obrigado a vigiar o comportamento das palavras para além das suas imposições estéticas, nesta mesma secretária de onde eles deviam erguer voo, direitos à luz exterior, e quedaram afinal na escuridão das gavetas como na de um túmulo.”

“ Longas edificações térreas, em várias filas, muito baixas e compartimentadas, não apresentavam uma só janela. Tinham unicamente portas. Portas a seguir a portas. E se não igualavam inteiramente as cavalariças dos fidalgos de outrora, era apenas por serem bastante mais pobres e muito mais humildes. Cada porta correspondia a um quarto, cada quarto a uma família. (…) O quarto servia de cozinha, de sala e dormitório; e á noite, nessa promiscuidade absoluta de corpos e de frangalhos, os pais, se eram respeitadores, apagavam a luz ou voltavam as costas quando as filhas já crescidas se despiam.”

“Um dos mineiros que me acompanha, velho lutador, vai-me falando baixinho das suas esperanças e do sol de Amanhã. E eu ouço-o enternecidamente, porque o Amanhã é um medicamento psicológico enquanto não chega o dia desejado, um medicamento de que todos os explorados carecem e aos deserdados não é mesmo permitido outro.

Do alto duma parede, na maioria destas quadras, a imagem de Cristo preside indiferentemente ao espectáculo. E vendo-a, vozes já antigas ressoam-me no cérebro, voltando a perguntar-me como tem sido possível aos donos do nosso planeta adorarem um homem revoltado e ao mesmo tempo aceitarem e fruírem, ao longo de dois mil anos, sem problemas de consciência, uma sociedade que chancela tal desrespeito ao ser humano?”

“A Humanidade está vivendo um intervalo entre o velho mundo que apodreceu e um mundo novo que nós desejamos e há-de vir. É um intervalo terrível, com grandes sofrimentos para muitos.”

“Cristobal continuava sombrio e calado. Há oito dias que ele, como todos quanto o Roig despedira procurava inutilmente trabalho. A crise tem uma carranca preocupada e as mãos fechadas; e vamos ouvindo dizer que trabalho só nos podem arranjar os mortos, deixando-nos vagos os seus lugares. Mas que há muita gente à espera.”

Aqui fica o link para o texto do Jorge Navarro sobre esta mesma obra: https://rodadoslivros.wordpress.com/2013/04/08/os-fragmentos-…maraes-editora/

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