“O sino da Islândia” de Halldór Laxness

Sino

A melhor palavra para descrever este livro é “grandiosidade”. Esta é uma obra grande, enorme mesmo, em múltiplos sentidos, literais e metafóricos; abarcando 439 páginas, a dimensão física reflecte fielmente a sua invulgar e indómita história bem como a forma de escrita superior do seu autor. Laxness construiu, através, da epopeia de um homem comum, talvez até um vulgar ladrão e um assassino (ou não), uma homenagem ao seu país e ao seu povo. Este livro é um tributo às maravilhas e contradições naturais da Islândia, a verdadeira terra de fogo e gelo, e também à tenacidade, força e resiliência das pessoas que habitaram e habitam ainda esta ilha temperamental do Norte da Europa. O curso da narrativa, contada de forma magistral, é sinuoso, por vezes coberto por véus a lembrar as brumas que escondem muitas vezes os rios, campos e lagos desse país, sendo rico em voltas e reviravoltas capazes de surpreender e arrancar exclamações ao leitor que nela mergulha. Trata-se de um romance histórico através do qual se vislumbra a rica herança cultural de um povo de lutadores mas também de poetas, de um povo marcado por uma profunda reverência pelos seus antepassados e senhor de uma  especial predilecção pelas histórias mágicas e grandes feitos heróicos preservados nas Sagas.  As personagens principais  apresentam, tal como a Islândia, inúmeras contradições e matizes, habilmente construídas, passíveis de suster a respiração do leitor que, perplexo, se interroga como é que toda a trama enfim se desenrolará.

Gostei imenso de ler este “O sino da Islândia” tanto pelo romance em si, quanto por tudo o que aprendi acerca da História desta ilha e dos islandeses. O único senão prende-se com o elevado nº de notas do tradutor e do editor, imprescindíveis para permitir ao leitor uma melhor compreensão desta obra, as quais foram remetidas para um anexo no final do livro. A meu ver, teria sido melhor se as mesmas tivessem sido colocadas em rodapé, o que facilitaria muito a sua leitura tornando-a mais agradável para o leitor. Não hesito em recomendar este livro a todos aqueles interessados em conhecer a literatura nórdica, àqueles que já a conhecem e apreciam e também a quem tenha um especial interesse por romances históricos. Este é um notável exemplo deste género literário que impressiona também pela originalidade e beleza do seu texto.

 

“- Ser flagelado nada faz ao homem em si- disse Ásborn Jóakimsson.- Mas tens de concordar que deve ser um pouco traumático para os filhos descobrir, quando crescerem que o seu pai foi flagelado. As outras crianças apontam para eles e dizem “O teu pai foi flagelado!” Tenho três meninas. Contudo, três ou quatro gerações depois, é algo que passa ao esquecimento – pelo menos não acredito que Ásborn Jóakimsson seja um nome tão notável que vá ser escrito nos livros e lido nos séculos vindouros. Bem pelo contrário, sou como qualquer outro homem anónimo: agora saudável, amanhã, morto. Por outro lado, o povo islandês viverá ao longo dos séculos, se não desistir, independentemente do que aconteça. É certo que me recusei a transportar o funcionário. Nem vivo, nem morto, disse eu. Serei flagelado, e para mim não há problema nenhum nisso. Mas se tivesse cedido, ainda que num assunto tão insignificante, e se toda a gente ceder sempre e em todo o lado, ceder a fantasmas e a demónios, ceder á praga e à varíola, ceder ao rei e ao carrasco, onde viveria este povo? Até o inferno seria bom demais para eles.”

 

“Embora um islandês possa pensar que possuir uma quinta reles seja uma façanha, as propriedades pouco valem no estrangeiro, minha querida filha – disse o juiz.- A pedra preciosa no anel de um conde rico em Copenhaga vale mais do que um condado inteiro na Islândia. Eu poderia receber rendas durante muitos anos e ainda assim não ter dinheiro suficiente para pagar esta capa nova. Nós, os islandeses, estamos proibidos de negociar ou navegar e, por isso, nada temos. Não somos apenas oprimidos, mas também um povo em risco de extinção.

 

– Arnas deu tudo o que tinha para reunir livros antigos, para que , mesmo que morramos, o nome da Islândia possa ser salvo. É então suposto que fiquemos a olhar enquanto ele é encarcerado numa prisão em nome da Islândia?

 

– Amar o próximo é uma bela doutrina, minha filha. E correcta. Mas quando se tem a vida em risco, a regra diz, normalmente, que cada um se ajuda a si mesmo.”

 

“- A consciência humana é uma juíza incerta do certo e do errado- disse ele.- A consciência é apenas um cão dentro de nós, treinado para obedecer ao seu dono, ou seja, às prescrições da lei em vigor, e o seu dono pode ser justo ou injusto, conforme as circunstâncias. E, por vezes, pode ter um dono que é ele próprio um criminoso. Não preste atenção à sua consciência no que acha ser correcto em relação à cabeça de Jón Hreggvidsson. Não é infalível, e seu pai também não. Pense que o tribunal errou até que se prove o contrário.

 

– Mas se o tribunal errou e Jón Hreggvidsson é inocente, não valerá mais a justiça do que a cabeça de um mendigo, mesmo que se saiba que a justiça falhou algumas vezes?”

 

“Um viajante esquece-se de que a pobreza domina o país assim que entra nos espaços abertos deste país luminoso, com o seu sol e a doce fragrância dos campos. As abençoadas e encantadoras casas cobertas de turfa no campo pareciam repousar num sono profundo.”

 

“- Encontrei naquele pardieiro, as folhas mais preciosas do Skálda. Procurámos até encontrarmos esse tesouro no meio do lixo da cama de uma velhota. Recordo o momento em que fiquei lá na sala, com as folhas na mão, enquanto pensava nas pessoas que mantinham o supra-sumo de todas as riquezas para um amante de livros nos países nórdicos: a velha decrépita, e o idiota, o camponês, um ladrão de corda desdenhoso e blasfemo, as suas costas inchadas das chibatadas do carrasco de que era acusado de ter assassinado,  a rapariga magra com os olhos enormes e as duas leprosas cujos rostos se tinham evaporado. Mas tu tinhas desaparecido. Sabia que partiria e que nunca mais regressaria. Nesse momento, traí-te. Nada me obrigaria a tornar-me o líder de um povo assassinado. Os livros da Islândia reclamavam a minha atenção.”

 

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