Maldito seja o Rio do Tempo – Per Petterson (Dom Quixote)

Maldito seja o Rio do Tempo - Per PettersonNovembro de 1989. Caiu o Muro de Berlim. Avizinha-se o colapso da União Soviética após setenta anos de existência. O que será do mundo vindouro?

Arvid Jansen, um eterno adolescente de 37 anos prestes a divorciar-se questiona-se igualmente sobre o seu futuro que tenta contrabalançar agora que tem conhecimento que foi diagnosticado um cancro à sua mãe.

Neste limbo de incerteza e dor, Arvid decide ir ter com a sua mãe que embarcou numa viagem de alguns dias rumo ao encontro com o seu passado na tentativa de recordar alguns dos momentos mais importantes e decisivos da sua vida, revisitando igualmente algumas das pessoas que a marcaram profundamente. Revisitar o passado ainda que por breves instantes traz à mãe de Arvid a certeza de que a sua missão está cumprida, assim como a consciência tranquila.

Durante esta viagem, também Arvid traz à luz o seu próprio passado quando era criança e passava as férias na praia com os seus irmãos, o seu primeiro namoro, quando começa a trabalhar, assim como os seus ideais comunistas da juventude.

Arvid ao ser confrontado com a doença da sua mãe é simultaneamente obrigado a repensar a sua posição perante a vida que, na verdade, é aquilo que todos nós, de uma forma ou de outra, em situações pontuais somos levados a pensar.

Quem não tem medo de morrer ainda que seja o que de mais certo temos sendo, pois, inevitável? É a ideia de não podermos ser aquilo que gostaríamos que nos atormenta ainda que não seja essa a imagem que os outros terão de nós? Quem não tem pena da sua própria morte por não poder continuar a ver as grandes transformações do mundo à nossa volta e que de alguma forma determinariam a forma de encararmos a vida e a realidade?

Estas são algumas das questões levantadas pelo norueguês Per Petterson em Maldito seja o Rio do Tempo, título bastante pertinente que nos arrasta como seres humanos na jornada da vida, mas que invariavelmente ficaremos pelo caminho do Tempo infinito deixando as imagens de nós mesmos para aqueles que cá ficam.

Escrito com a doçura e o humor característico dos autores nórdicos, Per Petterson apresenta-nos um romance que nos enrola nas ondas do rio do tempo e da vida levando-nos a pensar sobre o nosso lugar no mundo e a relação com todos aqueles que de alguma forma marcam/marcaram a nossa vida, privilegiando, no entanto, a relação mãe-filho que é sempre encarada como algo de sagrado desde o início dos tempos que nos liga através do amor complexo desta relação como se se tratasse dos quatro elementos da natureza: ar, água, terra e fogo na tentativa de procurar a harmonia que tanto Arvid  e todos nós procuramos.

Excertos:

“Ouvi-os levantarem-se da mesa e encaminharem-se para a porta. Percebi que tinham estado a discutir Gorbachev, o homem com o mapa de uma nação desconhecida na testa, que era agora presidente da União Soviética, nomeado para aquele cargo no ano anterior, e que viria a ser o último líder de um estado que era uma experiência de setenta anos onde tudo fora parar ao inferno já há muito tempo. Mas ninguém ainda o tinha percebido. Que Gorbachev iria ser o último. Nem mesmo ele.” (p. 63)

Per Petterson“Eu queria ser diferente. Eu queria fazer a diferença. Mas não a fiz, e de repente apercebi-me que aquilo que tentara fazer podia não ser possível: deixar para trás o Arvid que eu fora até àquele momento na minha vida, puxá-lo pelo cabelo e depois baixá-lo para outro Arvid que eu ainda não conhecia, sim, e com uma convicção total virar as costas ao Arvid que era amado por aqueles que ele mais amava, que o cumprimentavam e o tratavam por nomes carinhosos quando passava por eles em frente da casa, o Arvid que recebia notas de cem coroas da mãe quando estava sem dinheiro, mas que agora fizera aquilo que ‘eu’ tinha feito e juntara-se ao ‘peuple’ que na realidade já não existia, mas era um anacronismo. Eu era um homem fora do tempo, ou a minha personalidade tinha uma falha, uma fenda na sua base que aumentava a cada ano que passava.” (p. 192)

“- Achas que tenho medo de morrer? – disse ela.

– Não sei. Tens?

– Não – respondeu. – Não tenho medo de morrer. Mas raios, não quero morrer agora.

(…)

Era verdade, ela não tinha medo de nada de que eu me pudesse lembrar, mas eu sabia que havia algumas coisas que ela queria ver antes de morrer, que queria experimentar, claro que todas as pessoas se sentem dessa maneira, mas ela queria mesmo ver o colapso da União Soviética, agora que o Muro tinha caído. Fazer parte disso e daquilo que se seguiria, ver triunfar Gorbachev ou vê-lo confessar que tudo aquilo fora demasiado longe, o que não era improvável; mas de qualquer maneira seria amargo se ela não conseguisse viver aquilo e eu também queria ver tudo, e provavelmente iria vê-lo, mas no que se referia à morte, eu tinha medo. Não de ‘estar’ morto, isso eu não conseguia compreender, não ser nada era algo impossível de aprender e por isso, na realidade, nada a recear; mas conseguia compreender o morrer em ‘si’, aquele instante em que sabemos que chegou aquilo que sempre tememos, e de repente percebemos que todas as hipóteses de sermos a pessoa que quisemos mesmo ser desapareceram para sempre, e a pessoa que fomos, é aquela que todos se irão recordar.” (p. 235)

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3 pensamentos sobre “Maldito seja o Rio do Tempo – Per Petterson (Dom Quixote)

    • Fiquei igualmente com curiosidade em ler “Cavalos Roubados” do mesmo autor que ganhou vrios prmios estando traduzido em muitas lnguas. Felizmente esse ttulo veio de oferta com o novo livro!

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