Debaixo de Algum céu – Nuno Camarneiro

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Os títulos dos livros atraem-me muitas vezes mas nem sei porquê não consigo atinar com este título que até é giro, que faz todo o sentido mas que por alguma razão não me fica na memória, tenho que fazer um esforço por me lembrar da frase que sei que incluí o “céu” mas que nunca sei se é debaixo de qualquer céu ou coisa parecida.

Mas vai ser difícil esquecer alguns personagens deste livro.

Mas vamos por partes. Comecei a lê-lo sem qualquer expectativas. Sim, sei bem que Nuno Camarneiro, com este livro, ganhou o prémio Leya. Mas já ouvi opiniões boas e outras más e acabei por ficar sem grande curiosidade e as expectativas bem balanceadas.
Encantei-me às primeiras páginas. Nem foi pela história, o que pode parecer estranho, foi pelas palavras, por uma espécie de poesia (provavelmente imaginada) que lhe senti. Li as primeiras folhas parando em várias frases, imaginando outras, tentando absorver a história, conhecer os inúmeros personagens. Depois veio um sentimento escuro, uma nostalgia e tristeza que me acompanhou até ao fim. Há livros que se explicam melhor por imagens, por cores e este é em tons de cinza e negro com alguns raios de luz (azul?) a lutar contra a escuridão.
 Não é gente feliz aquela e nem o toque de esperança final me mudou o sentido. Seremos todos, afinal, assim? Sem esperança, sem querer? Sem Crer?
Num livro passado em vários dias, com cada um especificado, não pude deixar de me arrepiar com a noite de Natal daquela gente. Sou uma apaixonada pelo Natal, pela confusão da família, pelas comidas, pelos doces, pelos risos, pelos jogos. Detesto televisão no Natal, detesto casas vazias, sono, solidão. Gosto da confusão, gosto da expectativa. E a esta gente faltou-lhes tudo, os risos, os beijos, a esperança, a ansiedade.  Acho que foi esse o momento mais negro deste livro.
De todos os personagens interessaram-me o David e o Marco Moço deste início. O David pelo mistério da personagem, pela solidão escolhida, pela tentativa de rebelião. O Marco Moço pela luz que cedo lhe intuí, pela paz que transmitia, imagino-o um velho com a pele morena curtida pelo mar e pelo sal, com voz doce e serena.
Não aconselho a que se leia este livro à espera de uma história complexa mas óbvia. E não sou daquelas leitoras que extrapola e faz paralelismos com a realidade e lê nas entrelinhas os segundos e terceiros sentidos que se imagina que os escritores quiseram transmitir. Leio um livro como ele se me apresenta, com as palavras a construírem cenas que contam uma história. E esta é uma história fragmentada em cenas isoladas, um puzzle que constrói uma imagem que é afinal um fragmento do todo que, se quisermos, imaginaremos.
Isto tudo para dizer que gostei deste livro, gostei mesmo muito. Não me interessa se foi premiado, se reúne ou não consensos. Um livro vale pelo que consegue transmitir. E eu, por algumas horas, vivi naquele prédio.
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