A raiz do ódio – Anne Holt

ImageComo é a raiz do ódio? Onde começa, como se alimenta para crescer até ramificar e destruir tudo à sua volta?

Este livro, o primeiro que li da Roda dos livros, foi uma ótima surpresa. Definitivamente Anne Holt entrou para a minha lista de autores favoritos.

O livro começa com uma criança especial, Kristiane, a caminhar descalça numa noite gelada das ruas de Oslo. É salva, in extremis, por um desconhecido. Johanne, a mãe da criança, não compreende quando ela lhe diz “A senhora estava morta”.

Adam, marido de Johanne, é chamado para investigar a morte da episcopisa Eva Karin, fervorosa defensora dos direitos dos homossexuais. Mas há outras mortes a serem investigadas pela polícia. Um drogado, um prostituto e um artista entre outros.

A história vai-nos sendo revelada a várias vozes, as várias histórias interligando-se. Há muitas coisas que percebemos facilmente, outras que apenas nos são reveladas no final. Mas o interesse mantém-se sempre.

Por trás da história está o que nos faz pensar. O ódio e a violência dirigidos a grupos com características específicas, não a pessoas específicas. O que faz alguém matar outro alguém apenas porque este é negro, cigano, homossexual ou de outra religião? Como é que é possível deturpar uma religião, pegando num texto escrito há milhares de anos e usá-lo literalmente para tirar vidas? Como é possível usar alguém, usar-lhe a fé, o desespero, a necessidade de encontrar um sentido para a vida, moldá-lo e torná-lo num instrumento ao serviço do dinheiro e da maldade humana? Como é possível, num momento de loucura, destruir a vida de tantos?

Temos a sorte de viver num país onde os crimes de ódio não são muito comuns (penso eu), por cá o racismo, a homofobia, a xenofobia mostra-se mais nas palavras que nos atos. Não é essa ausência de violência que nos iliba, que nos faz melhores. É necessário que nem sequer tenhamos que pensar que todos somos iguais, essa certeza terá que ser inata, não aprendida. É necessário que não nos sintamos diferentes apenas porque temos uma outra raça ou nos apaixonámos por alguém do mesmo sexo.

Culturalmente ainda temos muito que evoluir. Legalmente ainda há um longo caminho a percorrer.

 A evolução, as leis mais justas nos direitos dos que ousam seguir um caminho menos tradicional, a convicção que tantos de nós temos de que ser de outra raça ou escolher amar alguém do mesmo sexo não faz de ninguém diferente ou com menos direitos será o suficiente para que este tipo de crime nunca aconteça no nosso país? Países com uma democracia mais antiga que a nossa, mais evoluídos nas leis, com índices de iliteracia mais baixos têm muito mais problemas com crimes de ódio que nós. Às vezes acho, e pensei-o várias vezes ao longo deste livro, que quanto mais queremos normalizar as diferenças mais nos afastamos do objetivo. Há que voltar ao básico, ao respeito inerente ao: Somos todos iguais.

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