A Escrava de Córdova – Alberto S. Santos

6380986_JobtYApenas recentemente me interessei por este romance, não que me tivesse passado despercebido quando foi lançado, mas foram de facto as notícias da sua edição Espanhola que acordaram a minha curiosidade para o ler. Trata-se de uma das minhas aquisições nesta Feira do Livro de Lisboa e, sem dúvida, uma excelente compra.

Logo de início, e com base na primeira análise estrutural do livro que sempre faço, detectei vários pontos positivos que foram sem dúvida um apoio fundamental na leitura: um mapa do território Ibérico da época; um glossário de termos religiosos e não só, ao qual recorri infinitas vezes; um esquema cronológico simples mas muito útil para contextualizar a acção.

Quem conhece as minhas opiniões e gostos sabe que poucos géneros literários me entusiasmam tanto como o Romance Histórico. Por permitir descobrir sempre coisas novas e aprofundar conhecimentos, por dar uma visão e perspectiva que não tinha ou na qual ainda não tinha pensado, este tipo de livros leva-me sempre numa viagem aos cheiros e emoções do passado. E foi de facto o que se passou neste caso. “A Escrava de Córdova” é, acima de tudo, um livro bem pensado e idealizado, respeita datas históricas, explica acontecimentos reais, e enquadra uma história de ficção que sentimos que pode mesmo ter acontecido.

Ouroana é uma jovem Cristã, nascida no ano de 976 d.c. na zona actual de Entre-os-Rios. No mesmo ano, mas a muitos quilómetros de distância, em Córdova, nasce Abdus. O destino destes jovens vai cruzar-se, o seu encontro fará com que ambos cresçam espiritualmente, pensem e reflictam acerca de Deus, dos costumes em que ambos foram educados e, no fundo, sobre as diferenças religiosas.

O autor consegue, a meu ver, fazer uma extraordinária análise e exposição do que representou para nós a presença Árabe no território que é actualmente Portugal e Espanha. De facto, uma civilização à frente do seu tempo, cujos avançados conhecimentos permitiram construir e manter um império. Desde conhecimentos de Engenharia, Medicina, passando pela importância dada aos registos históricos pela forma como mantinham bibliotecas e livros, até ao culto da beleza e dos cuidados com o corpo, a civilização Árabe era e é de uma riqueza inimaginável, somente perdida e deturpada pelo fundamentalismo que, já nessa época, a veio minando até aos dias de hoje.

Mas voltando ao percurso de Ouroana, é pelos olhos desta princesa Cristã, que por acasos do destino se torna escrava em território Andaluz, que nos é dado pensar sobre todas estas questões que fazem parte das nossas raízes e são extremamente marcantes para a história da humanidade. A saudade, o amor, a amizade marcam a vida desta jovem e, com o tempo, libertam-na de preconceitos para simplesmente procurar ser feliz. Conclusões simples mas profundas que numa sociedade sem maldade e com o verdadeiro objectivo de chegar a Deus, teriam evitado inúmeras guerras e catástrofes.

À parte a história de Ouroana destaco Ermígio. O amigo que, sentindo-se responsável pelo desaparecimento da jovem da sua terra natal, se lança numa odisseia de perigos para a recuperar para junto da família. A viagem de Ermígio é longa e sinuosa, mas é também uma aprendizagem e razão de profundo crescimento interior. Ao deslocar-se para sul vai conhecendo melhor a realidade da cultura muçulmana, vai-se deparando com costumes completamente novos e, inevitavelmente, vai sendo surpreendido com a inegável superioridade de alguns preceitos Árabes. No seu percurso conhece Ben Jacob, um Judeu que é descrito de forma primorosa, pois compreende todas as características habitualmente atribuídas a este povo, desde a aptidão para os negócios aos conhecimentos históricos que marcam uma religião milenar. Ben Jacob é a minha personagem favorita deste livro, o seu surgimento surpreendente nas mais diversas situações vem permitir que a reflexão religiosa e histórica se alargue e adense. Cristãos, Árabes e Judeus. Diferentes perspectivas do mesmo Deus?

Este é simplesmente dos melhores livros que li.

Sinopse

“A Escrava de Córdova segue a vida de Ouroana, uma jovem cristã em demanda pela liberdade e pelo seu lugar especial no mundo. Confrontada com as adversidades do tempo em que lhe foi concedido viver, e em nome do coração, a jovem terá de questionar a educação, as convicções e a fé que sempre orientaram a sua existência. Será, por entre a efervescência das mesquitas e o recato das igrejas granÌticas da sua terra, que a revelação por que tanto almeja a iluminará.
Uma história inolvidável de busca de felicidade que tem lugar nos séculos X-XI, numa época pouco tratada pela Historiografia oficial e mesmo pela ficção romanceada. Um pretexto para uma brilhante explicação sobre o caldo cultural e civilizacional celto-muçulmano dos actuais povos peninsulares e uma profunda explanação sobre as origens, fundamentos e consequências da conflituosidade étnico-religiosa que hoje, tal como no distante ano 1000, ainda grassa no mundo.
Alberto S. Santos, com rigor histórico e descrições impressivas, revela-nos a mentalidade, a geografia, o quotidiano urbano, as concepções religiosas, a fremente História do dobrar do primeiro milénio, e, sobretudo, a intensidade com que se vivia na terra onde, mais tarde, nasceram Espanha e Portugal. Dá-nos ainda a conhecer o ângulo mais brilhante, mas também o mais duro e cruel, da civilização muçulmana do al-Andalus.”

Porto Editora, 2008

(Texto escrito em 2010)

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2 pensamentos sobre “A Escrava de Córdova – Alberto S. Santos

  1. Creio que vais gostar de ler “O segredo de Compostela” que de um modo geral tem uma configuração semelhante. Um mapa do território da época no inicio e um glossário no fim. O esquema cronológico é que não me recordo. Suportes para contextualizares a narrativa. E claro, é um romance histórico muito bem concebido. Vais gostar de Prisciliano.

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