Os Cães – Ola Nilsson

Os caes

Numa pequena localidade sueca, um grupo de adolescentes vai passando pelos dias sem objectivos definidos. Ou melhor, com um único objectivo definido, esse bem interiorizado: beber muito, beber a toda a hora, para esquecerem a sua própria existência.

“Eles viram a luz. Uma luz divina que propaga as suas bênçãos na forma de garrafas, copos e garrafões de plástico. Procuram a mesma coisa. Beber até já não conseguirem sentir nada da vida. É, pelo menos, nisso que acreditam. E são ambos crentes.” (pág. 22).

Juntam-se numa ponte sobre um lago de águas negras que ocultam troncos submersos. Tal como as suas almas. A natureza que os envolve é esmagadora, tal como o mundo em que têm de viver. Um deles morreu ao tentar divertir-se um pouco. Agora, parecem resignados a suportar o que lhes está reservado. As raparigas oferecem o corpo porque é o que se espera que façam. A sua autoestima é inexistente. Nem mesmo entre eles existe compreensão, seja porque cada um se fechou em si mesmo, sem qualquer vontade de comunicar com o próximo, seja porque as suas personalidades distorcidas inviabilizam qualquer tipo de empatia. Mesmo quando estão juntos, transpiram solidão.

“É engraçado eu sabê-lo antecipadamente. Mesmo que talvez não queira que aconteça, pensa ela. Eu deveria ser capaz de impedir que aconteça, mas, mesmo assim, acontce. Vou acabar deitada em qualquer canto da casa, inconsciente, ou acordada, com o caralho do Nicklas dentro de mim. Mesmo que não o queira – não verdadeiramente, para ser sincera. Mas é como se tivesse de o fazer, como se lho devesse, como se o devesse a todos. Eu sei porque lhes devo isso, sei porque tenho de o fazer. É óbvio. Olho para mim e comparo-me com os outros e sei que lhes devo isso. Mas os outros não parecem importar-se. Os outros também têm obrigações, sei que têm, vejo-o constantemente, mas simplesmente não querem saber. Limitam-se a rodear-me, observando-me para não olharem para si próprios. Como conseguem não se ver a si próprios?” (pág. 37).

Mas ainda restam alguns vestígios de humanidade nestes jovens. Ainda estão, de alguma forma, ligados aos pais. Talvez porque, ali, os laços familiares se estendem sobre a terra como teias de aranha. O instinto protector é quase animal, quase como numa matilha de cães. Apenas com uma particularidade: são os filhos que procuram proteger os pais, sentindo-se na obrigação de os defender das trevas que trazem dentro. Sim, os pais também são atormentados. Mais até do que os filhos. O que tem a sua lógica: vivem ali há mais tempo.

“Formou-se um pedaço de gelo no peito de Ida quando o viu assim, a olhar para as árvores sem nada ver. E a escuridão nele espalhou-se também sobre ela. Espalhava-se sempre sobre ela, nunca sobre Sanna. De algum modo, Sanna nunca parecera ser suscetível. Ida talvez soubesse porquê. Ela sabia que fora ela quem tomara a responsabilidade, que escolhera puxar aquele cobertor negro sobre si, e que mais ninguém poderia ser culpado por isso. Mas se ela não o fizesse, mais ninguém o faria, e ela sabia-o muito bem. Tudo o resto poderia não ser verdade, mas ela sabia com toda a certeza que mais ninguém carregaria a escuridão se ela não o fizesse.

De repente, o seu pai contorceu-se, e ela viu o terror surgir no seu rosto. Desapareceu de imediato, mas estivera lá e pousara a sua mão gelada sobre si. Ela sabia que ele estava a cair.

Nós, pensou ela.

Ela olhou para as flores rosa e lilases que abanavam a0 vento.

Agora, estamos a cair.” (págs. 30 e 31).

Aqui, a apatia domina a vida desde muito cedo. Poderá haver um ou outro acto de resistência, uma ou outra tentativa de escapar do rumo comum, mas depressa se desvanecem, abafados pela força magnética da terra. A ligação à terra, as raízes, prendem os habitantes num abraço poderoso. Uma possível alteração de trilho ficaria sempre incompleta, careceria sempre de conteúdo. Não há evasão possível, a não ser a evasão da mente, enquanto o corpo continua a seguir a direcção que lhe compete. Beber e esquecer, beber e atingir a insensibilidade que permite chegar ao dia seguinte.

“O Erik quer viver noutro lugar. Mas não é suficientemente forte para quebrar as raízes que constantemente absorvem tudo o que ele quer, mas que tornam os outros mais fortes, enquanto ele simplesmente se torna um torrão cinzento. Ele não consegue fazer nada. Ele é simpático, mas fraco, e não consegue fazer nada. Nem sequer agora, quando está tudo acabado para o velhote, consegue fazer alguma coisa. E as raízes tornam-se simplesmente cada vez mais fortes.” (págs. 85 e 86).

“Um dia, pensa ele com uma careta. Um dia, muito em breve, o seu interesse morrerá e ela adaptar-se-á a qualquer coisa, sabe deus o quê, e depois está tudo acabado. Então, começa a desaceleração para ela. No fim, é tão velha quanto eu e volta então a despertar um pouco, só para se aperceber de que é um pouco tarde. Não total e completamente tarde, mas um pouco. O suficiente para tornar os últimos anos da sua vida nunca verdadeiramente bons, mas simplesmente um capricho ou, na melhor das hipóteses, um passatempo. Mas nunca é tão bom como se o tivesse feito desde o início. E, assim, é-se constantemente lembrado de que a primeira parte da vida de um adulto não teve qualquer sentido. E deseja-se que, em vez disso, se tivesse fechado os olhos de vez.” (pág. 90).

Eucleia Editora, 2012

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